NASSAU'S OPTICS ON TOPICS


Organização e repertório da música-de-igreja


Música – Nº. 655

Encontros de músicos

Rolando de Nassáu

Depois da criação, em outubro de 1982, da Associação dos Músicos Batistas do Brasil (AMBB), proliferaram os encontros (congressos, conferências, seminários, simpósios, painéis, etc.) de músicos, alguns apelidados "de louvor e adoração", com o objetivo de discutirtemas ou divulgar técnicas para desenvolvimento do ministério da música em nossas igrejas.

Observamos que nos programas desses encontros há partes que beneficiam a preservação da música sacra, dedicada ao culto, mas, lamentavelmente, há outras que prejudicam, por tratarem de música para entretenimento.

No programa de todo e qualquer encontro de músicos batistas, na parte teórica, primordialmente, deveria constar o estudo da teologia da adoração, o exame da estrutura administrativa de um departamento de música e a apreciação do uso de hinos e cânticos apropriados ao culto. Cremos serem estes os três assuntos que mais interessam aos ministros e diretores de música de nossas igrejas. Os que passaram pelo curso de música dos seminários e faculdades teológicas, talvez mais exigidos pelas matérias de natureza técnica, não consagraram suficiente tempo ao estudo das teorias teológicas, administrativas e litúrgicas. Até mesmo os que se formaram há mais tempo têm dado demonstração de como estão desorientados nas matérias teóricas, quando sucumbem aos modismos divulgados em certos encontros.

Isto aflige também os pastores, que são tentados a caracterizar o culto como se fosse um evento artístico, com elementos sonoros, visuais, cênicos, plásticos e coreográficos.

Naquele programa, não deveriam faltar oficinas de teoria musical e harmonia, tradicional e funcional. Evidentemente, em dois ou três dias, só seria possível ao palestrante traçar um esboço bem esquematizado das idéias contemporâneas sobre teoria musical, harmonia e dissonância.

Seria muito importante, incluir no programa palestras sobre interpretação e apreciação musical (há muito músico que toca bem, mas não sabe escolher o que tocar), e constâncias da música brasileira (há muito compositor e arranjador que usa ritmos, estilos e instrumentos populares, sem saber escoimá-los de sua profanidade e mundanidade), para que os hinos e cânticos usados em nossas igrejas tenham a desejada contemporaneidade, sem perder a indispensável espiritualidade.

As aulas teóricas seriam mais substanciosas se contemplassem a composição, o arranjo, a instrumentação e a orquestração; o problema dos encontros de músicos é ter alguma substância a oferecer, em tão pouco tempo, aos que pretendem criar letras e melodias de novos hinos e cânticos.

A Fonoaudiologia ajudaria os músicos de igreja a entender as perturbações auditivas que eles podem provocar durante os cultos.

A Sonoplastia serviria como preventivo dos ruídos e efeitos acústicos, tão do agrado dos músicos que, não satisfeitos com o canto coral, querem expandir a massa sonora que ilustra os seus espetáculos.

A Informatização é para os músicos requintados que pretendem desenvolver arranjos e partituras.

Os métodos "Orff" (musicalização infantil), "Kodály" (alfabetização musical) e "Suzuki" (aceleração do aprendizado na execução de instrumentos de cordas) têm sido apresentados, cada vez mais frequentemente, nos encontros de músicos batistas.

Na parte prática desses encontros, até onde o tempo permitir, no sentido de aprimorar a técnica, deveria ser dada prioridade à execução de instrumentos apropriados ao culto (violinos, violas, violoncelos, contrabaixos, harpas, flautas, oboés, clarinetas, fagotes, trompas, trompetes, trombones, tímpanos, órgãos e pianos), individualmente e em formação orquestral, inclusive para acompanhamento da música vocal e coral, e ao uso de cifras.

Em seguida, por sua importância para o desenvolvimento da música coral nas igrejas, seriam expostas as técnicas de ensaio e de regência (muitos ministros e diretores de música carecem de orientação), feitos exercícios vocais e de leitura de partituras.

Temos observado, pelos programas de encontros de músicos batistas, que neles existem partes maléficas à preservação da verdadeira música sacra.

Entre os males, assinalamos o incentivo à criação de "equipes de louvor", de oportunidades para expressão corporal, dança e coreografia, do uso de estilos (jazz, blues, rock, reggae, rap, funk, street dance, samba, pagode, etc.) e de instrumentos musicais populares (violões, guitarras, violas caipiras, cavaquinhos, bandolins, banjos, saxofones, xilofones, vibrafones, acordeões, castanholas, tantãs, gongos, bateria, tambores, atabaques, tamborins, pandeiros), além dos mais sofisticados, os sinos ("chimes") e os teclados sintetizadores. Os saxofones, que ocupam lugar proeminente nas orquestras e nos pequenos conjuntos de jazz, estão sendo admitidos nos encontros de músicos e nos cultos de certas igrejas, porque os pianos já executam hinos em arranjos jazzísticos (ver: artigo no.613, "Mark Hayes no Brasil", OJB, 15-21 maio 2000). Em certos encontros, os músicos são tentados a ceder ao "sax appeal" ...

Que benefício poderá trazer à reverência e à espiritualidade, a presença no culto divino de dançarinas, de roqueiros e de pagodeiros?, ou de uma "big band", teleguiada da cabine-de-som por um "big brother"? Na década de 70, quando não estava tão enferma quanto nos dias atuais, era tratada por Bill Ichter nas clínicas de música; agora, nos encontros deveria haver clínicas para os músicos acometidos de coreografite, roquite e pagodite ...

Já começaram a aparecer encontros nos quais são apresentadas técnicas de artes cênicas e de artes visuais; estranhamos, porque são extra-musicais, mas compreendemos, porque eles estão empolgados pelo espetáculo.

Somente os próprios músicos é que poderão escolher os encontros de que participarão, mas ainda passará algum tempo até que eles possam influir sobre a sua programação.

(Publicado em "O Jornal Batista", 13 mai 2002, p. 4)

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Música – Nº. 665

Estrelismo no culto

Rolando de Nassáu

"Dia após dia começo a encontrar mais de mil maneiras de amar; tudo azul, Adão e Eva no paraíso, sem pecado e sem juízo", - em 1985, no "Rock in Rio", vendendo mais de 2 milhões de discos, assim cantava Baby Consuelo, enquanto seu então marido, Pepeu Gomes, dizia: "Ser um homem feminino não fere o meu lado masculino, se Deus é menina e menino"; ambos pretendiam ridicularizar o relato bíblico (Gênesis 3:6, 16-19); no Paraíso, Adão e Eva não teriam cometido pecado e não ficaram sob o juízo divino.

Mas em 1997 o último CD de Baby não chegou a vender 20 mil cópias.

Recentemente, a cantora popular "deu mais uma guinada radical em sua vida. Fundou uma igreja e virou pastora evangélica" (ver: revista "ÉPOCA", 02 dez 02, pp.106-107). Em agosto de 2000, saindo da vida mundana e entrando no meio evangélico com o nome de Baby do Brasil, aproximou-se da Comunidade "Sara Nossa Terra" e acabou sendo ministra de louvor no Clube "Monte Líbano", ponto carnavalesco no Leblon (Rio de Janeiro, RJ), para gravar um CD com música "gospel" (ver: artigo "Gospel: sem limite", OJB, 11 set 00, p.7); era o CD "Exclusivo para Deus". Baby Consuelo tinha encontrado uma entre mais de mil maneiras de cantar, "sem pecado e sem juízo", sendo precedida por cantores famosos, cujas carreiras profissionais foram salvas pelo mercado evangélico.

Esses cantores têm o apoio de instrumentos de percussão (tambores, tamborins, baterias, pandeiros, berimbaus, cuícas, etc.), porque "o batuque é chique" (ver: revista "ÉPOCA", 24 jun 02, p.66), e já pode ser ensinado até em nossos seminários e faculdades teológicas. "Quem disse que não se pode adorar a Deus assim?", indaga Baby, amparada pelo "marketing da adoração". As 134 gravadoras evangélicas, sem contar as multinacionais da indústria fonográfica, garantem o pão cotidiano dos que cantam; elas confiam na ingenuidade dos consumidores evangélicos, que representam 30% do mercado. Na atualidade, os mais apreciados pelos brasileiros são o samba, o pagode e o "pop" (ver: revista "VEJA", 25 set 02, p.118); o rock evangélico aproveita elementos desses três tipos. Um diretor da "Top Gospel", que relançou Wanderley Cardoso, disse que "a conversão dele faz vender"; é o "marketing da conversão". Nélson Ned, autor de "Segura na mão de Deus", cantado por católicos, protestantes, evangélicos, batistas e espíritas, convertido no início da década de 90, já gravou sete CDs "evangélicos". Tem gravações lançadas na América, Europa e África. Cantou no "Carnegie Hall" e no "Madison Square Garden", em New York (USA) (ver: artigo "Músicos evangélicos do Século 20", OJB, 19 jul 99, p.10). Carmen Silva começou a ter sucesso em sua carreira em 1969 ("Adeus, solidão"); no início da década de 90 caiu no ostracismo; converteu-se em 1996 e desponta como "estrela do gospel".

