NASSAU'S OPTICS ON TOPICS


Obras musicais


Música – Nº. 247

A "Sinfonia de Salmos", de Stravinsky

Rolando de Nassáu

Como partes da comemoração do centenário de nascimento de Igor Fedorovitch Stravinsky (1882-1971), duas importantes execuções: no próximo sábado, 10 de julho, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, a "Sinfonia de Salmos", com a Orquestra Sinfônica Brasileira e a Associação de Canto Coral, sob a regência de Victor Tevah, e, em 16 de outubro, no Teatro Nacional de Brasília, a "Missa", com orquestra e coro regidos por Levino Ferreira de Alcântara (ver: artigo no. 243, "Do barroco ao cromofônico").

Genial inventor de música moderna, Stravinsky realizou a mais longa (1910-1967) e a mais extraordinária carreira de epígono da história da música.

Símbolo da modernidade, Stravinsky fez a arte sacra retomar o seu lugar no panorama da música moderna.

Surpreendido, na Suíça, pela Revolução Socialista de 1917, viu-se afastado, por suas noções políticas, de seu país natal. Esse déracinement exerceu uma profunda influência sobre sua evolução: seu espírito se voltou cada vez mais para os problemas religiosos, para os interesses eternos e universais. Esse eslavo déraciné viveudecênios fora da Rússia (ver: Otto Maria Carpeaux, Uma Nova História da Música. 3ª. Ed. Rio de Janeiro: Alhambra, 1977).

Em 1920 preconizou um retorno a Johann Sebastian Bach.

Sua música acabou sendo uma síntese muito rebuscada dos descobrimentos feitos pelos compositores medievais e barrocos.

Compositor essencialmente religioso, depois de 15 anos do início de sua carreira, com o "Pássaro de Fogo", somente na tereceira fase (1920-1953) abordou um tema litúrgico. A partir da "Missa" a produção de Stravinsky no gênero sacro se tornou mais freqüente. No catálogo de obras religiosas de Stravinsky encontramos: Pater noster (1926), Symphonie de psaumes (1930), Credo (1932), Ave Maria (1934), Babel (1944), Missa (1948), Canticum sacrum ad honorem Sancti Marci nominis (1956), Threni (1958), Três sacrae cantiones (1959), A sermon, a narrative and a prayer (1961), The flood (1962), Abraham and Isaac (1963) e Requiem Cancles (1966).

Seu gênio prolífico, revelado nas duas décadas anteriores (1910-1930), alcança esplendor também na música religiosa, numa de suas mais belas criações, a "Sinfonia de Salmos", que foi a primeira obra importante em que Stravinsky deu eloqüente expressão aos seus profundos sentimentos religiosos, e, por isso, dedicada "à glória de Deus". Essa obra foi composta com o propósito de promover "uma comunhão com o nosso próximo e com o Supremo Ser", o que indica claramente o significado espiritual que ele percebia na música, em geral, e na música religiosa, em particular (ver: Igor Stravinsky, Poetics of Music. New York: 1956).

Após a morte de Sergei Diaghilev, em 1929, penetrou na meditação. Logo depois recebeu um pedido de Sergei Koussevitsky para compor uma obra em celebração do cinqüentenário de fundação da orquestra sinfônica de Boston. Stravinsky sonhava há muito tempo compor uma obra sinfônico-coral. Quis fazer "algo universalmente admirado", por isso escolheu o Saltério. Desejava reagir contra os numerosos compositores que usaram os salmos para exprimir sua própria "sensibilidade" lírico-sentimental, fazendo-o de maneira bem diferente. Para ele, "Deus não deve ser louvado com música forte e rápida".

A "Sinfonia de Salmos" foi composta em 1930 e revista em 1963. Sua primeira audição ocorreu em Bruxelas.

Esta "sinfonia" é menos uma sinfonia do que uma cantata sobre versículos do Saltério. Não se encontra na composição musical concordância semântica direta com o texto literário. O conteúdo musical se distancia do sentido literal dos textos.

A música abrange uma generalidade de significação para os vários textos. A voz humana é colocada sobre o mesmo plano em que está a música instrumental.

