NASSAU'S OPTICS ON TOPICS


Gravações


Música - Nº. 595

"Jesus Sertanejo"

Rolando de Nassáu

Vimos a fita de video produzida pela JURATEL na qual foi gravado o programa informativo da Junta de Missões Nacionais, realizado por ocasião da Assembléia da CBB, em janeiro de 1996, em Natal, RN.

O locutor avisa que "nada há-de ficar oculto", mas foi justamente o que aconteceu: além da precariedade técnica da filmagem, a inexistência de documentação deixa o espectador sem saber quais são os participantes do programa. Várias vezes impropriamente chamado de "culto", o espetáculo é uma mistura de relatórios falados, execução musical, canto coral e dança. Embora a "mistura" não seja uma virtude, foi uma forma original, concebida com criatividade, de apresentar informações sobre a obra missionária dentro do Brasil.

O locutor excedeu-se ao indagar: "Ordem-de-Culto com literatura de cordel? Por que não!?". O dramaturgo nordestino Ariano Suassuna observou: "Até agora, os cantadores e os folhetos de cordel têm revelado uma impressionante capacidade de resistência" (ver: "VEJA", 03 julho 96, pp.7-9). Querem os Batistas do Nordeste tornar-se o último bastião da literatura de cordel? Outro exagêro: chamá-la de "melhor literatura do Brasil" e, o repente, de "melhor meio de comunicação".

A fita dura 60 minutos, sendo 34 dedicados a partes musicais e 26 deixados às falas de missionários procedentes do Nordeste; música composta e coreografia desenhada para entretenimento dos convencionais.

Os autores, com algum êxito, procuraram um estilo simples, com uma sincera devoção aos sons, às aparências e aos odores de seu ambiente. Um autêntico cantador em seu canto adverte: "Se você não aprecia, não fique falando mal". A variedade e pluralidade de estilos, a audição e visão de sons e movimentos diferentes não nos causaram impacto. Os batistas nordestinos apresentaram alguns tipos de danças e cantos folclóricos. Ficaram aquém da nossa expectativa: faltaram instrumentos típicos (rabeca, sanfona, viola, ganzá, pandeiro), mas foram usados teclados, cordas eletrificadas e a indefectível bateria de "rock". Ainda citamos Suassuna: "A guitarra elétrica é uma bandeira da descaracterização do Brasil".

Em tudo sentimos que os autores produziram uma composição musical-coreográfica destinada ao efêmero entretenimento. Quanto à sua apresentação num templo, durante um culto, absolutamente, não! A manifestação da cultura batista pode ser feita extra-muros, como forma alternativa de propaganda evangelística. Dentro da igreja, toca as raias da irreverência!

Será que em Manaus, executando "Floresta Amazônica", de Villa-Lobos, moças e rapazes emplumados cantarão "Auê catú perê! Auê catatú perô?" ... Teremos o "Jesus Amazônico" ...

(Publicado em "O Jornal Batista", 29 dez 1996, p. 8).

Retorna ao Menu de Artigos


Música - Nº. 621

A Gravação do Século

Rolando de Nassáu

Em fins de 1912, gravou o Coro da Igreja Evangélica Fluminense, no Rio de Janeiro, alguns hinos, em seis discos de dez polegadas, com 78 rotações por minuto. Na "Discografia Brasileira" está registrado um disco, com o hino "Pendão real"; este é o mais antigo disco evangélico gravado no Brasil.

Num período de 50 anos (1912-1962), foram comercialmente gravados no Brasil apenas 22 discos evangélicos (ver: "No tempo do gramofone ... ", O JORNAL BATISTA, 17 mar 85, pp. 2 e 11).

Produzido por Dorotéa Kerr, com a participação de coros de sete igrejas e os corais evangélicos de São Paulo e de Piracicaba, acompanhados pela Orquestra "Jahn Sorheim" e pelo organista Nélson Silva, sob a regência de Gilberto Massambani, recentemente foi lançado o CD "Hinos da nossa História", gravado na Catedral Evangélica paulistana.

São lembrados hinos que foram cantados por protestantes e evangélicos nos 500 anos da história do Brasil, e que constam do "Hinário Evangélico" (HE) ou do "Hinário para o Culto Cristão" (HCC).

"Do fundo de um abismo" (HE-254), "Aus tiefer Not", coral de M. Luther, extraído do hinário de Wittenberg (1524), foi entoado por Hans Staden, em 1549, entre os indígenas tupinambás, no litoral paulista, sendo o primeiro hino luterano a ser cantado no Brasil e na América do Sul. O órgão, na introdução, dá o tom sombrio, confirmado pelas vozes masculinas, enquanto as femininas atenuam o lamento.

"À minha voz, ó Deus, atende!" (HE-93), "Aux paroles que jê veux dire", salmo metrificado de C. Marot e L. Bourgeois, extraído do saltério de Genebra (1551), foi cantado no Rio de Janeiro, em 10 de março de 1557, no primeiro culto evangélico realizado por calvinistas no Brasil. O coro expressa bem sua súplica.

"Louvores a Deus" (HE-132), coral em 1597 escrito na língua holandesa ("Wilt heden nu treden") por A. Valerius, depois traduzido para a alemã ("Wir treten zum beten"), para celebrar as vitórias de Maurício de Nassáu sobre a Espanha, foi cantado, em 1640, em Pernambuco, festejando a vitória sobre os portugueses; este hino em ação de graças tinha sido incluído em 1626 na coletânea "Nederlandtsche Gedenck Clanck" (canções holandesas de gratidão). A música é grandiosa, no acompanhamento pelo órgão, para um canto coral portentoso. Por isso, o melhor trecho da gravação.

"Santo! Santo! Santo!" (HE-104, HCC-2) refletiu, pouco antes da era vitoriana, a preocupação de R. Heber e J. B. Dykes em elaborar um hino de alto nível literário e musical. Dykes iniciou o movimento de expressão emocional na música-de-igreja inglesa. Gilberto Massambani e Nélson Silva dão o devido tratamento sinfônico ao hino, cantado pelo coro com a majestade exigida pela letra.

"Saudai o nome de Jesus" (HE-130, HCC-56), hino de E. Perronet e J. Ellor, publicado em 1779 no "Gospel Magazine", recebeu três músicas diferentes, das quais a mais recente (1838) é a executada na gravação. Contemporânea e imitadora de Dykes, a música de Ellor é grandiloqüente; agradou o gosto musical da época, o que ainda ocorre no meio evangélico, contradizendo as opiniões dos que desprezam a hinodia.

Em 1866, ao escrever a letra do hino "Da Igreja o fundamento é Cristo" (HE-205, HCC-504), S. J. Stone procurou defender a doutrina da Igreja da Inglaterra. O órgão e os trompetes (música de S. S. Wesley) retratam a magnificência da liturgia anglicana.

"Mestre, o mar se revolta" (HE-342, HCC-408), de M. A. Baker e H. R. Palmer, é um hino em que os regentes dão um toque musical realista à letra. Gilberto Massambani procurou resistir à tentação do óbvio.