Ainda segundo a recente reportagem da revista "ÉPOCA", o escritor Paulo César Araújo diz que "a religião só é procurada pelos (artistas) que estão no limbo ... no auge do sucesso, a religião serve para abrir um nicho de mercado"; é o "marketing da religião".

Algumas igrejas têm sucumbido à tentação de convidar celebridades (artistas, políticos, governantes, evangelistas, etc.) para os cultos: delas ou das igrejas? As "estrelas" que brilham nos cultos (Cristina Mel, Kléber Lucas, Carlinhos Félix, Mara Maravilha, etc.) são as mesmas que reluzem nas ruas e nas salas-de-espetáculo.

Inevitavelmente, artistas famosos, inclusive os cantores, que se convertem, trazem, para dentro da igreja e durante o culto, o seu estrelismo. Alguns são usados pela igreja como "instrumentos" na evangelização; por sua vez, eles usam a conversão para diversificar seu "marketing"; vão ao culto somente para fazer "show", recebendo da igreja cachês a peso de ouro. Desde 1976, temos advertido: certas igrejas (atualmente imitando o modelo "moderninho" de Rick Warren) transformaram seus cultos em "shows" (ver: artigo "A música no culto divino", OJB, 22 ago 76, pp.2 e 7). Nesses "shows", os grupos e as equipes de louvor são vedetes que estão em busca do estrelismo. Começando na década de 60, alguns líderes contribuíram para a atual decadência na execução musical em nossas igrejas (ver: Rolando de Nassau, A hinodia evangélica no Brasil. Revista Teológica, No.17, dez 98 / jan 99, pp.36-44. Rio de Janeiro: STBSB).

Ainda é tempo de impedir que no culto brilhem o ouro importado (artistas famosos) e a prata da casa (grupos e equipes de louvor) !

(Publicado em "O Jornal Batista", 02 mar 2003, p. 4)

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Música - Nº. 675

A terceira onda

Rolando de Nassáu

Em matéria de teologia, eclesiologia, canto e música, os Batistas no Brasil formam uma denominação periférica em relação aos Batistas no sul dos Estados Unidos da América. No tocante ao culto, não podemos ainda nem sonhar com a emancipação teológica, eclesiológica, hinódica e musical.

Os Batistas no Brasil têm passado por crises na teoria e na prática de seu culto. Cada crise é antecipada e acompanhada por uma onda de aculturação. As crises têm contribuído para a ambigüidade cultural da Denominação no Brasil.

O laxismo dos líderes nativos tem deixado a forma do culto batista sujeita a variações e novidades. A massificação das congregações atualmente facilita a percepção de que o culto pode ultrapassar os limites do templo e do sagrado.

Disso resulta a profanação do templo, a vulgarização do culto, o empobrecimento da pregação, a falsificação da adoração e a banalização do louvor. Tudo isso se resume num desvio da doutrina legada pelos pioneiros da obra batista.

Que tipo de culto estão os Batistas no Brasil praticando? Certamente, não é o mesmo dos primórdios.

Passados os anos da implantação das primeiras igrejas (1871-1900), a fundação dos seminários no Recife e no Rio de Janeiro permitiu a imposição de diretrizes para os cultos daquelas igrejas, baseadas em princípios teológicos e eclesiológicos. Surgiu, então, a primeira crise, motivada pela exigência de implantação de uma tradição da cultura batista norte-americana. Aquelas diretrizes confirmavam um processo, quase sempre de imposição cultural, às vezes de interpenetração de culturas. E os brasileiros se acomodavam.

No início do século 20, a Primeira Onda inculturadora modelou o culto batista através dos ensinos dos teólogos Mullins, Tribble, Broadus e Langston, dos professores Z.C.Taylor, J.J.Taylor, A.R.Crabtree e S.L.Watson e dos eclesiólogos H.H.Muirhead e W.C.Taylor, e por meio dos hinos de S.L.Ginsburg e W.E.Entzminger. Foram estes batistas norte-americanos que ditaram, durante quase 70 anos (1900-1969), o que deveriam professar e cantar os Batistas no Brasil. A teologia, a eclesiologia, o canto e a música batista no Brasil receberam desses gênios um poderoso influxo. Embora procedentes de vários hinários evangélicos, as letras e as músicas do "Cantor Cristão" representavam, em grande parte, a expressão preponderante da fé e da doutrina batistas. Ginsburg e Entzminger não procuraram analisar a cultura do povo brasileiro quando iniciaram uma hinografia em língua portuguesa para os novos convertidos; não tomaram conhecimento dos vários estilos musicais nativos; apenas transplantaram a hinodia anglo-americana.

Mas, por volta da década de 70, surgiu a Segunda Onda, quando aconteceram variações na rígida forma de culto batista. Teriam atuado o teólogo John Landers Sr., o eclesiólogo Glendon Grober, os professores Broadus David Hale, Richard Plampin, Thomas Robuck, William Viser e Byron Harbin, os músicos Fred Spann, Wyatt Parker, James Stanley Moore, William Ferguson, David Hodges, Ralph Manuel e Ronnie Parker? Presumivelmente, seriam estes que nos seminários dariam as novas diretrizes teóricas para o culto batista. Entretanto, sua influência não durou nem 20 anos.

Na época, começaram a ser aproveitados hinos de hinógrafos da "New Generation" (ver: OJB, 15 out e 17 dez 78) , encenados "musical shows" (nos quais o mais importante era o aspecto visual), e amealhados hinos de poetas e compositores brasileiros para integrarem o HCC. Parece que a revista "Louvor" e outras publicações da JUERP não conseguiram deter, na década de 90, a avalanche de música espúria, inclusive estrangeira. A clonagem produziu música evangélica estereotipada. As escolas de música sacra dos seminários foram perdendo suas características primordiais, enquanto os festivais, a partir de 1996, iam ganhando popularidade (sic) e conseguiam diversificar o culto.

Nos últimos dez anos, em certas igrejas batistas as inovações deixaram o culto à mercê de cantores, instrumentistas e coreógrafos, com ou sem pandeiros. A Segunda Onda descaracterizou o culto e indistinguiu os Batistas.

Neste início do século 21, aproxima-se avassaladora a Terceira Onda.

O participante do culto batista tende a usar a versão bíblica, o hinário, a partitura, a gravação em áudio ou vídeo, desde que sejam os "bestsellers" dos marqueteiros. A imagem projetada num telão e a aparição de um "astro" da chamada música "gospel" transformarão o culto num espetáculo. A efusão de atitudes afetuosas fará do templo um lugar semelhante a um clube. Corpos em movimentos coreográficos tentarão dar sinais de espiritualidade. A opinião de cada crente suplantará a fé concedida por Deus e a ordem dada em Sua Palavra.

Os ícones terão participação destacada no significado do culto e das ordenanças bíblicas. O sagrado confundir-se-á com o profano. Nas congregações, será necessariamente maior a participação dos jovens. Durante o desenrolar do programa-de-auditório, antigamente chamado de culto, haverá muitas oportunidades para anunciar a venda de camisetas, adesivos, chaveiros, discos, livros e saldos da Feira do Consumidor Cristão; receberá maior atenção quem tiver maior poder aquisitivo. A Terceira Onda revelará, inclusive, mais uma vez, nossa dependência em matéria de culto.

Quem viver, verá a Terceira Onda ...

(Publicado em "O Jornal Batista", 04 jan 2004, p. 4).

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Doc.JB-690

A vocação do ministro de música

Rolando de Nassáu

Entre as nossas preocupações com a música nas igrejas está a preocupação com o ministério de música. Em nosso livro "Introdução à Música Sacra" edição do autor, esgotada, Rio de Janeiro, 1957), escrevemos que entre as medidas indispensáveis à melhoria da nossa música estavam a criação de escolas de música sacra, anexas aos seminários teológicos, e de cargos remunerados de diretor de música, nas igrejas locais (pp.71-73). Os leitores habituais desta coluna talvez se lembrem de algo que escrevemos a respeito do ministério de música, em oito artigos.

Saibam os leitores eventuais que no primeiro desses artigos (ver: OJB, 16 maio 65) sugerimos: 1) o Plano Cooperativo da CBB deveria destinar uma verba especial para sustento de professores de música sacra e aumento do número de estudantes de música em nossos seminários, numa base percentual; os cursos foram criados em 1963, posteriormente, portanto, às medidas sugeridas em 1957 em nosso livro; 2) as igrejas concederiam bolsas-de- estudos a jovens talentosos com o compromisso de, terminado o curso no seminário, trabalhar para elas durante certo tempo; 3) as igrejas, as convenções estaduais e crentes individualmente contribuiriam para um Fundo Especial, a ser administrado pelo Departamento de Música da então Junta de Escolas Dominicais e Mocidade da CBB, que custearia o Programa Nacional de Educação Musical. Concluímos esse artigo assim: "Depois de 8 anos, parece estar chegando a oportunidade e a possibilidade de algumas igrejas batistas no Brasil terem seus ministros de música !".