Ao escolher na Vulgata três dos salmos (38:13-14; 39: 2-4; 150, que correspondem nas edições protestantes aos salmos 39:12-13; 40:1-3; 150), referia-se à relação do homem com Deus, à luz do Velho Testamento: "Exaudi orationem meam, Domine" (Ouve a minha oração, Senhor), "Expectans expectavi Dominum" (Com paciência esperei no Senhor) e "Laudate Dominum" (Louvai ao Senhor).

A obra é compacta e concisa; dura apenas 21 minutos.

O prelúdio (4 minutos) é uma "Oração", em linguagem veemente, de que participam uma orquestra contrapontística e um coro masculino homofônico.

"Ouve a minha oração, Senhor" (Salmo 39:12-13) foi composto num estado de ebulição religiosa. Não estava preocupado com a música bizantina, que dizem ter influenciado a composição da obra. Bizâncio foi uma fonte de cultura russa (ver: Rolando de Nassau, Introdução à Música Sacra). Stravinsky disse que, embora tenha sido considerado um músico russo, o pouco que sabia a respeito da música bizantina aprendeu com Egon Wellesz (ver: A History of Bizantine Music and Hymnography. Oxfor: 1949), mais de 20 anos depois de ter composto a "Sinfonia de Salmos". O segundo movimento, "Ação de Graças", que dura 7 minutos, é uma dupla fuga polifônica para vozes e instrumentos. "Com paciência esperei no Senhor" (Salmo 40:1-3) faz ostensivo uso do simbolismo musical. A fuga vocal representa o nível mais alto no simbolismo. O terceiro movimento, "Louvai ao Senhor" (Salmo 150), foi originalmente composto com as palavras eslavônicas Gospody pomiluy (Senhor, tende piedade!) e serve como apoteose da obra. O "Hino de Louvor", que dura 10 minutos, é um allegro em que as emoções são sublimadas. O allegro foi inspirado por uma visão do carro de Elias subindo ao céu. Neste movimento conclusivo, Stravinsky teve a preocupação de distribuir, à sua maneira, os sons das sílabas, imitando a música polifônica primitiva (ver: Igor Stravinsky - Robert Craft, Dialogues and a Diary. New York: Doubleday, 1963).

O tom da salmodia, por vezes influenciado pelo cantochão, impõe sua marca à fatura melódica. O ritmo da sinfonia, típico de outras obras de Stravinsky, caracteriza a modernidade desta obra religiosa.

Nossos leitores cariocas terão oportunidade de conhecer uma genial criação da música moderna inspirada em poemas multiseculares do Saltério. Desejamos que tenham uma bela audição, e aos leitores de outras cidades recomendamos esta cantata de Stravinsky, da qual existem gravações regidas pelo próprio compositor.

(Publicado em "O Jornal Batista", de 22 ago 82, p. 2).

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Música - Nº. 674

Como ouvir música

Rolando de Nassáu

"Ouvir ou ler, sem refletir, é ocupação vã; refletir, sem livro nem mestre, é perigoso" (Confúcio)

Muita gente, em nossas igrejas, inclusive quem canta ou toca algum instrumento musical, não sabe ouvir, e não quer refletir sobre a obra executada.

O ouvinte deve: 1) conhecer a história da música, profana ou religiosa; 2) saber situar uma determinada obra num período da história da música; 3) livrar-se dos chavões literários a respeito da obra escolhida, procurando descobrir o verdadeiro significado da obra; 4) dedicar tempo à audição atenta da obra; 5) evitar a criação de "ídolos" particulares entre os compositores selecionados.

Obviamente, o ouvinte não deve desperdiçar tempo e dinheiro ouvindo improvisadamente obras medíocres.

A audição deve ser um momento de reflexão. Ouvir música alivia a solidão; ouvir bem a boa música é um dos prazeres da solidão. O prazer é pessoal, não social. Tenho prazer em ouvir as cantatas de Bach, contudo, será muito difícil fazer com que a minha comunidade tenha igual prazer. Felizmente, ainda existem ouvintes solitários; vez por outra, consultam-nos sobre determinada obra erudita ou certo hino.

Ouvimos música para entretenimento ou para prestar culto; para entretenimento, ouvimos música profana, erudita ou popular; para louvar a Deus, na sinceridade de nossos corações e na profundidade de nossas mentes, a música religiosa. É imprescindível saber distinguir os gêneros.