E. P. Stites em 1876 escreveu o hino "Na terra abençoada estou" (HE-457, CC-481), musicado por J. R. Sweney, expressando suas experiências nos contatos com diversos lugares e diferentes pessoas; é uma balada americana, inspirada pelo otimismo cívico da época.

Quando escreveu o hino "Deus vos guarde" (HE498, HCC-37), J. E. Rankin era pastor de uma grande igreja na capital americana, freqüentada por congressistas e juízes federais; neste hino, Rankin revela seu perfil pastoral.

Os coristas assimilaram bem o sentido do hino.

D. W. Whittle e J. McGranahan elaboraram, em 1887, o hino "Um pendão real" (HE-406, CC-469). Whittle participou ativamente da Guerra de Secessão e seu gênio militar transparece neste hino marcial. As vozes masculinas cantam as estrofes; as femininas, o estribilho, como que para incentivá-los à luta ...

"Vencendo vem Jesus" (HE-312, HCC-153), de J. W. Howe (1861), e "Da linda pátria estou mui longe" (HE-453, CC-484), de J. H. Nelson (1891), usando melodias da época da Guerra Civil, são exemplos de hinos com ambientação folclórica americana; a balada de Foster é interpretada com leveza, pelas vozes e pelos instrumentos.

Quatro "gospel hymns", escritos entre 1880 e 1910 (as três décadas em que esse tipo primitivo de "gospel" gozou de ampla popularidade nos EUA e no Brasil) são cantados: 1) "Manso e suave" (HE-231, CC-222), as vozes femininas são persuasivas; 2) "Chuvas de bênçãos" (HE-327, HCC-337), tem um apelo popular em seu elemento rítmico; 3) "Se da vida as vagas procelosas são" (HE 338, HCC-444), no fim do século XIX atendeu à natureza irrequieta dos jovens; era o "gospel" balançado; 4) "Jesus, Senhor, me chego a Ti!" (HE-245, CC-270), as vozes masculinas mostram-se incisivas.

Se o coro e a orquestra tivessem falhado no "Aleluia", de Haendel, no fim da gravação, estariam perdoados pelo bom desempenho no canto de 16 hinos.

Louvável o esforço de manter o patrimônio hinódico dos evangélicos no Brasil. Se forem destruídos, neste século 21, todos os hinários e todas as gravações de hinos, mas se permanecer intacto este CD, as futuras gerações poderão saber como e o que cantavam os evangélicos brasileiros. Não hesitamos em afirmar que esta é a gravação definitiva, representativa e a de melhor qualidade feita no século 20. Recomendamos este CD excepcional, que honra a discografia evangélica brasileira.

(Publicado em "O Jornal Batista", 12 de março de 2001, p. 7).

Retorna ao Menu de Artigos


Música – Nº. 660

"Eclésia" na Sala "Cecília Meireles"

Rolando de Nassáu

À noite da quinta-feira, 21 de março, o Coral "Eclésia" apresentou-se na Sala "Cecília Meireles", na cidade do Rio de Janeiro (RJ), com o apoio da Secretaria de Cultura e da Fundação de Artes do Estado do Rio de Janeiro (FUNARJ).

A Sala "Cecília Meireles" (Largo da Lapa), com capacidade para 800 pessoas sentadas, depois do Teatro Municipal, é a mais prestigiosa sala-de-concertos.

O concerto do "Eclésia"serviu para mostrar ao público carioca o que há de mais refinado na cultura musical batista.

A gravação

Em julho de 1997, no Salão "Leopoldo Miguez" da Escola de Música da UFRJ, foi gravado em CD um concerto do "Eclésia", com peças de Haendel, Mozart, Mendelssohn, Brahms, Pitoni, Malotte, Hairston, Blankenship e Egger.

Neste segundo concerto, gravado "ao vivo" e lançado no culto dominical matutino de 07 de julho de 2002, o CD já pode ser considerado a mais importante gravação realizada nos últimos 50 anos por um coro de igreja batista no Brasil.

A capa, muito modesta, em preto e branco, não revela a riqueza de conteúdo do CD. Teria onerado a produção, mas o CD merecia um encarte contendo notas elucidativas do programa.

Por não ter havido uma cuidadosa revisão, a contracapa do CD exige algumas correções: 1) a missa em ré menor, de Haydn, é a missa "In angustiis", também conhecida como missa "Nelson"; 2) o oratório, de Haydn, é "Elias"; 3) o "Pai Nosso", é de Malotte"; 4) o moteto de Bach é "Cantai ao Senhor um novo cântico"; 5) a cantata BWV-4, de Bach, é "Cristo jaz nos laços da morte"; 6) o antema, de Haendel, é "Zadoque, o sacerdote".

Este CD enriquecerá a discoteca de qualquer pessoa de fino gosto.

O coro

O da Primeira Igreja é o mais antigo coro de igreja batista na Cidade do Rio de Janeiro; existe desde 1904, pelo menos; em 14 de julho desse ano, cantou na solenidade comemorativa do aniversário do lançamento da pedra fundamental do edifício do Hospital Evangélico Fluminense, no Rio de Janeiro (ver: OJB, 20 jul 1904, p.1).

Em 06 de maio de 1915, foi organizado, sendo regente Daniel Cordes. Reorganizado, com o nome de Coral "Eclésia", em 1967 assumiu a regência Anna Campello Egger (ver: "Nassau – Dicionário de Música Evangélica", p.59).

Para comemorar o fato raro de 35 anos de regência (1967-2002), realizou-se este importante concerto.

Os instrumentistas e intérpretes

Atuaram Domitila Ballesteros (organista e pianista), Regina Lacerda (organista) e Ângelo Dell’Orto (violinista), que são bem conceituados recitalistas e concertistas no meio musical brasileiro. Supriram com eficiência a falta de uma orquestra ou, pelo menos, de outros instrumentos, de cordas e de sopro.

O barítono Rogério Senna Dias, os tenores Gilberto Correia da Silva, Paulo Moreira e Bruno Egger, e a soprano Lia de Andrade Lima foram os solistas das difíceis partes vocais das peças apresentadas.

Anna Campello Egger enfrentou com coragem os muitos desafios de reger obras eruditas; de certo modo, com familiaridade, pois não é somente em concertos, mas também nos cultos dominicais da Primeira Igreja, que prefere a música religiosa de maior envergadura.

O programa

Trata-se de um programa de altíssimo nível técnico e artístico, com as seguintes peças: 1) "Singt dem Herren alle Stimmen!", do oratório "Die Schoepfung" (H-22-13), de Franz Joseph Haydn (1732-1809); 2) "Kyrie eleison", da missa "In angustiis" (H-22-11), de Haydn; 3) "Dies irae", do "Requiem" (KV-626), de Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791); 4) recitativo "Herr, es wird Nacht um mich" e coro "Der Herrging voruber", do oratório "Elia" (opus 70), de Felix Mendelssohn Bartholdy (1809-1847); 5) "Our Father", de Albert Hay Malotte (1895-1964); 6) "Hallelujah!, Lord! I been down into the sea", de J.Rosamond Johnson (1873-1954); 7) "Alles was Odem hat, lobe den Herrn, Hallelujah!", do moteto "Singet dem Herrn ein neues lied" (BWV-225), de Johann Sebastian Bach (1685-1750); 8) "Christ lag in Todes banden" (BWV-4), de Bach; 9) "Zadok, the priest" (HWV-258), de Georg Friedrich Haendel (1650-1759); 10) "Worthy is the Lamb" e "Amen", do oratório "Messiah" (HWV-56), de Haendel; 11) "Hallelujah!", do "Messiah", de Haendel.