Evidentemente, para serem criados (escolas e cargos de ministro) é indispensável que haja vocacionados. Há o argumento de que o vocacionado não investe tempo e dinheiro para trabalhar no ministério de música sem remuneração. Esse tal, certamente não é um vocacionado! Será que o candidato está disposto a investir tempo no ministério, se houver remuneração? Se não está, então está à procura de "sombra e água fresca", é um aproveitador. Será que o candidato está disposto a gastar seu dinheiro para pagar as despesas do curso, sabendo que mais tarde será remunerado? Talvez esteja fazendo um negócio. Cabe ao seminário e à faculdade teológica incutir no estudante a idéia de que o ministério de música é uma vocação, paralela à do ministério da Palavra. Se o seminarista encara o ministério da música sacra como profissão, cedo perceberá que poderá ganhar mais dinheiro na música profana.

O ministro encara o ministério como uma vocação ou uma profissão?

É um problema grave um ministro achar que foi vocacionado para o ministério da música, mas, depois de algum tempo de luta com o pastor ou a igreja, desistir; se ele é tecnicamente capaz, buscará trabalho no setor da música profana.

O ministro com mentalidade mercantilista percebe as naturais mudanças nos ministérios de música das igrejas como oportunidades oferecidas pelo "mercado", e não como aberturas para prestar serviço à música sacra, seja numa igreja grande ou pequena, abastada ou de parcos recursos financeiros.

A respeito do ministério da música, falta visão (ou compreensão ?) da parte de certas igrejas e de certos de seus membros, aí incluídos os candidatos e os alunos dos cursos de música. Há igrejas que tiveram ministros de música e, depois de algum tempo, julgaram que tinham desperdiçado dinheiro e trabalho. Na verdade, não tinham visão nem compreensão do ministério. Essas igrejas, pelo menos os seus líderes, deveriam ter demonstrado interesse no preparo dos vocacionados e no desempenho dos ministros.

Ensinar música e treinar músicos são duas atividades diferentes. Os vocacionados são encaminhados aos cursos de música sacra para aprenderem os elementos da música. Eles devem saber, desde o início do curso, que vão estudar música sacra, que é um gênero diferente da música profana. É possível que, nestes tempos em que o crente é constantemente envolvido por sons mundanos, o vocacionado tente usar os elementos da música à maneira dos músicos profanos. O mais grave ocorre quando no seminário ou faculdade teológica são tolerados ritmos, estilos e instrumentos musicais profanos; em alguns cursos, são incentivados! Os bacharéis em música sacra vão para as igrejas, onde são testados pelo pastor e pela congregação, que, nem sempre, conhecem a verdadeira música sacra. O treinamento do ministro consiste em procurar exercer o ministério pela forma que ele imagina, ou como o pastor da igreja quer. Começa, então, um duelo entre concepções e conhecimentos a respeito do que seja música apropriada ao culto. Nesse estágio, a vocação do ministro é posta à prova. O treinamento dos membros da igreja na área musical é um teste porque o ministro encontrará pessoas com algum ou nenhum conhecimento de teoria musical e história da música sacra.

A atitude do pastor em relação ao vocacionado será muito importante, desde o seu encaminhamento ao curso de música sacra até a sua contratação como ministro de música. O vocacionado terá oportunidade de verificar se realmente o que quer é a preservação da música sacra.

(Publicado em "O Jornal Batista", 03 abr 2005, p. 4).

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Doc.JB-691

A formação do ministro de música

Rolando de Nassáu

Muitos problemas na atual situação do ministério da música nas igrejas têm origem no curso de música, realizado num seminário ou numa faculdade.

A igreja que não investe na formação de um ministro, nunca terá um ministro razoavelmente capacitado para a função. Mesmo sem usufruir a experiência de um ministro, pelo menos a igreja deveria pagar os custos de sua graduação, num seminário ou faculdade teológica, ou seu aperfeiçoamento (mestrado ou doutorado); seria um investimento na formação do ministro, que, três ou cinco anos mais tarde, teria como retorno a melhoria da música na igreja.

A formação do ministro de música, que, em geral, será contratado por uma igreja grande, exige que o curso tenha um currículo mais complexo. Para formar pianistas, organistas e regentes corais, que vão servir às igrejas médias e pequenas, talvez os atuais cursos sejam longos e onerosos para essas igrejas. A seleção para o curso de mestrado em música numa universidade é feita por doutores formados em composição, regência, pedagogia, história, musicologia, etnomusicologia, entre outras disciplinas. Num seminário batista, por doutores em ministério de música, que exigirão dos bacharéis conhecimentos de metodologia da pesquisa, hinologia, história da música, regência e estudos teológicos. Há ministros que gastaram tanto ou mais tempo em seu preparo acadêmico para o ministério da música quanto os ministros da Palavra.

Os atuais cursos de música dos seminários continuam sendo deficientes; ou "preparam" para igrejas que não possuem talentos musicais, ou para igrejas que exigem do ministro maior conhecimento teórico; ou são encaminhados a igrejas de baixo nível artístico, sem condições de apreciar o repertório planejado pelo ministro, ou a igrejas cujas membrezias esperam um repertório mais sofisticado. Deveria existir um banco-de-dados, onde os candidatos pudessem obter informações sobre os cursos; muitos vão às cegas para um seminário escolhido pela liderança da igreja.

É um equívoco dizer que nossos seminários precisam se atualizar, isto porque, nos dias atuais, atualização significaria acomodar, conformar, adaptar o ensino à música profana, o que já acontece em muitas igrejas sem que o ministro necessite frequentar um seminário. O de que os seminários precisam é ensinar a música sacra, com eficiência didática tal que a simples música-de-igreja possa tornar-se uma verdadeira música-de-culto. Atualizar significa fazer da música-de-igreja uma música-de-entretenimento. Desde os últimos quinze anos, o maior pecado cometido por alguns cursos de música dos seminários e faculdades teológicas é não saberem distinguir os gêneros sacro e profano. Alguns deles estão desvirtuando as suas finalidades, com a implantação do ensino de ritmos e instrumentos musicais profanos (alguns professores não saberão dizer porque não devem ser usados no culto divino), e de estilos eufemisticamente chamados de "música cristã contemporânea". Felizmente, aconteceu recente substituição de uma diretora de curso de música, que, ao invés de procurar a elevação do nível artístico, tudo fez para rebaixá-lo. Nesse seminário não foi tomado como exemplo o padrão de excelência adotado pelo curso de música sacra do seminário batista de Fort Worth (Texas, EUA), mas o de qualquer cursinho de música popular, com a agravante de incluir no ensino a coreografia e os pandeiros.

É extremamente necessário que os cursos de música permaneçam nos seminários, para que, dentro de cinco anos, tenhamos novos ministros; mas é absolutamente indispensável que eles se dediquem à música sacra; senão, dentro de cinco anos, teremos outros compositores, letristas e cantores ... de música popular ! As juntas administrativas dos seminários e faculdades teológicas precisariam ter condições de avaliar o ensino ministrado nos cursos de música, a fim de que eles preparem ministros para a música-de-igreja, e não a música-de-entretenimento. Tudo o que escrevemos também vale para as escolas de música anexas às igrejas.

Numa pesquisa de 1979 constatamos o fato de os cursos de música recrutarem e formarem bacharéis predominantemente dentro do elemento feminino de nossas igrejas. Algumas igrejas preferem (ou toleram) as moças, porque recebem remuneração menor do que seria paga aos ministros. Muitos jovens vocacionados (mas que não sabem em que seara iriam trabalhar) têm preconceito em relação ao estudo da música sacra, a ponto de colocá-lo em plano secundário no currículo e na carga horária. Há seminarista que encara o curso como meio de conseguir um trabalho remunerado (ainda que seja mal remunerado) ou um certificado que o habilite a participar de um concurso para ingresso no Serviço Público. Com tal concepção, não é de estranhar-se que o bacharel não sinta a vocação nem esteja preparado para o exercício competente do ministério.

A existência dos problemas aqui apontados explica a ligeireza na formação e a lentidão na alocação dos bacharéis, e a consequente precariedade da execução musical em nossas igrejas.

(Publicado em "O Jornal Batista", 01 mai 2005, p. 4).

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Doc.JB-692

A experiência do ministro de música

Rolando de Nassáu

Muitos ministros de música têm alguma culpa pela atual situação do ministério da música nas igrejas batistas no Brasil: não sabem valorizar o verdadeiro culto "em espírito e em verdade". Para valorizar o culto, o ministro deve discernir entre o sacro e o profano, e precaver-se contra a profanidade na música para o culto.

Mesmo que não sejam conhecidos ou sustentados pela liderança da igreja, estes princípios básicos são da responsabilidade do ministro: 1) procurar reverter o gosto da parte da membrezia que admite a música profana na igreja; 2) atentar para a beleza da música e o significado das palavras, evitando que os sons e os textos mundanos penetrem no culto. Se a igreja não valoriza os aspectos espirituais do culto, então dará pouca ou nenhuma validade à existência do ministro.

Muitos problemas do ministério situam-se na pessoa do ministro. O ofício é prejudicado, em certos casos, pelo mau relacionamento do ministro com o pastor. O trabalho do ministro, seus planos e realizações, deve ser acompanhado pelo pastor. O ministro deve saber o que lhe compete. Ser pianista ou organista, regente congregacional ou coral, não é ser ministro de música; ele não deve exorbitar, pretendendo ser "ministro de música, louvor e adoração".