Quando ouvimos música religiosa, devemos ter o objetivo de afervorar nossa fé cristã ou de reavivar nossa espiritualidade, reanimar nossa esperança nas promessas divinas, estimular nossa cooperação nos trabalhos da Igreja ou fortalecer nossos laços fraternais na comunidade cristã.

Isolados ou num grupo, devemos procurar um ambiente tranqüilo e silencioso (um templo, uma sala-de-concertos, um cômodo da residência), no qual possamos refletir sobre o tema da obra.

Mais do que meramente ouvir a obra musical, é necessário escutar as notas e os timbres, perceber os andamentos rítmicos e as nuanças melódicas.

John Stuart Mill, referindo-se a uma ária de Mozart, afirmou: "Podemos imaginá-la por meio da auto-escuta". A música, religiosa ou profana, deve propiciar a auto-escuta. As boas obras fazem com que suas idéias e seus sentimentos desabrochem durante a audição; o ouvinte pode escutar o seu íntimo.

Programando o tempo e a situação (recital, concerto, gravação, publicação), o ouvinte poderá usufruir a obra, cômoda e eficientemente. Não deve ser uma audição improvisada e interrompida.

Quem ouve música erudita pelo rádio do carro (enquanto viaja ou está no período do trabalho), por meio do toca-discos em casa (enquanto realiza alguma atividade doméstica), ou pelo computador pessoal (enquanto navega pela Internet ou digita algum texto), certamente não tem uma audição satisfatória; talvez não saiba ouvir música. Até mesmo quem ouve música religiosa no templo e aproveita (?) para conversar, demonstra que não sabe ouvir música sacra.

Ouvir atentamente, conscientemente, inteligentemente, é o mínimo que o ouvinte pode fazer pelo futuro da arte musical.

Devemos procurar uma obra musical, profana ou religiosa, que seja: 1) interessante por sua forma e conteúdo; 2) provada pelo tempo; 3) propícia à reflexão, ou ao devaneio, quando for o caso; 4) capaz de contribuir para o aperfeiçoamento pessoal; este ideal, para alguns arcaico, para muitos poderá ser relevante.

O compositor, para ter algum valor, deve ter a sua própria personalidade. O caráter individual do compositor é formado por sua personalidade pela influência exercida pela época em que viveu; constitui, afinal, o seu estilo.

O compositor, por meio de sua obra, quer chegar aos ouvidos, à mente e à sensibilidade do ouvinte. Os bons compositores conhecem bem a natureza humana; em suas peças, as reações dos homens comuns aparecem nas formas musicais.

Para o compositor, ouvinte importante é aquele que absorve a obra e é capaz de aperfeiçoar o seu próprio gosto musical.

O crítico musical é o intermediário entre o compositor e o ouvinte; pode ser útil na escolha das obras; deve explicitar o que está implícito na obra analisada; deve perceber o que pode e deve ser explicitado.

Chegaram a este ponto, os leitores mais curiosos ou mais interessados numa audição eficiente, eficaz, instrutiva e prazerosa. Poderão dar o próximo passo para alcançar prazer estético e enlevo espiritual na música que, doravante, procurarão ouvir.

(OJB, 07 dez 2003, p. 4).

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Doc.JB-726

"Magnificat", de Buxtehude

Rolando de Nassáu

(Dedicado ao leitor Aderbal Mattos, de Salvador, BA)

Em 1957 inserimos na discografia de nosso primeiro livro, "Introdução à Música Sacra", p. 252 (Rio de Janeiro: edição do autor), o "Magnificat", de Dietrich Buxtehude (1637-1707).

Pudemos ouvi-lo, em janeiro de 1959, por meio de um disco elepê, na interpretação de solistas e dos "The Cantata Singers", acompanhados por orquestra de cordas e órgão, sob a regência de Alfred Mann.

Na década de 80, surgiram versões em CD das obras de Buxtehude destinadas ao órgão, executadas por Michel Chapuis, Albert de Klerk, Leonel Rogg, Helmuth Walcha, Jiri Reinberger, Marie-Claire Alain, Peter Hurford, René Saorgin e Wolfgang Rubsam, entre outros.