Excetuadas as cantadas em latim ("Kyrie eleison", de Haydn, e "Dies irae", de Mozart), as outras peças usaram traduções das versões em inglês feitas por Joan Larie Sutton e João Wilson Faustini.

A execução

Na primeira peça, o interesse está todo no coro. "Cantemos todos ao Senhor" (Haydn), de caráter hinódico, finaliza o oratório.

Os solistas são anônimos: não se trata mais de arcanjos, Adão ou Eva; na história da Criação, surgem membros de uma comunidade.

Haydn deve ter passado pela dificuldade de comunicar o significado específico das palavras, pois estava musicando um texto, originalmente escrito em inglês, e ainda estava influenciado pelo estilo sinfônico; sua experiência na sinfonia permitiu-lhe reinterpretar a forma do oratório (ver: Richard L.Crocker, A History of Musical Style. New York: Dover, 1986).

Na missa (Haydn), a relação da voz solista com o coro entra numa região de luz e sombra. A voz da soprano Lia Lima, numa tessitura peculiar, vai do som ácido ao lancinante, para expressar a angústia da obra.

No "Dies irae" (Mozart), o coro deve explodir, ao anunciar o Juízo Final, pois ocorrem o terror humano e a cólera divina.

No oratório (Mendelssohn), o recitativo, cantado pelo barítono (Elias) e pela soprano (Anjo), precede o coro "Eis que passava o Senhor", quando a música, depois de descrever o vento, o terremoto e o fogo, cede a vez a uma suave voz.

O hino "Pai Nosso", composto em 1935 por Malotte, somente na década de 70 tornou-se conhecido no Brasil. O tenor Paulo Moreira deixou para o coro a dose maior de unção.

No "spiritual", cantado na adaptação feita por Robert de Cormier, encontramos uma fórmula simples, originada nas canções africanas, a da afirmação e resposta. O tenor Gilberto Correia da Silva é o líder, cuja voz ressoa no coro, que deve produzir o efeito sonoro das ondas do mar.

"Tudo que vive, exalte ao Senhor" é uma alegre fuga a quatro vozes, que finaliza o moteto bachiano.

"Jesus por nós cativo" é um coro de cantata fúnebre, que varia sobre texto de Martin Luther, insistindo sobre as palavras "Todes banden" (laços da morte).

"Zadoque, o sacerdote" é um antema, composto por Haendel para a coroação de George II em 1727 na abadia de Westminster; a tradução não é fiel, mas a música desde o início é majestosa.

Em "Digno é o Cordeiro" aproxima-se a conclusão do célebre oratório de Haendel: um longo coro, quando trompetes (lamentávelmente não participaram do concerto) sobressaem, e um "Amém", tratado em estilo contrapontístico. O concerto terminou com o indefectível "Aleluia".

O "Eclésia", nos últimos 35 anos, tem procurado a execução musical de alta qualidade. Neste concerto, a execução atingiu um nível excelente.

(Publicado em "O Jornal Batista", 19 ago 2002, p. 4).

Retorna ao Menu de Artigos


Música – Nº. 664

O som do Verão

Rolando de Nassáu

Três irmãs espanholas, conhecidas no meio artístico como "Ketchup", graças à globalização, com a canção popular "Asereje" desde meados de 2002 estão atordoando os jovens e adolescentes do mundo.

A letra original espanhola foi traduzida para o italiano, o inglês e o português, transformando-se num fenômeno discográfico e social; conta a estória de um jovem, Diego, que pede numa discoteca que toquem para ele a música da qual não se recorda, nem o título, nem as palavras; então, a letra é inventada, com um novo ritmo, o "ragatanga"; à letra foi acrescentado um refrão, que, segundo informações, num dialeto africano da Eritréia, é cantado e dançado ao som de tambores, enquanto forças malignas são invocadas; é um refrão incompreensível, ainda não traduzido. Pilar Muñoz, uma das "Ketchup", declarou que o refrão não tem significado, mas foi inspirado na música "Rapper’s delight", da "Sugar Hill Gang". Uma adolescente disse ter gostado do ritmo, mas que a letra deveria pertencer a um "ritual macabro" ...

A revista italiana "Famiglia Cristiana" (nº.35, de 0l set 2002) tratou o assunto com ingênua simpatia: inventada pelo trio, a coreografia é simples e divertida, doce e picante ...

No Brasil, o "Ketchup" está sendo imitado pelo "Rouge", no programa televisivo "Popstars" (SBT). Quem assistir ao clipe na TV, além da sensualidade das jovens dançarinas notará imagens satânicas; é o que denuncia um visitante de nossa página na Internet; para ele, o "ragatanga" é uma espécie de "mantra" que cultua as fôrças satânicas.

Em outubro de 2002, professores católicos e protestantes de Honduras supunham que a canção tem conteúdo satânico: "Asereje" equivale a um convite "a ser hereje"; "Diego" é o diabo; a frase "Diego tiene chuleria" significa "Lúcifer tem charme".

Temos diante de nós as versões espanhola ("Mira lo que se avecina"), italiana ("Guardalo mentre si avvicina"), inglesa ("Friday night it’s party time") e portuguesa ("Olha lá, quem vem virando a esquina"). Façamos um exame comparativo das sete frases mais significativas: 1) "Mira lo que se avecina" – "Guardalo mentre si avvicina" – "Friday night it’s party time" - "Olha lá, quem vem virando a esquina" (refere-se à aproximação de alguém para um encontro na virada dos tempos); 2) "con la luna en las pupilas" – "La luna riflessa negli occhi" – "with the magic in his eyes" – "Com a Lua em seus olhos" ("Lúcifer" é portador de luz; "Lua" é divindade fabulosa; tem um lado escuro, oculto, misterioso); 3) "Y donde mas no cabe un alma" – "Dove non c’è anima viva" (onde não há alma viva); 4) "Poseído por el ritmo ragatanga" – "Posseduto dal ritmo del ragatanga" (dominado moralmente pelo ritmo); 5) "toca el himno de las doce" – "Suona il ritmo di mezzanotte" – "on the spot always around twelve" (o hino da meia-noite; o vampiro aparece na hora decisiva); 6) "No es cosa de brujeria" – "Non é stregoneria" – "Many think is brujeria, how he comes and disappears" – "Não é por acaso que encontro todo dia por onde vou caminhando" (Diego sempre surpreende o caminhante); 7) "Diego tiene chuleria" – "Diego è insolente, è questo Che lo diverte" (Diego é atrevido e zombeteiro).

Deixamos aos teólogos a interpretação profunda da canção. Parece que a mídia globalizada pretende alcançar e influenciar as crianças, os adolescentes e os jovens do mundo. Talvez muitos dos que freqüentam nossas igrejas estejam cantando "Asereje" e dançando "ragatanga".