A maioria das igrejas não tem condições de remunerar um ministro. Há ministros que trabalham com pouca ou nenhuma remuneração. A partir do momento em que recebem, não a devida remuneração, mas uma ajuda-de-custo, contribuem para a disseminação da idéia de que ministros bem preparados, espiritual e tecnicamente, não são importantes para o culto da igreja, no qual a adoração é elemento primordial e fundamental. Os dirigentes musicais dos "shows" evangélicos são bem remunerados porque atraem multidões e trazem rendas para os promotores. Certos pastores não têm a preocupação de melhorar o nível da formação técnica e da remuneração do ministro, além de não compartilharem com os ministros os benefícios que recebem. A esposa do pastor, se é ministra de música, também merece receber remuneração. Parece, à primeira vista, que a solução do problema (não haver, nas igrejas médias e pequenas, recursos financeiros para sustentar o ministério) é fazer com que a igreja cresça. Por isso, há pastores e músicos que apelam às multidões.

Atualmente, os ministros estão sendo tentados a experimentar os estilos, os instrumentos e os ritmos da música profana; os que chegam a experimentá-los não sabem distinguir o sacro do profano. Uma ocasião para eles exporem-se à tentação dos modismos é a participação em congressos e festivais extra-eclesiásticos ou extra-denominacionais; nesses encontros espúrios, o ministro sente-se "livre" das peias impostas ou sugeridas pela igreja local ou pela Denominação. Há "congressos de louvor" onde os aspectos técnicos não precisam ser apreciados: o que se quer é a "celebração", a "festa", a "libertação"; neles propaga-se a idéia de que a congregação não precisa de ministro de música, mas de uma "equipe de louvor"; a massa quer ampla liberdade para cantar, dançar, alegrar-se, divertir-se ... ; para tanto, pagaram ingressos. Nesses congressos, sempre há ocasião para introduzir sutilmente os temas doutrinários da preferência dos promotores dos eventos. A experiência acaba dividindo os ministros e causa atritos entre o ministro e o pastor, ou a igreja inteira; alguns pastores saem convictos de que não há necessidade de ministros em suas igrejas ... Os preletores ensinam ser mais importante a completa liberdade no louvor; com palavras menos circunspectas: a música na igreja pode ser um simples "oba-oba" ...

O ministro deve ser leal à sua igreja local e à sua Denominação. Ele deve conhecer as diretrizes e as tendências, procurando sempre resguardar os princípios básicos de sua atuação. A AMBB não é um sindicato em defesa de direitos trabalhistas, mas uma associação pela preservação da pureza da música a ser executada nas igrejas batistas. Neste sentido, deve haver coesão entre os ministros. A falta de coesão, no tocante à qualidade da música, acabará por dividí-los, desprestigiá-los e torná-los perniciosos.

É preocupante saber que, entre os 2.160 mensageiros inscritos, apenas um pequeno número de ministros de música inscreveu-se na 85a. assembléia convencional, realizada no Rio de Janeiro (RJ). Como também é motivo de preocupação, quando o ministro de música não se interessa pelas atividades dos outros departamentos da igreja local.

O pleno exercício do ministério, que enriquecerá a experiência do ministro, exige que ele: 1) escolha em sua igreja os cantores solistas que possam desempenhar sua função com a maior perfeição; 2) cuide do treinamento musical das crianças e dos adolescentes; 3) faça uma seleção criteriosa dos hinos e cânticos que serão entoados pela congregação; 4) supervisione as atividades dos coros e dos conjuntos vocais da igreja; 5) sendo o principal responsável pela música instrumental, verifique se os instrumentos são adequados ao uso sacro, evitando qualquer profanidade durante a execução musical na igreja.

(Publicado em "O Jornal Batista", 05 jun 2005, p. 4).

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Doc.JB-693

A competência do ministro de música

Rolando de Nassáu

Além de ser a faculdade concedida pela igreja para um músico dirigir a música-de-culto, e coordenar outras atividades musicais, é a qualidade do músico para realizar essas tarefas. Ao ministro não basta interessar-se pela música-de-igreja.

Pode acontecer o músico ter a capacitação, adquirida num curso de música, e a habilidade, exercitada na função, mas não ter autonomia suficiente para exercê-la. É preciso que sua idoneidade seja reconhecida pelo pastor e pela igreja, que tenha condições de se aperfeiçoar, para ultrapassar a mediocridade e obter a excelência.

O músico idôneo tem convicção de sua vocação, por isso está preparado para suportar as dificuldades e aproveitar as oportunidades, sabendo que o ministério de música pertence a Deus; atém-se ao objetivo: preservar o canto e a música; o ministro que desvirtua a execução musical, que desprestigia a obra musical do gênero sacro, está descumprindo um compromisso com a igreja e com Deus. Talvez seja apto para realizar suas tarefas eclesiásticas, mas se não procura a perfeição, isto é, se não tem em vista a origem e a finalidade do seu ministério, está sendo infiel a Deus e desleal à igreja. Infelizmente, há ministros desnorteados por ventos da moda musical.

Ele deve ser preparado para executar a boa obra musical, aquela em que o nome de Deus é exaltado com reverência e magnificência, e o pecador manifesta confissão e contrição. Se ele prefere imitar a arte profana, não está praticando na igreja o que ouviu ou leu no curso de música. Muito grave é a situação, quando ele ouviu ou leu nesse curso obras profanas. É o caso de a igreja procurar conhecer o currículo desse curso. Menos grave, quando o seminarista sem vocação está mais interessado na música profana. É o caso de o curso verificar se o seminarista tem condições para o perfeito desempenho do ministério. Todas essas questões estão ligadas à competência oriunda do discernimento; é imprescindível que igreja, pastor, curso e seminarista saibam discernir entre os gêneros sacro e profano da música. Quando um ministro, mesmo que seja tecnicamente formado, leva algum coro da igreja a cantar obras de música profana, confere a si mesmo um atestado de incompetência.

Do ministro incompetente, a congregação só poderá esperar mediocridade. Enquanto o "show business", a empresa de entretenimento, empenha-se em alcançar um alto nível de excelência musical, a "worship house", a casa de adoração contenta-se com a música medíocre. Lutero, em seu tempo (século XVI), dizia: "O Diabo usa as melhores melodias"; o ministro incompetente satisfaz-se com elas.

É verdade que a mediocridade começa com os compositores. Mas quem escolhe os compositores que figurarão na ordem-de-culto? Em 1990, por causa da edição do "Hinário para o Culto Cristão" (HCC) houve um louvável esforço da Denominação de incentivar novos letristas e compositores de hinos. Passada a efervescência hinódica, voltamos a importar os cânticos, muitos com traduções pobres e capengas, quanto à formulação poética, outros expressos de forma sentimentalóide ou romântica. Um outro recurso tem sido fazer hinos antigos parecerem contemporâneos por meio de arranjos musicais modernosos.

A mediocridade tem continuidade nos cantores e instrumentistas, escolhidos pelo ministro incompetente para participarem dos cultos. Eles são incompetentes porque não sabem qual é a finalidade da música no culto e não sabem como devem comportar-se durante a execução musical. O cantor e o instrumentista pode ser exímio em sua técnica, mas incompetente em "sua" arte, se não sabe distinguir uma ária, vocal ou instrumental: adequada ao culto divino ou apropriada a uma sala-de-concertos? Aliás, é tão incompetente ao ponto de não fazer-se esta pergunta ...

O ministro idôneo não cede aos modismos, mas permanece naquilo que aprendeu nas Sagradas Escrituras, que serve para todos os tempos e todas as culturas.

Tem havido tentativas de trazer, do Velho Testamento para as igrejas de nosso tempo, usos, costumes, estilos e instrumentos musicais, mas não somos ingênuos. A tendência humana de mascarar seus desígnios encontra nas Escrituras Sagradas um princípio imutável: Deus só aceita o culto "em espírito e em verdade", aquele de um coração quebrantado, não de um corpo saltitante.

Além de saber gerir o departamento de música, o ministro competente sabe selecionar as formas, os instrumentos e os estilos musicais. A dança não é uma forma de expressão litúrgica. A bateria não é um instrumento que favorece a introspecção. As outras artes do espetáculo não condizem com o ambiente do templo. O estilo que lembra um mantra é uma fórmula que não se adequa ao canto cristão, que é espiritual, não espiritista.

Para o ministro competente, a constância melódica é mais importante do que a rítmica; as fórmulas rítmicas representam um perigo para a música-de-igreja, tenham origem na música popular brasileira ou alienígena.

O ministro é competente se ele expurga do repertório de sua igreja a música falsamente religiosa, insuflada pela cultura "pop".

(Publicado em "O Jornal Batista", 03 jul 2005, p. 4).

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Música - Nº. 709

Ministro de música e ministro de louvor

Rolando de Nassáu

(Dedicado ao leitor Joás Gueiros, da Pensilvânia, EUA)

Na primeira metade do século 20, na maioria das igrejas em cada uma havia apenas um pastor; depois, alguns pastores admitiram auxiliares.

Atualmente, em muitas igrejas existem equipes ministeriais; além do pastor titular, há 12 ministros: de música, de educação cristã, de evangelismo e missões, de visitação, de surdos, de células, de infância, de juventude, de idosos, de administração, de comunicação e de informação.

