NASSAU'S OPTICS ON TOPICS


Personalidades


Música – Nº. 295

João Soren, pastor e musicista

Rolando de Nassáu

Em João Soren vemos não somente o venerando pastor da Primeira Igreja Batista do Rio, que em 1º. de janeiro de 1985 completa 50 anos de ministério à frente dessa grei; o líder invulgar que exerceu os mais importantes cargos denominacionais e solucionou as mais graves crises em nossa Denominação; o respeitável catedrático no seminário batista no Rio de Janeiro (1946-1978), onde foi magnânimo reitor (1969-1971); o notável orador sacro, cuja voz autorizada (nunca autoritária) e melíflua (jamais pusilânime) foi ouvida nos congressos da Aliança Batista em Londres (1955) e Tóquio (1970), o que dá a medida de sua envergadura nativa e de seu alcance mundial, e que, no dizer de Ebenézer Soares Ferreira, "é o Spurgeon ... é a eloquência elegante ... é o primor pela postura e a graciosidade no manejo do vernáculo"; é, acrescentamos, um pregador atualizado, sem socorrer-se do jargão, e compacto, cuja linguagem simples e diáfana consegue revelar profundos conceitos teológicos; o intelectual polivalente que trabalhou como vernaculista na revisão da Bíblia, pertence à Academia Brasileira Evangélica de Letras e foi agraciado com títulos universitários pelo "Georgetown" (1955) e "William Jewell" (1960); o heróico capelão que acompanhou e assistiu a Força Expedicionária Brasileira nos campos da Itália durante o final da Segunda Guerra Mundial (1944-1945), tendo sido condecorado com a "Cruz de Combate", pelo exército brasileiro, e a "Silver Star", pelo americano; o cidadão exemplar que participa do Conselho de Diretores do Hospital Evangélico e foi honrado pelas assembléias legislativas dos estados da Guanabara (1974) e do Rio de Janeiro (1973) e pelo governo da Libéria (1971).

Em João Soren vemos também o musicista multiface; não é uma estrela solitária, mas em torno dele gravitam muitos batistas com dons musicais. Nos últimos 50 anos, muitos músicos receberam, dentro e fora da Primeira Igreja, o incentivo, a orientação e a influência do pastor Soren.

Minha saudosa mãe, Frederica Torres, contava-me que o jovem João Soren era exímio violinista; juntamente com Oswaldo Ronis, Frederico Vitols, Alexandre Klavin e Martinho Janson, no início da década de 30, quando a Primeira Igreja tinha menos de 500 membros, Soren com o seu violino acompanhava o canto congregacional. Assumindo o pastorado, sempre apreciou e conferiu a devida importância à música instrumental. Lembramo-nos de que, em 1958, o jovem violinista Hélio Dias Ribeiro foi incentivado a tocar o "Adágio" de uma sonata de Haendel, e, no Natal de 1974, uma cantata teve o acompanhamento de flautas, violinos, violoncelos, fagote, clarineta, trompa e oboé. O pastor Soren recentemente apoiou a formação do conjunto instrumental "Aulos", dirigido pelo seu neto Amaru, que conta com uma vintena de músicos (flautas-doces, trompa, instrumentos de cordas e de percussão) para a execução de obras eruditas (Byrd, Scheidt, Caldara, Telemann, Haendel, Mendelssohn, Reger e outros).

Mas tem sido o órgão o instrumento que melhor tem contribuído para a divulgação da música sacra erudita: peças de Bach, Haendel, Vivaldi, Praetorius, Pasquini, Corelli, Daquin. Mozart, Mendelssohn, Gounod, Brahms, Reger, Saint-Saens, Widor, Guilmant, Vierne e Dubois são comumente executadas na Primeira Igreja pelos organistas Nicéa Miranda Soren, Betty Antunes de Oliveira, Marília Soren Sosa, Leuzí Soares Figueira, Dirajáia Soren, Frederico Egger, Edson Lopes Elias, Domitila Ballesteros, Sérgio Presgrave, Eliane Carlita de Andrade e Amaru Sosa Soren.

O "Hammond" foi inventado em 1935, e já em 1940 o Pastor Soren substituía o harmônio (que em pouco tempo seria abafado pelo murmúrio da congregação e pelo barulho dos bondes que trafegavam diante do templo) pelo órgão eletromagnético importado.

Soren também gostava do bel canto, que era praticado em saraus de fim-de-semana, no Salão "F.F.Soren", promovidos pelo Departamento Artístico e Cultural da Assembléia das Uniões de Treinamento: a soprano Eunice Lima e o tenor Evandro Azevedo cantavam trechos de óperas de Verdi e de Puccini, acompanhados pela pianista Marília Soren, que, por sua vez, como meio-soprano, interpretava árias de Cimarosa, Haendel, Gluck, Saint-Saens e Verdi.

De nossa parte, apreciávamos a soprano Gláucia Simas Campelo na execução de trechos de "O Filho Pródigo", de Debussy, e da "Paixão, segundo São Mateus", de Bach.