No meio evangélico, o terreno já está preparado para receber esse tipo de semente musical: os estilos, ritmos e instrumentos da música popular, a coreografia e a dança, já penetraram nos templos e nos lares dos crentes.

Na última década do século 20, muitos adotaram a fórmula: "nothing is sacred, especially music and religion" (nada é sagrado, especialmente quando se trata de música e de religião ...). Muitas igrejas transformaram o culto num espetáculo.

Receamos que o "som da moda" invada nossos arraiais, pois o extraordinário consumo de música popular pela juventude torna mais fácil aceitar letras como "Asereje" e ritmos como "ragatanga".

PS – Uma colaboradora da revista de música batista "Louvor" (Ano 26, Vol.1, No.94, 1T03, pp.19-21) não quis discutir as questões éticas e teológicas envolvidas em seu artigo "O marketing na adoração". O culto é a reunião para adoração. Será necessário usar técnicas de marketing para adorar a Deus? Não se deve confundir mercado e comunidade cristã.

(Publicado em "O Jornal Batista", 02 fev 2003, p. 4).

Retorna ao Menu de Artigos


Doc.JB-677

"Rick Muchow in Brazil"

Rolando de Nassáu

Soubemos que, num festival realizado em setembro de 2003, em São José dos Campos (SP), foram lançados pelo Ministério com Propósitos os dois volumes do CD "Rick Muchow in Brazil".

Adquirimos os dois volumes. Que decepção! Que frustração! Imaginávamos que no CD tinham sido gravados os "shows" de Rick Muchow no festival.

Trata-se da seleção de músicas que constavam de "Healing grace", "Live", "Promises", "Home" e "All about love", os cinco primeiros CDs de Muchow, que ainda circulam nos EUA. Na capa, sobre as cores nacionais, aparecem o formato do mapa do Brasil e a fotografia de Muchow em atitude coreográfica; esses detalhes levam o consumidor à falsa idéia de que o CD foi gravado "ao vivo" em São José dos Campos (SP).

O Ministério com Propósitos representa os "Purpose Driven Ministries" e está vinculado à "Saddleback Church" de Rick Warren; ele quer disseminar no Brasil as "Purpose Driven Churches", as igrejas PDC.

Esses ministérios arrebataram, em 1997, a bandeira do trabalho missionário no Brasil, empunhada desde 1871 por Richmond, levando 100 pastores brasileiros para Saddleback. A nova onda aculturadora veio precedida pelo livro "Uma Igreja com propósitos", de Rick Warren (Editora Vida) (OJB, 03-09 jan 2000, p.8); desde então, sermões pastorais e mensagens nos boletins das igrejas passaram a divulgar os objetivos de Rick Warren, que se tornou o eclesiólogo do iniciante século 21.

Já no próprio nome da igreja ("Saddleback Church"), onde a denominação batista não é mencionada, fica evidente o propósito supra-eclesiástico e supra-denominacional do movimento. É uma mega-empresa, sediada na California (EUA), que está investindo enormes recursos humanos e materiais, e aplicando muitas técnicas de "marketing". Rick Warren atraiu a atenção de pastores e líderes quando tocou num ponto: o crescimento da igreja local. E está exportando sua eclesiologia e a cultura musical norte-americana.

Entre os preletores do festival de São José dos Campos (SP) estava Rick Muchow, acompanhado de Rick Baptista.

Rick Muchow passou sua meninice no Greenwich Village, famoso bairro de artistas em New York, onde se interessou pela música popular; estudou guitarra e envolveu-se no teatro musicado, chegando a participar do musical "Godspell"; sua formação musical é profana. Rick Warren escreveu que o "rock" dos anos 60 e 70 forjou os valores dos americanos que agora estão em seus 30 ou 40 anos de idade; é o caso de Rick Muchow. Na Califórnia, viveu ao som do "jazz", onde desde a década de 60 florescia o estilo "West Coast" (Jimmy Giuffre, Bud Shank, Gerry Mulligan, Chet Baker, Clifford Brown); foi tão afetado por esse estilo que seu oitavo CD, o mais recente, intitula-se "West Coast Worship". Julie Carr, em sua resenha, afirmou que "é perfeito para ouvir no carro, a caminho do trabalho" ...

Em 1987, Muchow ingressou na "Saddleback", a fim de desenvolver, a pedido de Warren, a chamada música para o culto "contemporâneo"; a igreja serve de laboratório de pesquisa musical para Muchow. Saindo de "Saddleback" (Orange, Califórnia), a onda avassaladora espraiou-se pelos seminários de Golden Gate (San Francisco, Califórnia), Kansas City (Missouri), Louisville (Kentucky), Wake Forest (North Carolina), Fort Worth (Texas) e New Orleans (Louisiana). Atualmente, é o dirigente musical das conferências das PDC e da empresa "Encouraging Music", que mantém uma loja virtual na Internet.

No que se refere ao canto e às letras, o que há de melhor no CD de Muchow é imitação da música coral da "Mount Moriah Baptist Church", do Harlem de New York. Quanto à instrumentação e às músicas gravadas em Saddleback, não sentimos qualquer diferença com alguma gravação de música popular norte-americana feita no "Fillmore West" (San Francisco).

Rick Warren escreveu que os participantes dos cultos em Saddleback nunca sabiam qual seria o próximo estilo musical; quem ouve o CD de Muchow também não sabe. Muchow usa vários estilos e versões; em "Live", há uma versão "gospel" (tradicional) e uma versão "rock" (contemporânea) para a mesma canção "God can make it right" (mas Muchow faz errado); em "Promises", há vários estilos. Sua poesia é rarefeita e sua música é extenuante. Quem canta, à maneira de um "mantra", fica insensibilizado.

Os números são precedidos e acompanhados por gritos, assobios e palmas ritmadas da platéia; isto caracteriza o culto "contemporâneo".

Das 16 faixas, são recomendáveis apenas "Healing Grace" e "All that is God"; nas outras 14 faixas, os versos são repetidos à exaustão; cantados num ritmo dançante (o exemplo vem de Muchow em sua coreografia), num estilo jazzístico com muito "swing"; em duas, há solos de bateria e de saxofone; às vezes, o piano é tocado imitando o "stride" de Willie "the Lion" Smith; "Road to recovery", com solo de guitarra, lembra gritantemente o "rock" de Elvis Presley.

A mediocridade e vacuidade do repertório musical de Rick Muchow seriam corrigidas se lhe fosse aplicado o pensamento de uma das canções: "Fill my mind with Your greatness, oh God" (Enche a minha mente com a Tua grandeza, ó Deus) …

04 dez 2003

Retorna ao Menu de Artigos


Música – Nº. 678

Sacred Music In For Worth

Rolando de Nassáu

"Parvis componere magna … Si parva licet componere magnis …" (Publius Vergilius Maro)

Voltando a Brasília, depois de ter perlustrado com brilhantismo o curso de mestrado em música e ter sido graduado pelo seminário teológico batista do Sudoeste dos EUA, sediado em Fort Worth (Texas), Anderson Silveira Motta, ministro de música da Igreja Memorial Batista, emprestou-nos o CD com a excelente "performance" do "Oratorio Chorus", da qual participou como corista-tenor. Na solenidade da colação de grau, executado o hino "I AM Thine, O Lord", letra de Fanny Crosby e música de Anderson, foi assinalado o fato de Anderson ter elaborado a tese "To the Praise of His Glory" para obter o mestrado em composição.