Desde a década de 60, igrejas filiadas à Convenção Batista Brasileira mantêm ministros de música, cujas funções básicas são: I – dirigir o departamento de música da igreja local; II – planejar e coordenar as atividades musicais; III – assessorar o pastor titular na elaboração das ordens de culto; IV - liderar o canto congregacional; V – preparar e reger conjuntos vocais, coros e conjuntos instrumentais; VI – zelar pela guarda, conservação, uso e renovacão dos instrumentos musicais; VII – promover a formação e capacitação de regentes, solistas, instrumentistas e acompanhistas. Nos primórdios, eram formados pelos seminários do Rio de Janeiro e do Recife.

Durante os cultos dominicais, a liderança compartilhada é exercida pelo ministro da Palavra (o pastor titular ou algum ministro auxiliar) e pelo ministro da Música. Os ministros que conhecemos têm-se conservado dentro dos limites de suas funções básicas, por isso não tem ocorrido conflito de atribuições com os pastores titulares.

Nos Estados Unidos da América, além do ministro de música há o ministro de louvor, com objetivos bem definidos; o ministro de música estará mais envolvido em organizar as atividades dos cantores e dos músicos, elaborar a Ordem de Culto, planejar a execução do canto e da música, e liderar o canto congregacional, enquanto o ministro de louvor estará mais interessado em guiar a congregação à presença de Deus por meio do louvor não-cantado e não-musicado. A formação do ministro de louvor é semelhante à do ministro de música, mas a ênfase está no conhecimento bíblico; suas funções básicas são: I – auxiliar o ministro de música em suas tarefas; II – preparar textos bíblicos e poéticos para serem lidos, recitados ou declamados durante o culto.

A novidade para as igrejas batistas no Brasil é o entendimento do louvor como atividade literária, extra-musical. Com efeito, o canto ainda é a maneira mais usada de expressar o nosso louvor a Deus; é a mais visível e parece ser a mais gratificante. Mas existe a possibilidade, raramente explorada, do louvor por meio da leitura (Salmos 119:11).

O genuíno ministro de louvor dedicará atenção ao louvor que utilize diretamente a Palavra de Deus; o resultado de seu trabalho ministerial será maior e mais generalizado conhecimento da Bíblia e conseqüente mudança na mente e no pensamento da congregação.

Existem igrejas nos EUA que exibem seus ministros de adoração; publicam nos jornais e na Internet anúncios atraentes não somente para os profissionais mas também para as congregações que querem crescer. As funções básicas desses profissionais são: I – auxiliar o ministro de música em suas tarefas; II – dirigir a leitura bíblica pela congregação; III – guiar a meditação da congregação a respeito da leitura bíblica; IV – orientar a oração da congregação, antes ou depois de uma execução musical. Esse tipo de ministro auxiliar facilmente sai da esfera do ministério do Louvor e invade a área do ministério da Palavra, exercido pelo pastor titular.

Estranhamos o uso dos termos "centro de adoração" (aplicado ao templo, porque a adoração deve ser realizada principal e antecipadamente no lar do crente) e "ministro de adoração" (relacionado ao culto, pois a adoração particular deve preceder o culto público no templo); evidentemente, esse ministro não dirige a adoração no lar do crente. "Ministro de Adoração" é um termo errôneo e ineficaz, pois esse profissional não pode vigiar ou estimular a adoração dos crentes; o apóstolo Paulo ensinou que o crente deve adorar todos os dias, a vida inteira, em qualquer lugar e em qualquer circunstância (1ͺ. aos Coríntios 10: 31); o indigitado ministro não tem condições de interferir na adoração dos crentes; a adoração pertence ao foro íntimo.

O pastor titular, pela pregação da Palavra de Deus e pela intecessão a favor dos crentes, tem oportunidades de influir na vida espiritual da igreja.

Os exercícios espirituais dos crentes são realizados nos momentos devocionais, aos quais o ministro de adoração não tem acesso (OJB, 04 jul 04).

Pelo exposto, conclue-se que o ministro de música e o ministro de louvor são os obreiros mais indicados para promover o louvor da igreja, cantado, musicado ou falado.

http://www.abordo.com.br/nassau/

(Publicado em "O Jornal Batista", 01 out 2006, p. 4).

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Ambientes de Cultos

Roberto Torres Hollanda

Em nosso livro "Culto – Celebração e Devoção" (Rio de Janeiro: JUERP, 2007) comentamos os formatos, estilos e ambientes de culto.

Formato é a forma pela qual uma igreja realiza os seus cultos.

Os formatos não são usados em sua natureza pura; podem ser mesclados; o que modifica o uso do formato é o estilo, a maneira de expressar o culto segundo fórmulas próprias escolhidas pelas igrejas e seus pastores.

Conhecemos, por experiência, os estilos de três igrejas batistas: Primeira do Rio de Janeiro, "Itacuruçá" e Memorial de Brasília. No decorrer de 50 anos (1957-2007) mudou sensivelmente o estilo de culto nessas igrejas.

Antes da década de 80, quando alguém entrava numa igreja, pertencente a uma denominação evangélica tradicional, sabia que tipo de culto seria realizado. Devido ao pluralismo e consumismo da sociedade pós-moderna, também se diversificaram os formatos, estilos e ambientes de culto. Para ser fiel à identidade denominacional, é importante examinar os conteúdos e as características dos formatos de culto; são compatíveis com a Palavra de Deus? respeitam as doutrinas batistas? Cada igreja, ao escolher o seu estilo de culto, deve refletir sobre essas questões.

Neste artigo, consideramos tradicionais as oito denominações e igrejas, protestantes e evangélicas, que atuam no Brasil desde o século XIX: anglicana (1810), luterana (1824), congregacionalista (1855), presbiteriana (1859), metodista (1871), batista (1871), darbista (1875) e episcopal (1890); contemporâneas, as pentecostais que foram organizadas no Brasil desde o início do século XX: Assembléia de Deus, Congregação Cristã e "Evangelho Quadrangular", e, desde a década de 70, as neopentecostais: Universal do Reino de Deus, Internacional da Graça de Deus, "Renascer" e "Sara a nossa Terra".

Adotam o formato litúrgico, além das igrejas católicas romana e ortodoxa, as igrejas protestantes luterana, anglicana e presbiteriana. Este formato tem o propósito de destacar a grandeza e a glória de Deus. Na Igreja Presbiteriana Independente (1903) o formato litúrgico é mais flexível.

Usam o formato ritual: as igrejas evangélicas reformada, puritana, congregacionalista e batista, visando enaltecer a bondade de Deus. Em certas igrejas batistas o formato ritual tem sido atenuado, quanto à rigidez na elaboração da Ordem de Culto.

O formato avivado é observado principalmente na igreja metodista, mas encontra adeptos em igrejas "ritualistas". Algumas igrejas batistas, que saíram da Convenção Batista Brasileira, celebram o culto na forma avivada; algumas (organizadas desde o início deste século XXI) chegam ao formato extático; outras, importam costumes, trazidos por movimentos extra-denominacionais, por meio de espetáculos musicados ("musical shows").

O formato extático (em que a congregação é levada ao êxtase espiritual) é praticado nas igrejas pentecostais e neopentecostais. A ênfase neste formato é louvar ao Senhor, relembrando o dia de Pentecoste.

O formato facilitador é o formato experimentado nas igrejas que seguem a orientação de "Willow Creek" (Bill Hybels), "Cristal" (Robert Schüller), "Saddleback" (Rick Warren) e "Vineyard" (John Wimber).

O objetivo original dos formatos avivado e facilitador era anunciar o Evangelho aos descrentes por meio de campanhas de reavivamento.

Em 2003 foi sugerido o formato alternativo, que pretende tornar a igreja relevante para a sociedade pós-moderna (op. cit., pp. 38 e 39).

Características dos formatos e ambientes

No formato litúrgico é conferida muita importância à reverência, ao planejamento e estruturação racional do culto, ao sermão baseado no calendário eclesiástico e ao uso de fórmulas para orações públicas.

O perigo é cair no formalismo, e, em conseqüência, no sacramentalismo e sacerdotalismo.

No formato ritual são enfatizadas a reverência e a tradição eclesiástica. O culto é orientado pela racionalidade. O planejamento e a estruturação do culto são baseados nos temas escolhidos pelo pastor e pelo ministro de música. No culto são incentivadas as orações espontâneas, dirigidas por pessoas designadas pelo pastor, e a leitura pública da Bíblia é feita com maior freqüência. Algumas igrejas "ritualistas" comportam-se, no "período de louvor", como igrejas "avivadas"; note-se que, apesar disso, ainda são consideradas "tradicionais".

No formato avivado o culto é orientado pelo emocionalismo. O reavivamento espiritual costuma estar na pauta da igreja, que estimula a participação do cultuante. O perigo é a ocorrência de manipulação psicológica do auditório.

O formato extático incentiva a descontração e espontaneidade do cultuante, que fica sujeito ao emocionalismo provocado pela sentimentalidade da execução musical. Há o perigo de subjetividade na leitura da Bíblia e de contágio psicológico por meio de testemunhos pessoais.

Em algumas igrejas o formato facilitador reserva o culto dominical para atender os "não-cristãos" que comparecem ao templo, quando e onde é realizado "show" de finalidade evangelística, sendo dramatizado o tema da mensagem pastoral, na qual é feita a contextualização da leitura bíblica. O perigo é dar oportunidade à mercantilização dos recursos de entretenimento da igreja.