Durante 39 anos (1668-1707), Buxtehude foi organista da "Marienkirche" de Lübeck (Alemanha). Em outubro de 1705, no início do inverno, Johann Sebastian Bach (1685-1750) foi de Arnstadt a Lübeck, a pé, para ouvir Buxtehude; ou para saber se teria oportunidade na sucessão do velho organista, que tinha exigido do pretendente o compromisso de casamento com sua filha. Bach permaneceu quase três meses em Lübeck; sua licença era de algumas semanas. Àquela época, não havia mestre maior que Buxtehude, no que dizia respeito à música para teclado, principalmente o órgão (Rolando de Nassau, "Bach: Vida e Obra Sacra", p.21; escrito em 1984 e premiado em 1992 pela Academia Evangélica de Letras do Brasil, inédito).

A grandeza de Buxtehude é perceptível nas obras de Bach para órgão compostas em Weimar (1708-1717).

De suas 120 cantatas, 25 foram gravadas em CD na década de 80; como regentes destacaram-se Helmuth Rilling e Wilhelm Ehmann. No conjunto da obra coral sacra de Buxtehude, o "Magnificat" não é tão importante e tão divulgado quanto as cantatas. Rilling realizou duas gravações do "Magnificat" com o conjunto vocal-instrumental de Stuttgart; numa delas, ao de Buxtehude juntou as obras congêneres de Schütz, Monteverdi e Bach. O mestre do norte da Alemanha compôs excelentes cantatas (na época, denominadas "concertos sacros"), baseadas ou não em corais, algumas de grandes dimensões em sua concepção, tais como a de no. 41, "Herzlich lieb hab ich dich, o Herr" (Eu Te amo com amor sincero, ó Senhor), onde a melodia do coral é tratada com a ambição de torná-la peça de um oratório. Nas cantatas, em alguns casos, o coral é enriquecido por outras formas musicais e textos não relacionados. Elas incluem todos os tipos e estilos, desde a composição mais simples de coral até a mais elaborada ária para solo, com acompanhamento instrumental. Buxtehude também compôs para grande conjunto vocal, como no moteto "Laudate pueri", para seis coros!

É possível que também tenha sido de Buxtehude o modelo de cantata adotado por Bach. Recentemente, pesquisadores descobriram que as cantatas "Furchtet euch nicht" e "Gott hilf mir" serviram de modelo para Bach. Na cantata "Nichts soll uns scheiden von der liebe Gottes", BuxWV-77, (Nada nos separará do amor de Deus), aparece solenemente a retórica musical que caracterizaria as cantatas de Bach.

Trata-se a obra sob enfoque de um cântico que, nas igrejas litúrgicas (em algumas desde o século V), repete a canção de louvor e gratidão da virgem Maria, relatada no Evangelho de Lucas 1: 46-55. Em latim, "Magnificat anima mea Dominum" (A minha alma engrandece ao Senhor) são as primeiras palavras deste cântico, que, desde o século XIV, tem sido musicado por pelo menos 29 grandes compositores: Bach, Buxtehude, Charpentier, Couperin, Guerrero, Harwood, Howells, Monteverdi, Morales, Murrill, Palestrina, Part, Penderecki, Pergolesi, Rutter, Schubert, Schütz, Stainer, Stanford, Sumsion, Teleman, Victoria, Vivaldi, Walmisley, Walton, Willaert, Willcocks, Wood; apreciamos todas essas versões, mas preferimos a de Johann Sebastian Bach.

As onze palavras-chaves do texto são as seguintes: 1) "Magnificat" – expressa um louvor que nasce na intimidade de Maria; 2) "exsultavit" – é a expansão desse louvor; 3) "respexit" – é a confissão da humildade de Maria; 4) "ecce enim" – revela a consciência da significação da maternidade; 5) "quia fecit" – ressalta a majestade e santidade de Deus; 6) "et misericórdia" – confia na misericórdia divina; 7) "fecit potentiam" – reconhece o poder de Deus; 8) "deposuit" e 9) "esurientes" – proclamam a justiça de Deus; 10) "suscepit" –lembra a providência de Deus nos tempos antigos; 11) "sicut locutus" – confirma o esperança no cumprimento da promessa de Deus.

Esperamos que esta bela obra de Buxtehude seja incluída no repertório musical de nossas igrejas, não para atender ao gosto musical de pessoas, mas para adequar o ambiente ao culto solene e reverente.

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(Publicado em "O Jornal Batista", 02 mar 08, p. 4)

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