O de Fort Worth é o maior dos seis seminários mantidos pela convenção batista do Sul dos EUA; em dezembro de 2003, foram graduados 274 seminaristas, dos quais 11 na área musical. Criticar a música sacra de Fort Worth é uma tarefa difícil. En passant, lembramos Adriana Lisboa, que escreveu: quando um escritor responde a uma crítica (geralmente acontece motivado por uma resenha desfavorável), "mais do que angariar solidariedade ele causa constrangimento". Mas criticar Rick Muchow é fácil ...

Como mediador entre o músico e o público, o crítico oferece interpretações, análises e comparações. As comparações são inevitáveis; o crítico a elas recorre, julgando a partir de modelos semelhantes, diferentes ou relacionados, quando as obras ou os intérpretes exigem avaliação de suas qualidades.

Comparar pode significar: 1) "pôr em confronto", "cotejar" (componere, de Publius Vergilius Maro); 2) "pôr em ordem", "separar" (comparare, de Titus Livius); 3) "pôr juntamente", "juntar" (componere, de Marcus Tullius Cícero). Desde logo, comparando a igreja da rua larga ("Broadway") de Fort Worth, onde pontifica o organista Albert Travis, com a de Kansas City, na qual o pianista Mark Hayes faz arranjos de hinos em ritmo de "jazz", do cotejo sairá anulado o pianista, posto em confronto o pequeno diante do grande intérprete.

Em seguida, devemos separar a escola-de-música do seminário de Fort Worth, que procura a excelência no preparo de músicos-de-igreja, de uma escola, seja brasileira ou americana, que se propõe a oferecer aos seminaristas a "música cristã contemporânea". Segundo informações, o ensino musical em Louisville é "tradicional"; em Wake Forest, é "renovado"; na Costa Oeste (Golden Gate e Saddleback), é "contemporâneo".

O "Oratorio Chorus", que em 05 de maio de 2002, na "Broadway Baptist Church", em Fort Worth, gravou música sacra no CD que comentaremos, é composto de 196 coristas, regidos por C.David Keith, ministro de música interino nessa igreja, professor de regência e regente titular do coro sinfônico e da orquestra de câmara do seminário, bem como regente convidado da orquestra sinfônica da cidade de Fort Worth. O coro é acompanhado por Albert Travis, organista do seminário e da igreja da "Broadway". Juntamente com o "Festival Brass" (oito metais, tímpanos e percussão), executou os "Magnificat" de Paul Patterson (1947- ) e Jonathan Willcocks (1953- ), e antemas de John Rutter (1945- ).

Ainda para comparar, podemos juntar esses "Magnificat": ambos foram compostos, em cinco movimentos, para coro a quatro vozes, conjunto de metais, percussão e órgão; a execução de cada um dura 28 minutos; Patterson e Willcocks usam uma instrumentação esplendorosa e uma escrita homofônica, dando ênfase à fanfarra, inspirada possivelmente pelas obras de Arthur Bliss (1891-1975) e de Benjamin Britten (1913-1976); pertencem ao estilo pomposo e tonitruante da música coral vitoriana. Os antemas arranjados por Rutter procederam de hinos de Wesley; ainda conservam o tom solene da hinodia inglesa; Rutter também compôs um "Magnificat" (1990).

Merece destaque a atuação do organista Albert Travis, tocando o magnífico instrumento da "Broadway"; supomos tratar-se de um órgão de configuração francesa, talvez com mais de 10 mil tubos; é capaz de preencher o ambiente acústico do templo.

Pelo que ouvimos, temos certeza de que em Fort Worth, no seminário e na igreja da "Broadway", ensinam e praticam, em alto nível técnico e artístico, a genuína música sacra, a "magna musica".

(Publicado em "O Jornal Batista", 04 abr 2004, p. 4).

Retorna ao Menu de Artigos


Doc.JB-689

"Oh! Que belos hinos!"

Rolando de Nassáu

Numa louvável iniciativa para resgatar a hinodia evangélica, Dorotéa Kerr lançou uma série de CDs: "Nossos hinos favoritos" (1997), "Hinos da nossa História" (2000), "Sons e Tons do Natal" (2000), "Louvai ao Senhor" (2001) e "Nossos hinos favoritos – II" (2002), sempre com impressionantes massas corais; o CD "Hinos da nossa História" foi considerado "a gravação do século" (ver: OJB, 12 mar 01, p.7).

Em 9 de outubro de 2004, na Catedral Evangélica de São Paulo, foi lançado o CD "Oh! Que belos hinos!", com a participação de 480 cantores, procedentes de São Paulo, Campinas, Sorocaba e Promissão (SP), de Belo Horizonte (MG) e de Cuiabá (MT), e pertencentes a igrejas presbiterianas, presbiterianas independentes, presbiterianas conservadoras, metodistas e batistas. Entre eles encontramos alguns musicistas batistas: Jane Borges de Oliveira Santos, Vânia Rocha Simões e Paulo Sérgio de Brito Correia.

Têm sido fatores importantes para o êxito dessa série fonográfica: l) a competência técnica da regente, Dorotéa Kerr, e do organista, Nélson Silva; 2) a excelência do instrumento acompanhador; 3) a adequação acústica do local da gravação; 4) o preparo dos coristas; 5) o apoio dos pastores.

Faremos breves comentários sobre as peças musicais e sua execução.

"Ouví o Salvador dizer", de Horatius Bonar (trad.Mary Wardlaw) e John Bacchus Dykes, é um exemplo da hinodia romântica do período vitoriano.

A letra de "Preciosas são as horas", de Ellen Lakshmi Goreh (trad. Myron Clark) e George Coles Stebbins, reflete um espírito contemplativo e calmo, que os solistas, Hélder Savir e Lenice Bruder Aguiar, souberam interpretar.

A música de "Ó Cristo, Pão da vida", de Richard Holden e Hans Leo Hassler, lembra o prelúdio, baseado em coral, para órgão, de Johann Sebastian Bach (BWV-727), próprio para a celebração da Ceia do Senhor.

No hino "Por nossa Pátria oramos", de João Gomes da Rocha e Josiah Booth, o fervor patriótico vai num "crescendo" bem expresso pelo coro.

O hino "Em memória", de John Law, usa uma melodia renascentista, contida numa coleção de Thomas East, num estilo solene.

"Oh! Que belos hinos!", de William Orcutt Cushing (trad. Manoel Antônio de Menezes) e George Frederick Root, baseado na canção profana "Ring the bells!", tem um rítmo saltitante. Milhões de crentes, há mais de um século, têm sido batizados ao som de uma canção profana ...

"Deus está no templo", letra de João Gomes da Rocha (possivelmente inspirada em Gerhard Tersteegen) e música de Joachim Neander, oferece um ambiente majestoso para um hino apropriado ao intróito, emoldurado pelo órgão.