Ambiente é o conjunto de condições materiais, morais e espirituais que envolve a realização do culto público da igreja.

Há dois ambientes de culto: o formal e o informal.

(Publicado em "O Jornal Batista", 11 nov 2007, p. 12).

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AMBIENTES DE CULTO (II)

Roberto Torres Hollanda

Ambiente formal

Neste ambiente, em que o formato do culto pode ser litúrgico ou não-litúrgico, é muito importante a formalidade dos atos de culto. No ambiente ritual (não-litúrgico), a Ordem de Culto é invariável, atendendo ao critério racional de suas partes, que devem ser inteligíveis pela congregação (I Cor. 14.15).

Durante um século (1880-1980), a maioria dos Batistas no Brasil adotou o formato não-litúrgico e prestou culto num ambiente ritual.

Em muitas igrejas batistas, que, por definição, são não-litúrgicas (ver: nosso livro "Culto – Celebração e Devoção". Rio de Janeiro: JUERP, 2007, pp. 56-67), o ambiente ritual foi indevidamente impregnado pelo formalismo.

Este ambiente exige planejamento do culto; há dirigentes que não estão capacitados para elaborá-lo, ou não têm condições de tempo para fazê-lo.

Em geral, a Ordem do Culto prevê comunicações, saudação aos visitantes, orações, leitura e explicação da Palavra de Deus, além das partes musicadas (convocação, processional, prelúdio, interlúdio, poslúdio, recessional, canto coral e congregacional); todos esses itens devem ser concatenados, a fim de atender ao objetivo educativo do culto. Se não houver a concatenação, o ambiente poderá transformar-se em emocional, dando lugar à improvisação e informalidade.

No ambiente ritual, o que caracteriza a execução musical é que os cantores e os instrumentistas pelo menos não tentam manipular os sentimentos dos cultuantes; os sentimentos são a resposta ao que é racionalmente entendido e apreciado pelos cultuantes; as letras e as melodias dos hinos são associadas às idéias e convicções dos cultuantes em relação a Deus, hauridas durante o trabalho educativo da igreja, por meio das aulas da Escola Bíblica Dominical e dos sermões pastorais; a execução musical não suscita emoções, mas reflexões.

A música de Johann Sebastian Bach é a que melhor serve ao ambiente ritual. Nenhuma igreja pode pretender atingir a excelência na execução musical se não tem em seus cultos a música de Bach, pelo menos como parâmetro. A cantata sacra, especialmente a de Bach, funciona como "segundo sermão"; ajusta-se à uma Ordem de Culto bem planejada; tem objetivo hermenêutico na reflexão da Palavra de Deus; é teocêntrica e cristocêntrica; leva a congregação ao entendimento e à apreciação da finalidade do culto; dá ao cultuante oportunidade para responder intelectual e afetivamente à mensagem pastoral.

Um ambiente ritual que dispense a música de melhor qualidade técnica, artística e espiritual significa que trata o culto como mera formalidade.

O mesmo ocorre com a pregação; o pregador não tenta manipular psicologicamente o auditório provocando emocionalismo; os ouvintes entendem e refletem sobre a mensagem (Rom. 10. 17).

Apesar da pretensão de alguns cantores e instrumentistas, a música não afeta a alma, somente as emoções humanas. A alma é ativada e impressionada pela mente, sob a inspiração do Espírito Santo. Se o assistente do culto necessita de música ritmada, em alto volume sonoro, produzida por guitarra, bateria e outros instrumentos de percussão, é porque precisa de excitação dos sentidos, não de despertamento dos seus sentimentos.

Durante o culto, num ambiente ritual é mais propícia a edificação do entendimento do ouvinte quanto às questões espirituais; essa edificação é um trabalho lento, contínuo e organizado dos ministérios da igreja; o canto, a oração e a pregação devem servir para a edificação espiritual (I Cor. 14. 26); por isso, há necessidade de ordem no culto; o ambiente, não sendo planejado e orientado à edificação espiritual, dará lugar ao canto performático, à oração vazia e à pregação vaidosa ((I Cor. 2. 4-5).

Cada parte do culto deve ser entendida pelo cultuante; ele deve ser movido espiritualmente, não pela música ou pelo espetáculo.

O perigo do ambiente ritual é cair no formalismo e no esteticismo.

A igreja não pretende realizar cultos litúrgicos, mas a Ordem de Culto pode tornar-se rígida, previsível e irrelevante; a congregação já advinha quais os rumos da mensagem pastoral, quais hinos serão cantados, quais petições serão feitas. No decorrer dos anos, os membros da igreja aprendem quais são os momentos que facilitam a sua saída antecipada do templo ...

Considerando os cuidados no planejamento do culto, é possível que haja excessiva preocupação com os elementos artísticos da execução musical e da oratória pastoral. O ambiente ritual pode ser profanizado pelo uso de música erudita inadequada e de conceitos da cultura mundana.

O formalismo pode fazer com que os itens da Ordem de Culto sejam realizados mecanicamente, como que "para cumprir o programa". Até a celebração cronometrada dos batismos e da Ceia do Senhor padece da característica secular: a celeridade. Onde e quando isso acontece, não há reflexão apropriada.

Em certas igrejas (a de Rick Warren, por exemplo) não há intervalos entre as partes do culto; alegam que quando há pausas "os não-crentes já caíram no sono"; adotam a rápida seqüência das cenas que se observa nos programas de televisão. Embora, aparentemente, rejeite o formato litúrgico, esta prática de Rick Warren e de seus admiradores não deixa de ser um ritual "eletrônico".

Desde a década de 80, o ambiente ritual tem sido substituído.

(Publicado em "O Jornal Batista", 16 dez 2007, p. 14).

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Ambientes de Culto (III)

Roberto Torres Hollanda

Ambiente informal

Este ambiente, que substitui o formal, decorre, em grande parte, da voluntária informalidade dos atos de culto.

Desde o início da década de 80 nota-se no Brasil uma tendência à improvisação e informalidade no culto cristão, que tem contaminado o culto batista (ver: nosso livro "Culto – Celebração e Devoção". Rio de Janeiro: JUERP, 2007, pp. 39-40, 75-76).

Alguns crentes contemporâneos acham que a Ordem de Culto limita a ação do Espírito Santo. Por isso, o culto, para eles, deveria ser informal, improvisado, espontâneo e descontraído (op. cit., p. 38). Durante o culto, o assistente tem muitas ocasiões para expressão corporal; às vezes, para a prática da dança.

O culto regido pela liturgia, cada vez mais complexo, desenvolvido na mentalidade européia, tem certa dificuldade em competir com o culto informal, que caracteriza várias denominações e igrejas de cultura extra-européia. O ambiente litúrgico da Igreja Romana, apesar de muito comprometido com os ritos, disputa com o ambiente emocional de certas igrejas evangélicas a preferência dos fiéis (op. cit., p. 125).

As igrejas, especialmente as "carismáticas", que cultivam o ambiente emocional, cuidam da manipulação psicológica das platéias. Entretanto, as igrejas tradicionais e "ritualistas" também procuram causar impacto emocional sobre as suas congregações. Entre essas igrejas existem as que, por ocasião do louvor, comportam-se como igrejas contemporâneas (op. cit., p. 47). Os batismos, celebrados freqüentemente, despertam, pelo cenário dramático, muito mais curiosidade do público; a celebração da Ceia do Senhor tem menor importância; essas ordenanças são consideradas apêndices do culto (op. cit. , pp. 76, 144 e 149).

No ambiente emocional, os dirigentes procuram excitar as emoções do assistente do culto, conseguir um generalizado sentimento de satisfação e felicidade, e sugerir a presença de Deus na música e na coreografia (op. cit., p. 127).

O ambiente facilita o uso da pregação e da música para comover os corações; não é tão importante edificá-los no entendimento da pregação.

De acordo com o nível cultural da congregação, as bandas e as orquestras nas igrejas introduzem um elemento emocional no louvor, o que confirma a idéia de que a música é um objeto cultural; as bandas, para atender o gosto popular, as orquestras, o gosto erudito da congregação; ambas, desviam-se do padrão bíblico da música-de-culto; não há discernimento entre música-de-culto e música de entretenimento.

O "play-back" é usado com freqüência para acompanhar solos vocais, canto coral e canto congregacional gravados fora do Brasil; esta prática perniciosa revela que há um motivo mercantil que determina o seu uso, ou sucumbência à "lei do menor esforço". Quando um cantor ou conjunto vocal, depois de ter sido sempre acompanhado por um instrumentista, começa a usar "play-back" é sinal de que entrou numa fase de decadência artística.

Igrejas protestantes e evangélicas, no ambiente ritual ou no ambiente emocional, compartilham recursos mundanos, quando empregam o ritmo, a repetição dos cânticos e a expressão corporal.

Nas igrejas contemporâneas, artificialmente "avivadas", o culto é aberto de maneira a causar impacto sobre a congregação; a execução musical logo estimula a congregação, sob a liderança (ou comando?) de uma equipe, a participar de um longo período de louvor; o "louvorzão" é mais importante do que a mensagem pastoral (op. cit., pp. 47 e 112). O período serve para "aquecer" os corações dos assistentes (op. cit., p. 105). É oportuno lembrar que Jesus disse: "Ide e pregai"; não disse "Ide e cantai". Louvor é mais do que canto e música.