"Sou feliz", de Horatio Gates Spafford (trad. William Edwin Entzminger) e Philip Paul Bliss, é um véu musical que atenua as escuras marcas de uma tragédia familiar; a alternância das vozes femininas e masculinas simula o diálogo entre Horatio e sua esposa Anne.

"Louvai a Deus", de Joachim Neander (letra adaptada por Antônio de Campos Gonçalves) e música do hinário de Stralsund (1665), tem, adequadamente, um fraseado enérgico pelo coro e uma réplica jubilosa pelo órgão.

No hino "Pelo vale escuro", letra de Othoniel de Campos Motta e música de Minna Koch, o coro tem oportunidade de fazer afirmações de fé.

"Confiança em Cristo", de Ada Blenkhorn (trad. Antônio Querino Lomba) e Charles Hutchinson Gabriel, é exemplo de "gospel hymn".

"Ó bondoso Salvador", de Charles Wesley (adapt. Sarah Poulton Kalley) e Joseph Parry, foi cantado com profundo sentimento pelas vozes masculinas.

O próprio autor e compositor de "Maravilhosa graça", Haldor Lillenas, (trad. Alyne Guynes Muirhead) advertiu contra a distorção das palavras desta "gospel song" pelo uso de um tempo muito rápido.

"Pai nosso", de Carlos Cristovam Zink, era cantado diariamente no início das aulas na antiga Escola Alemã, em Campinas (SP).

"Paz à Terra", de Percival Módolo", trata de questões sociais.

"Santo, santo, santo" foi aplicado musicalmente por Albert Willard Ream à liturgia (não é adaptação de ritual), em seu momento mais solene.

"Logo de manhã", de Aristeu de Oliveira Pires Júnior, mais parece uma canção-de-amor, cantada por uma namorada apaixonada; seu caráter aventureiro compromete a reverência do hino. Ralph Manuel fez uma versão inglesa, que é um verdadeiro hino pela comunhão com Jesus; deve ser traduzida para o português ...

"Salmo 142", de Verner Geier, é um dos mais belos hinos evangélicos da atualidade. Lamentavelmente, o acompanhamento, que deveria ser sóbrio (é uma súplica), é feito por violão e acordeão. O hino deve levar à contrição, não ao devaneio.

O folheto do CD poderia ter sido mais cuidadoso nos dados hinológicos.

Aos crentes evangélicos, de todas as denominações, saudosos dos hinos fiéis à sã doutrina e revestidos de uma santa musicalidade, recomendamos os seis CDs desta série maravilhosa e abençoadora. http://www.abordo.com.br/nassau/

(Publicado em "O Jornal Batista", 06 mar 2005, p. 4).

Retorna ao Menu de Artigos


Música – Nº. 707

"São João Batista", de Léo Schneider

Rolando de Nassáu

(Dedicado ao leitor Daltro Keidann, de Porto Alegre, RS)

O bispo metodista Nathanael Inocêncio do Nascimento, organizador do Coral Evangélico de São Paulo, promoveu, em três récitas, em 1951, a apresentação do oratório de Léo Schneider no Teatro Municipal da capital paulistana, sob a regência do compositor. Posteriormente, o oratório foi interpretado na Igreja Metodista Central de Belo Horizonte.

A estréia em Brasília aconteceu em 05 de abril de 1980, no templo da Igreja Presbiteriana Independente Central (SGAS-616); o oratório foi executado pelo coro misto de igreja congênere, procedente de Londrina (PR), regido por Delmar Ferreira Martins, atuando a soprano Maria Alvarez Assis e a pianista Sílvia Bacarat de Godoy (ver: "Nassau – Dicionário de Música Evangélica", pp. 33, 81, 115, 156, 197 e 198).

Em Porto Alegre, terra natal do compositor, foi executado, em 28 de maio de 2006, pelo coro "Promusicata", sob a regência de João Fernando de Araújo, tendo como solistas o barítono Ricardo Barpp, a soprano Maíra Lautert e o tenor Eduardo Bighelini, acompanhados pela organista Anne Schneider. Com estes executantes, tinha sido gravado um CD, que recomendamos aos prezados leitores, na igreja "Martin Luther", em 27 de novembro do ano passado.

Léo Schneider (1910-1978), organista, compositor e professor luterano, estudou na escola de música da Southern Methodist University, em Dallas (Texas, USA). Profundo estudioso da Bíblia (na década de 60 era superintendente da Escola Dominical da Igreja Luterana de Porto Alegre), usou a forma do oratório sacro para expressar a sua arte musical; compôs cinco oratórios: "Calvário" (1943), "São João Batista" (1946), "Purificação do Templo" (1947), "Conversão de São Paulo" (1948) e "Jesus Nazareno" (1950).

A partitura da obra em epígrafe foi publicada em 1966 pela Imprensa Metodista (São Bernardo do Campo, SP).

Anne Schneider, filha do compositor, é graduada em Piano, Órgão e Filosofia, e organista titular da Igreja "Martin Luther". Desde 1989 vem fazendo turnês anuais na Europa e América para tocar em grandes órgãos de catedrais e participar de festivais internacionais. Em 2000 lançou um CD.

O "Promusicata", fundado em 2003 por Arnoldo Todt e Vera Cristina De Los Santos, tem divulgado oratórios em seus concertos; seu regente é formado em Regência Coral e Orquestral pela UFRGS; os solistas têm belas vozes, cultivadas por eminentes professores (Cotrubas, Pavarotti, Ballestero).

Encontramos diferenças entre a execução que ouvimos em 1980 e a gravada em 2005; a orquestra prevista na composição foi substituída pelo órgão de tubos, eficientemente tocado por Anne Schneider.

O oratório compreende oito números: 1) "João prega no deserto" – precedido por majestoso trecho organístico, é feito, pelas vozes dos solistas, o relato evangélico (Lucas 3:1-3), seguido pelo coro, "Arrependei-vos!"; 2) "João anuncia a vinda de Jesus" (João 1:19-27 e Mateus 3:11) – participam no diálogo a soprano e o coro. Vozes do coro intervêm para indagar: "Por que batizas?", enquanto o tenor assume o papel de João, o Batista, para afirmar: "Este é Aquele que vem após mim"; o coro, com vivacidade, complementa: "Esse vos batizará", e o órgão, fortemente, finaliza o trecho; 3) "O batismo de Jesus" (João 1:29 e Lucas 3:21-22) – anunciado docemente pelo órgão, é relatado pela soprano solista, pelo coro e pelo barítono; 4) "Prisão de João Batista" (Mateus 14:3-5 e Lucas 3:19-20) – é mais significativo e maior o trecho ocupado pela música de órgão, executado nervosamente, precedendo o recitativo do barítono, "João dissera a Herodes"; 5) "João envia dois discípulos seus a Jesus" (Mateus 11:1-6 e Lucas 7:18-23) – o órgão ilustra a caminhada, e os discípulos, em coro, com ênfase, interrogam: "És Tu aquele que havia de vir?"; o tenor, no papel de Jesus, responde: "Ide e anunciai a João", seguido pelo coro, "Bem-aventurado"; 6) "Jesus fala à multidão acerca de João" (Mateus 11:7-10 e Lucas 7:24-27) – o órgão prepara os recitativos do Evangelista e de Jesus, entoados alternadamente pelo tenor e pelo barítono; 7) "A morte de João Batista" (Mateus 14:6-12) – o órgão sugere a festa de aniversário de Herodes, na qual é feito o juramento pela morte de João, o Batista, por Herodes (barítono) e Herodias (soprano); o órgão, num "andante", faz o ouvinte imaginar a dança da filha de Herodias e a degola de João no cárcere; 8) "Invocação" – é uma veemente prece pelo arrependimento e pelo apego à Verdade, que foram corajosamente pregados pelo predecessor de Jesus Cristo.

O nosso é o único dicionário de música que reconhece a pessoa e a obra de Léo Schneider no cenário musical erudito. Por que tantas obras congêneres estrangeiras são executadas nas igrejas evangélicas brasileiras? Por que não é divulgado este oratório, que honra a cultura musical dos Evangélicos no Brasil?

(Publicado em "O Jornal Batista", 05 nov 2006, p. 4).

Retorna ao Menu de Artigos


Música – No.715

"Tributo de Louvor"

Rolando de Nassáu

(Dedicado ao leitor Célio João Duarte)

Em 19 de agosto de 2006 foi gravado, na Catedral Evangélica de São Paulo, o CD "Tributo de Louvor". Participaram os coros das catedrais presbiteriana independente e metodista da capital paulistana, coros de igrejas presbiterianas de São Paulo e Belo Horizonte, e coros evangélicos de São Paulo e Sorocaba, acompanhados pelo organista Nélson Silva, sob a regência de Dorotéa Kerr.

Cantaram 366 cantores; mostraram, como escreveu o Rev. Davi Dumas Neves, "que a música sacra de boa qualidade não está em baixa".

Este é o sétimo de uma série de CDs para resgatar hinos que marcaram a história das denominações evangélicas no Brasil (ver: OJB, 06 mar 2005).

Comentaremos os itens do programa na ordem em que foram executados, indicando, entre parênteses, os hinários de onde foram extraídos.

Inicialmente, quatro peças de louvor. "Exaltai o Senhor". Extraída do oratório "A Criação" (1799). O trecho que abre a gravação não é uma peça hinódica; foi incluído para demonstrar a capacidade de execução do coro. Paradoxalmente, esta obra, glorificando o Criador, contribuiu para a secularização da arte religiosa. Haydn tornou-se uma espécie de sumo sacerdote leigo, por ter incluído na história da música uma das mais grandiosas narrativas bíblicas. Entretanto, teve dificuldade em comunicar o significado específico das palavras do texto inglês elaborado por Von Swieten. Por isso, com sua experiência sinfônica, como recurso, procurou reinterpretar a forma musical do oratório (ver: OJB, 13 mar 94, p. 2).

"Louvor" (HE-107). Letra de S.P. Kalley e música tradicional galesa, na qual as vozes e o órgão introduzem áreas de sombra e de luz num texto que fala de anjos celestiais, crentes e ímpios.

"Justo és, Senhor" (SH-61, HE-90, NC-l, CC-2, HCC-22). Metrificação do Salmo 145:17-18, elaborada em 1888 por J.G. da Rocha. Melodia composta por L. Mason. Este hino é uma breve proclamação solene de alguns atributos de Deus (justiça, poder, misericórdia).

"Louvor a Deus" (HE-127). Metrificação do Salmo 134, baseada no Saltério de Genebra (1551). Música de L. Bourgeois. Num ambiente pós-medieval, esse saltério deu uma nova expressão ao louvor, com dignidade musical e profundidade literária, segundo os cânones calvinistas: "saiba em espírito adorar"; isto significou para Bourgeois que o ambitus da melodia deveria ser restrito e de entonacão fácil; a melodia deveria ser acessível a todos os participantes da congregação. Bourgeois foi ministro de música da igreja de S. Pedro, em Genebra (1541-1551); participou da elaboração do saltério huguenote.

Depois, dois hinos de contrição. "União com Deus" (SH-360, HE-382, NC-116, CC-283, HCC-399). Letra de S.F. Adams (1841). Tradução de R.H. Moreton; a de J.G. da Rocha (1888) é a mais conhecida. Música de L. Mason (1856). Este hino foi tocado por três violinistas enquanto o transatlântico "Titanic" afundava (ver: http://www.abordo.com.br/nassau/top_hin.htm

"Espera em Deus" (SH-13, HE-246, NC-118). Paráfrase do Salmo 42 elaborada por M.S. Porto Filho (1941). Música de L. Bourgeois, extraída do Saltério de Genebra; ele foi o pioneiro criador de melodias para o culto reformado por Calvino. Por ter substituído certas melodias foi preso por ordem do Conselho Municipal, mas solto graças à pronta intervenção de Calvino. Atualmente, depois de 455 anos, os Salmos são cantados (salmodia) nos cultos das igrejas protestantes de língua francesa.

"Para os altos montes olharei" (SH-24, NC-139). Paráfrase do Salmo 121, elaborada por S.P. Kalley (1861). Música de T. Jarman (1821). A melodia alegre denuncia a origem numa festividade folclórica ou popular do norte da Inglaterra.

"A nova do Evangelho" (SH-273, HE-5, NC-304, CC-188, HCC-299). Letra de J. Jones (1887). Música de S.W. Martin (1878). Na Europa e nos EUA, os templos evangélicos têm torres e sinos. No período imperial, no Brasil era proibido às igrejas evangélicas anunciar seus cultos e que nos templos fossem usados sinos. Então, as congregações cantavam: "A nova do Evangelho já se fez ouvir aqui, publicando em som alegre o que Deus já fez por ti" ... Trata-se de um hino evangelístico tipicamente americano.

"O lírio dos vales" (SH-138, HE-286, NC-113, CC-73). Tradução de J.H. Nelson (1890) e de S.E. McNair. Música de C.W. Fry (1881), que trabalhou no Exército da Salvação compondo para bandas de música.

"A cidade celestial" (SH-563, HE-460, NC-187, CC-498). Tradução de M.A. Camargo (1895). Música de O.F. Presbrey. Hino apocalíptico, belamente cantado por Mariana Sabino Jardim.

"Que precioso nome!" (SH-395, HE-447, NC-164, CC-62, HCC-174).

Tradução de B.R. Duarte (1900). Música de W.H. Doane (1871). Desde o início do século 20, um dos cânticos mais cantados nas igrejas evangélicas no Brasil. Doane era flautista; talvez por isto Caroline Bernardes acompanha o coro.

"Ceifeiros do Senhor" (SH-451, HE-420, NC-318, CC-451). Tradução de W.E. Entzminger (1909). Música de J. McGranahan. No início do século 20, o missionário batista norte-americano Entzminger observou que os "ceifeiros da seara santa mui fracos, pobres sois, mas forte é Cristo, vosso Mestre, avante, avante, pois!". Ainda hoje, apesar do grande crescimento numérico dos Evangélicos, nas duas últimas décadas, são poucos os semeadores; entre estes, certamente, estão os coristas que cantaram nesta bela gravação.