Nessas igrejas "avivadas", muitos jovens preferem o ambiente "emocional" porque se sentem desinibidos em relação à idéia "tradicional"de reverência: podem usar música e coreografia profanas, com o aval da liderança.

Em certas igrejas "carismáticas" à leitura e explicação expositiva da Palavra de Deus é concedido pouco tempo na Ordem de Culto; neste item o que ocorre é uma ampla arenga (sobre dificuldade financeira e prosperidade, doenças e curas, conflitos nos relacionamentos e recursos psicológicos, intranqüilidade e bênção) para satisfazer as emoções primárias dos ouvintes. Mas culto não é oportunidade para catarse individual e êxtase coletivo (op. cit., pp. 39 e 40). Por sua vez, a congregação tem poucas oportunidades para leitura da Bíblia (op. cit., p.89).

Nas igrejas maiores, tradicionais ou contemporâneas, às vezes são oferecidos mega-espetáculos musicados, com os mais avançados equipamentos de som e imagem, quando são repetidos à exaustão, mesmo sem meditação, estribilhos pouco relacionados à doutrina da igreja, como se fossem "mantras" (op. cit., p. 89).

Num passado recente, as igrejas "avivadas" e "carismáticas" davam pouca importância à formação de teólogos e músicos. Isto explica a informalidade de seus cultos. Faltou-lhes o aprendizado e a experiência da teologia do culto. Nas igrejas tradicionais a desorganização de seus cultos decorreu da pouca atenção dada pelas instituições teológicas e musicais (op. cit., p.35).

O perigo do ambiente emocional é cair no misticismo; a música e o canto podem levar uma congregação tradicional a um ambiente místico, de êxtase.

(Publicado em "O Jornal Batista", 13 jan 2008, p. 6).

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Ambientes de Cultos (IV)

Roberto Torres Hollanda

"Initium sapientiae timor Domini" (Psalmus 111. 10)

Profanação do ambiente

Com reverência, o homem evita agir como se fosse Deus; é uma virtude esquecida nos templos em nossos dias. Alguns templos são respeitados depois que se tornam ruínas históricas.

Lamentavelmente, o ambiente do culto, seja ritual-formal ou emocional-informal, pode ser profanado, pela falta de reverência e temor a Deus.

Profanação é o ato ou efeito de profanar; é trazer para dentro do templo palavras, atitudes, gestos, pensamentos e conceitos mundanos; é tratar com irreverência a Bíblia e o hinário; é fazer mau uso de objetos e equipamentos localilizados no templo; é dar aplicação profana às atividades no templo; é tratar com vulgaridade ou displicência as oportunidades de participação no culto; é trajar-se inconvenientemente no salão de culto.

Em nosso livro "Culto – Celebração e Devoção" (Rio de Janeiro: JUERP, 2007) fazemos várias advertências contra a profanação do ambiente.

O que ouvimos, lemos ou vemos durante o culto poderá definir se o ambiente é sagrado ou profano.

As partes faladas (comunicações, saudações e orações) são ocasiões em que os participantes do culto devem ter o máximo cuidado com suas palavras.

As comunicações devem ser objetivas, pois falar em demasia é consumir tempo precioso que deve ser dedicado à adoração particular e ao louvor coletivo. As saudações devem ter como modelo as consignadas nas epístolas apostólicas; as dirigidas aos visitantes devem ser cortezes, evitando demonstrações ruídosas e exaltadas, para não prejudicar a solenidade, nas igrejas formais, e a reverência, nas informais (op. cit., pp. 162 e 163). As orações públicas não devem ser discursos bem formulados, feitos para serem ouvidos pelos homens, e repetitivos, porque não é pelo muito falar que seremos ouvidos por Deus (op. cit., pp. 90-92).

O pregador deve abster-se de gracejos, anedotas, alusão a programas profanos de rádio e televisão, a competições esportivas, ou referência a celebridades do mundo artístico e político.

O culto não é momento para distração e entretenimento. Desde a convocação ao templo, o crente deve comportar-se bem no culto, observando a disciplina, a reverência e a cooperação (op. cit., pp. 70-71 e 73-74).

Nas outras partes musicadas (op. cit., pp.70-72) é bem maior a possibilidade de ocorrerem atos profanos; é oportuno ressaltar que o culto é do interesse da igreja, não de um grupo de artistas.

O maior antídoto contra as manifestações de profanidade é a leitura da Palavra de Deus (op. cit., pp.70 e 137-140). Na Bíblia aprendemos que prestamos culto a Deus quando reconhecemos que somos ignorantes e quando somos gratos pelo que Ele tem feito em nossas vidas.

O poeta John Milton (1608-1674) escreveu que a gratidão permitenos "encontrar epifanias todos os dias, aqueles momentos transcedentes de respeito que mudam para sempre a maneira como experimentamos a vida e o mundo".

Para o cientista Robert Millikan (1868-1953), "a plenitude do conhecimento sempre significa algum entendimento da profundidade de nossa ignorância; isto sempre nos conduz à humildade e reverência".

Até o início deste século XXI, nas igrejas tradicionais ou contemporâneas o cultuante tinha apenas o que ler e o que ouvir. Atualmente, ele tem, no ambiente ritual-formal ou no ambiente emocional-informal, o que ver: entraram no templo a dança coreografada e a encenação teatral; esta, em algumas igrejas, pode transformar-se em espetáculo circense.

Parece que, em algumas igrejas, o objetivo principal do "culto" (esta palavra e sua significação vem sendo banalizada) é entreter a platéia.

Nunca o mundo esteve tão religioso, e as igrejas tão mundanas; muitas não fazem distinção entre culto e "show"; quando assim procedem, elas usam o "fermento de Herodes" (Mar. 8. 15); entendemos esse dito de Jesus como referência a uma das fontes de corrupção doutrinária. Deus reprova o ambiente profanado: "Adorai ao Senhor vestidos de trajes santos" (Sal. 96. 9ͺ); "faça-se tudo decentemente e com ordem" (I Cor. 14. 40).

A Bíblia ensina que ao Filho de Deus devemos reverência e temor (Heb. 12. 28), mas, em nossos dias, o próprio Deus não é mais temido e reverenciado, inclusive por pessoas que professam a fé cristã. Elas acham que Deus não se importa como O adoram; elas decidem como querem adorá-Lo. Na verdade, para o crente o culto não é opcional; é o cumprimento de um mandamento divino.

A Palavra e a Presença de Deus não são mais desejadas no templo, que é procurado por certos crentes em busca de canto, música, teatro e dança.

Se o culto é substituído pelo entretenimento, é dispensável a reverência. Por isso, a reverência não é atitude importante e necessária durante o culto em certas igrejas.

Estejamos alertas contra a profanação do ambiente do culto em nossas igrejas.

(Publicado em "O Jornal Batista", 10 fev 2008, p. 14).

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Batistas no Ambiente da Copa

Roberto Torres Hollanda

No dia 30 de outubro, a FIFA escolheu o Brasil como país-sede da Copa Mundial de Futebol em 2014. Como disse o presidente da FIFA, "a Copa do Mundo transcende o aspecto meramente esportivo".

A expectativa mais otimista é que em um mês 500 mil turistas acorram às cidades onde acontecerão os jogos.

Calcula-se que o Mundial de Futebol no Brasil consumirá mais de 5 bilhões de dólares (mais de 10 bilhões de reais).

Em Brasília, a adaptação do Estádio "Mané Garrincha", próximo à Torre de Televisão, para a abertura do campeonato, custará mais de 350 milhões de reais (ver: revista "VEJA", 31 out 07).

Certamente, o ambiente dos cultos nas igrejas será afetado (ou contaminado?) pelo ambiente dos jogos nos estádios.

Está cada vez mais freqüente que os pregadores em suas mensagens façam alusões às competições esportivas (ver: Roberto Torres Hollanda, "Culto – Celebração e Devoção". Rio de Janeiro: JUERP, 2007, p. 73). Decorrente dessa prática, está cada vez mais comum crentes deixarem os cultos dominicais para irem aos estádios (op.cit., pp. 150-152). É possível prever que em 2014 as comunicações dos líderes no início dos cultos e as conversas dos liderados nas igrejas girem em torno da Copa de Futebol.

Sete anos antes, alguns crentes no mundo já estão alvoroçados pela Copa de 2014; estes não são os que "transtornaram" o mundo nos primórdios da Igreja (Atos 17. 6).

Vejamos o lado positivo da competição que atrairá milhares de pessoas de todos os continentes para "o país do futebol".

Em primeiro lugar, "Atletas de Cristo", do meu amigo esportista Alex Dias Ribeiro (foi menino e adolescente na Igreja Memorial Batista), terá papel importantíssimo antes, durante e depois dos jogos na criação de um clima religioso nos bastidores da Copa. Ao mesmo tempo, o setor de evangelismo esportivo da Junta de Missões Mundiais poderá trazer ao Brasil seus missionários que atuam na área esportiva.