"Tu és fiel, Senhor" (NC-32, HCC-25). Tradução de J. Sutton, L. Bueno e H. Silva (1960). Música de W.M. Runyan (1923). Esta nova canção evangelística, publicada em 1964, é, com efeito, um incentivo aos crentes.

"Oração da tarde" (SH-523, HE-479, NC-173, CC-557). Tradução de G. Searle (1896). Música de J. Barnby (1868), importante compositor de melodias para hinos, condecorado pela rainha Vitória, cultivador da música sacra de J.S. Bach e editor do hinário da Igreja Anglicana. A música de Barnby não merecia ser acompanhada por acordeão; soou como serenata portenha.

"Castelo forte" (SH-640, HE-206, NC-155, CC-323, HCC-406). Letra de M. Luther, traduzida por J.E. Von Hafe (1886). Música extraída do "Wittenberg Gesangbuch" (1529). A excelência da melodia e a entusiasmadora letra têm incentivado os Protestantes e os Evangélicos, há quase 500 anos, a proclamar sua fé cristã. A execução vibrante do coro masculino e o significativo acompanhamento organístico, derem mais uma leitura digna do hino de Lutero.

Aos Evangélicos (aos Batistas, particularmente), recomendamos este CD que registra peças importantes da hinodia evangélica.

(Publicado em "O Jornal Batista", 06 mai 2007, p. 4).

Retorna ao Menu de Artigos


Doc.JB-727

"De olho na lente e no vídeo"

Rolando de Nassáu

(Dedicado ao leitor Édsom da Silva Leite, de Brasília, DF)

Para registrar uma execução musical, em filme ou vídeo, deve-se levar em conta, pelo menos, o tipo (recital ou concerto), os executantes (solistas, coro ou conjunto instrumental), o local (templo, sala de concertos ou estádio) e o fundo cênico (objetos, cortina, parede lisa ou com dizeres) da referida execução.

O cinegrafista escolherá o ângulo em que sua câmera deve ser postada ou movimentada, e se a gravação será colorida ou em preto-e-branco. Para obter o enquadramento da imagem, cada posição da câmera ("shot") tem um diferente propósito e efeito; o "close-up" pode revelar algo de uma pessoa. O relacionamento entre a câmera e o objeto sendo fotografado dá informação e guia o julgamento a respeito do personagem ou do objeto.

O "cameraman" pode usar uma série de cortes, indo com a câmera de uma posição para outra, ou movimentar a câmera, colocada sobre um tripé, ou usar lentes de "zoom" (ver: Bordwell, David. "Film Art: An Introduction". New York: Mc Graw Hill, 1993).

Na década de 60, o trabalho do cinegrafista era restrito, por motivos tecnológicos ou estéticos; ele tinha poucos ângulos para focalizar uma imagem. Naquela época, a música era considerada auto-suficiente; quanto menos fossem usados recursos visuais tanto melhor. A ausência de movimentos de câmera ou de lentes de "zoom", que produzem o efeito visual de afastamento ou aproximação, permite ao espectador concentrar-se inteiramente no sentimento poético, no virtuosismo técnico e na finura estética do intérprete. O cinegrafista deve favorecer a atmosfera na qual o artista pode desenvolver-se e dar realce à sua arte.

Assistindo, em preto-e-branco, um DVD lançado em 2002, mas baseado num filme gravado em 1966 com o pianista ucraniano Sviatoslav Richter (1915-1997), que interpretava as "Variations sérieuses", de Mendelssohn, observamos que durante 10 minutos a câmera usou, na maior parte desse tempo, o ângulo lateral.

Nas "Variações sérias", pudemos apreciar o toque mágico e elegante, ao mesmo tempo objetivo e enérgico, com que Richter criou uma atmosfera inesquecível; no DVD só aparecem o piano e o pianista.

Nesse mesmo DVD, Richter acompanhou o violoncelista russo Mstislav Rostropovich (1927-2007) na execução, gravada no Festival de Edinburgh de 1964, de cinco sonatas de Beethoven. Pode-se perceber, então, a intensa relação artística entre Richter e Rostropovich; um adivinha o que o outro fará; Richter volta-se, para num relance observar as arcadas de Rostropovich, mas a linguagem corporal está subordinada à comunhão mental; Rostropovich inclina-se para o piano, querendo extrair do violoncelo a necessária ênfase expressiva; cada um extravazando sua tensão emocional: Richter dando saltos na cadeira, Rostropovich exibindo contrações da mandíbula e movimentos de cabeça; às vezes, não há necessidade de olhares e gestos. Graças ao DVD, pudemos ouvir e ver o diálogo. Mas há um detalhe que prejudica: durante todo o concerto, pode-se ver a bainha da calça preta e a meia branca de um assistente, e o bico do sapato de uma mulher apontando para o queixo de Richter ...

Em certas circunstâncias, preferimos o áudio de um CD ao vídeo de um DVD; para nós, o som é mais importante que a imagem do músico.

Em 1981, com o pianista canadense Glenn Gould (1932-1982) enclausurado no estúdio, foram gravadas num filme as "Variações Goldberg", de Bach; a mesma economia de movimentos da câmera permite observar uma soberba técnica pianística; o cinegrafista focalizou apenas a firme estrutura do piano e as esquisitices do pianista.

Herbert von Karajan regeu, em 1985, a sinfonia "Do Novo Mundo", de Dvorak; no CD aparecem, quase sempre, em cores, a face enigmática do regente e os olhares atentos dos músicos.

No DVD com o "Réquiem", de Verdi, sob a batuta de Enoch zu Guttenberg, em 1990, foi usado o recurso carismático de ressaltar as expressões faciais do regente, talvez por ser um ilustre desconhecido.

Em 2005, Gilbert Levine gravou a "Missa Solene", de Beethoven; o cinegrafista preocupou-se em filmar o templo, por dentro e por fora, o teto, as colunas e o piso da portentosa catedral de Colônia (Alemanha), para agradar aos apreciadores de música clássica e arquitetura gótica ...

Desde a década de 90, os cinegrafistas têm revelado a tendência de focalizar aspectos extra-musicais: o local do concerto, os instrumentos exóticos, os assistentes etc.

Certa vez, bem antes do início de um concerto, sentamos ao lado de um cinegrafista; ansioso para começar o seu trabalho, ele tinha em mãos um roteiro com indicações relativas às imagens a serem registradas; informou-nos que sua missão era captar as expressões faciais dos assistentes do concerto; nosso conselho foi que aguardasse o início real do concerto, até que o público estivesse todo acomodado em seus lugares; porque o DVD, para seu espanto, poderia mostrar, quando estivesse pronto, cenas inconvenientes: pessoas conversando, mastigando, gargalhando, acenando, praguejando ou fazendo caretas para o cinegrafista ...

- x -

(Publicado em "O Jornal Batista", 06 abr 08, p. 4).

Retorna ao Menu de Artigos


[ TÓPICOS | TOPICS IN ENGLISH | ESPAÇO ABERTO | GALERIA | LINKS | AGENDA | ARTIGOS | HOME ]


ROLANDO DE NASSÁU NA INTERNET
Fone: (061) 3344-3981 - Brasília, DF - Brasil
E-Mail:nassau@abordo.com.br