Para evangelizar os torcedores nacionais, e os estrangeiros curiosos em conhecer o folclore brasileiro, a Junta de Missões Nacionais poderá convocar os dançarinos nordestinos que, numa assembléia, em janeiro de 1996, para entreter os convencionais, apresentaram o espetáculo musicado "Jesus sertanejo" (ver: O Jornal Batista, 29 dez 96, p. 8). Não será necessário que os crentes que cultivam nas igrejas o chorinho, o samba e a "bossa-nova" se apresentem aos turistas estrangeiros, porque esses ritmos da música profana popular são bem divulgados no exterior. Mas a ação evangelizadora atípica necessitará de milhares de crentes poliglotas que, dentro dos estádios, conversarão com milhares de estrangeiros; dentro dos templos, eles também serão úteis ao esforço evangelístico.

Não sabemos se evangelistas de renome internacional atrairiam torcedores de futebol. Quase sempre, o testemunho é tão importante quanto o discurso. É muito possível que as igrejas carismáticas usem a TV para os evangelistas.

Que dizer do papel reservado aos cantores e instrumentistas!

Poderão ser agendados concertos musicais nos templos e nas salasde-concerto, com a execução de música erudita religiosa ou de música evangélica, como aconteceu nas Copas nos EUA (1994) e na Alemanha (2006). Que tal convidar o consagrado pianista e organista Edson Elias (foi menino e adolescente na Primeira Igreja Batista do Rio de Janeiro), há muito tempo radicado na Europa, para recitais nas capitais estaduais, dirigidos aos torcedores mais cultos?

Sempre haverá a possibilidade de torcedores crentes procurarem as igrejas; então recepcionistas e introdutores terão oportunidade de recebê-los carinhosa e fraternalmente, falando as línguas deles.

Para os adolescentes e jovens, especialmente os estrangeiros, nos intervalos entre os jogos da Copa, os ministérios especializados das igrejas poderão preparar partidas amistosas, nas várias modalidades, nas dependências esportivas de seus templos.

Para os idosos, e as mulheres separadamente, as igrejas organizariam reuniões de confraternização em seus templos ou em pontos turísticos das cidades.

É possível que venham torcedores com vários tipos de deficiência física e auditiva; sejam crentes ou não, poderão ser ajudados pelas igrejas.

Os serviços de assistência médica e apoio psicológico das igrejas talvez sejam acionados em casos de emergência, dentro e fora dos templos.

Estas foram as primeiras idéias que nos ocorreram no mesmo dia em que o Brasil foi escolhido para sediar a Copa de 2014.

Se pudermos, na ocasião de sua realização, ofereceremos outras sugestões ...

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(Publicado em "O Jornal Batista", 23 mar 2008).

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Doc.JB-736

Carta aos Noivos

(Artigo dedicado à leitora Rosângela Tinoco de Oliveira Brum, e Itaperuna, RJ)

Brasília, DF.
1Ί. de fevereiro de 2009.

No gentil convite para a cerimônia religiosa do casamento de vocês há uma consulta. Pela antecedência, posso imaginar que vocês estão cuidando com muito carinho dos detalhes do importante acontecimento. Vocês submetem à minha apreciação o repertório das músicas que serão executadas na cerimônia nupcial; fiquei lisonjeado pela consulta, feita em duas perguntas.

Em geral, os noivos, depois de concluídos os preparativos de ordem social e material (marcação de data e horário, seleção do templo e do celebrante, expedição dos convites, escolha de "padrinhos", contratação do bufê etc.), quando se aproxima o mês da realização do casamento religioso, começam a pensar na música que será executada; às vezes, a parte musical é improvisada, nem chega a ser comunicada ao ministro de música e ao pastor da igreja.

Para nós, mais idosos, as escolhas serão desafiadoras, pois, na atualidade, existem milhares de músicas levianamente oferecidas aos noivos.

Na cerimônia nupcial há, pelo menos, cinco etapas: 1) entrada do noivo e "padrinhos"; 2) entrada da noiva; 3) sermão e bênção; 4) cumprimentos; 5) saída dos noivos.

Vocês apresentam a primeira pergunta: que tipo de música deve abrir e fechar a cerimônia?

Na entrada do noivo, as cordas tocam "Jesus, alegria dos homens" (Bach). Para a entrada da noiva, a pompa fica por conta do trompete (Stanley, Purcell e Clarke), dos oboés (Haendel) e dos instrumentos de cordas (Charpentier); na saída dos noivos, do órgão (Elgar e Widor). A contratação de instrumentistas competentes evidentemente implicará no aumento das despesas. Se vocês (ou seus pais) têm condições financeiras, contratem músicos, não "disc jockeys".

Para a entrada da noiva, recomendamos "voluntários" (Stanley, Purcell e Clarke), "sinfonia" do oratório "Salomão" (Haendel) e prelúdio do "Te Deum" (Charpentier).

Antes e depois do sermão pastoral, hinos congregacionais de S. S. Wesley (TH-525, HCC-504), Purcell ("The Hymnal"-518), Routley (TH-402), Nicholson (TH-694) e Williams (TH-524); Manuel Avelino de Souza (CC-567) e Marcílio de Oliveira Filho (HCC-595). Escolhemos cinco hinos ingleses, porque não conhecemos outros que sejam tão majestosos, e dois brasileiros, para prestigiar a hinodia nacional.

O hino de Manoel Avelino, dedicado a uma Noiva (Esther Silva Dias, 1900-1981, que foi presidente das Senhoras Batistas do Brasil, 1935-1958), celebra as núpcias assim: "Mais um lar que se faz cheio do vigor do caráter cristão, base principal duma vida feliz numa união de amor, que abençoa e mantém a paz conjugal" (ver: OJB, 04 jan 1923, p. 8). Esse hino deveria ser o preferido das noivas.

Se a igreja tiver um bom coro, trechos do oratório "Sansão" (Haendel), da cantata BWV-147 (Bach), do moteto "Exsultate, jubilate" (Mozart) e do antema "It was glad" (Parry). São mais acessíveis (fáceis de encontrar no mercado musical) e dignos dos coros que executam música de melhor nível técnico, o "Pai nosso" (Malotte) e os "Aleluias" (Randall Thompson e Ralph Manuel). Somente os que podem executar essas obras corais atingiram o nível da excelência.

O que mais nos entristece, por ocasião da cerimônia nupcial, é ou vir marchas de Mendelssohn ("Sonho de uma noite de verão"), Wagner ("Lohengrin" e Verdi ("Aida); a "Meditação" da "Thais" (Massenet) ou o trecho coral da Nona Sinfonia (Beethoven); o que mais nos envergonha num templo batista, é ouvir canções da música popular.

A segunda pergunta: que músicas devemos proscrever?

Antes ou depois do sermão, o "Aleluia" (Haendel ou Fauré), a "Ária na quarta corda" (Bach), as "Bachianas Brasileiras", nos. 4 e 5 (Villa-Lobos), o "Bolero" (Ravel), os concertos (Rachmaninov e Tschaikowsky), o "Coro dos Peregrinos" (Wagner), a "Humoresque" (Dvorak), "Nos jardins de um mosteiro" (Ketelbey), "Reverie" (Schumann), e muitas outras inadequadas.

Por ocasião da bênção, a "Ave Maria" (Schubert ou Gounod).

Na saída dos noivos, o "Noturno" (Chopin) ou a marcha "Pompa e Circunstância" (Elgar).

Em qualquer momento da cerimônia, músicas dos filmes de Walt Disney ou das óperas de Lloyd Webber, canções de Mariah Carey e Andrea Bocelli, embora indicadas aos noivos pelas firmas promotoras de eventos, impropriamente chamadas de "empresas do cerimonial".

Com a sinceridade característica de jovens crentes, vocês confessam gostar da "bossa nova" e ser admiradores de Vinicius de Moraes ("Eu sei que vou te amar", "Se todas fossem iguais a você" ) e Antônio Carlos Jobim ("Querida", "Felicidade") , de Marisa Monte ("Rosa") e outros compositores da música popular. Eu também os admiro, mas, de maneira nenhuma, não aprovo sua execução no templo durante a cerimônia nupcial.

Canções profanas não devem substituir os hinos sacros; elas devem ser expurgadas da cerimônia; mas podem ser executadas, fora do templo, na recepção festiva aos convidados. Mesmo profanas, há músicas adequadas à ocasião.

Em nossos templos só deve ser executada música religiosa, isto é, música apropriada ao culto divino. O templo é consagrado à adoração, não é lugar para entretenimento dos olhos e dos ouvidos. Algumas vezes, por culpa da má escolha feita pelos noivos ou pelos dirigentes, há confusão de estilos. Muitos crentes não são capazes de discernir as melodias, de cunho sacro ou profano, por isso estão admitindo e tolerando os abusos cometidos ousadamente por empresas.

Para a palavra final, mostrem esta carta ao ministro de música e ao pastor de sua igreja.

Espero ter respondido às duas indagações dos queridos nubentes; que as músicas executadas na cerimônia do casamento de vocês jamais sejam esquecidas e sempre tragam boas lembranças.

Sinceramente, Rolando de Nassáu.

(Publicado em "O Jornal Batista", 01 fev 09, p. 4).

PS – O artigo no. 734, "MP na EBD", foi dedicado ao prezado Ir. Sérgio Marques Garcia. R. de N.

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