Em 1957 Soren patrocinou, para comemorar o quinto aniversário da Associação Coral Evangélica do Rio de Janeiro, uma Noite de Arte, com a participação dos mais destacados artistas evangélicos da antiga Capital Federal, liderados por Levino Alcântara e Heitor Argolo.

Naquela época, além da ACE brilhava no cenário artístico evangélico carioca o Coral Excelsior, que, ainda no salão social da Primeira Igreja, apresentou uma audição de música folclórica, sob a regência de Guilherme Loureiro.

Desse compositor, no santuário da Igreja, em outubro de 1953, foi apresentada a ópera sacra "Jerusalém, a Canaan Celeste", tendo atuado o baixo Luiz Nascimento, a soprano Alaíde de Andrade, o tenor Evandro Azevedo, a soprano Olívia Magalhães, a ensaiadora Eudora Pitrowsky Salles e a organista Dirajáia Soren (ver: "O Crisol", dez 53, e "O Jornal Batista", 25 fev 54).

Em abril de 1955 Soren foi o narrador de uma audição de música sacra erudita (trechos de obras de Bach, Haendel, Francisco Martins e Mozart) para comemorar a paixão, morte e ressurreição de Jesus, apresentada pela soprano Gláucia Simas, contralto Marília Soren, tenor Edson Salles, baixos Eliézer Gomes e Daniel Pinheiro, acompanhados pela organista Dirajáia Soren e regidos por Heitor Argolo.

Cremos que a mais importante iniciativa de João Soren para o aprimoramento do canto coral sacro foi a única apresentação no Rio de Janeiro, em setembro de 1955, do célebre "Thomanerchor" (coro infanto-juvenil da igreja de São Tomás, em Leipzig, que foi dirigido durante 27 anos por Bach), que interpretou, além de peças de Bruckner, Reger, David e Kodály, o moteto "Jesus, minha alegria", de Bach, sob a regência de Gunther Ramin. Essa audição deve ter inspirado a Dorivil de Souza a criação de um coro infanto-juvenil que pudesse cantar obras de alto nível.

Memoráveis foram as audições do Coro da Igreja realizadas em 30 de outubro de 1955, 30 de junho de 1957, 26 de dezembro de 1965 e 24 de dezembro de 1972, comentadas nestas colunas. Atualmente, na Primeira Igreja apresentam-se, sob os cuidados do pastor Soren, os seguintes coros: "Eclésia" (misto), "Nicéa Soren" (jovens), "Dominus" (masculino), "Hosana" (feminino) e "Coreutas" (falado).

Além de músico e incentivador de músicos, João Soren cultiva o canto congregacional; hinógrafo inspirado, é autor de oito hinos: "No caminho do Senhor", "A mão que me conduz", "Com Jesus", "Cristo maravilhoso", "Fala e não te cales", "Ó povo, vede a luz", "O monte do Senhor" e "Olhando para Cristo"; os dois últimos com música de C.Austin Miles.

Em menos de dez anos, o hino nº. 579 tornou-se indispensável nas comemorações do "Dia do Pastor Batista".

Como musicista, Soren tem todos os pastores ao seu lado. Como pastor, tem a gratidão de todos os músicos batistas!

(Publicado em "O Jornal Batista", de 06 de janeiro de 1985, pp.02 e 10).

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Música – Nº. 666

Evangélicos no proscênio (I)

Rolando de Nassáu

Já relacionamos os músicos evangélicos que alcançaram posição no proscênio da vida musical brasileira. Esses músicos não somente se destacaram no meio evangélico, mas, por sua competência profissional, foram reconhecidos no ambiente profano. Nessa relação, constaram Sarah Poulton Kalley, Henry Maxwell Wright, João Gomes da Rocha, Salomão Luiz Ginsburg, Canuto Roque Régis, Henriqueta Rosa Fernandes Braga, Albert Willard Ream, Edino Krieger, Zuínglio Martinho Faustini, Nélson Ned e Roberto Minczuk (ver: "O Jornal Batista", 19 jul 99, p.10).

Na "Agenda" de nossa página (http://www.abordo.com.br/nassau/) temos freqüentemente focalizado evangélicos de uma nova geração; eles estão ombreando com os melhores músicos no cenário brasileiro.

Os músicos evangélicos no proscênio são os seguintes:

Ângelo Dell Orto (batista) – mestre em violino (classe de Michel Bessler) pela Escola de Música da UFRJ, fez parte do quadro de solistas da Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Membro fundador do Quinteto "Opus 5", realizou turnês por vários países europeus. Sob a regência de Isaac Karabtchevsky, tocou como solista à frente da Orquestra Sinfônica Brasileira. Participa dos conjuntos instrumentais "Quarteto "Guanabara", "Sinfonietta Rio" e "Trio Querubim". Como acompanhista, tocou no concerto do Coral "Eclésia" (ver: OJB, 19 ago 2002, p.4). Freqüentemente, atua nos cultos dominicais da Primeira Igreja Batista do Rio de Janeiro (ver: "Nassáu – Dicionário de Música Evangélica", p.66).

Dorotéa Kerr (presbiteriana independente) – mestre em órgão pela Escola de Música da UFRJ e doutora em órgão na universidade de Índiana (EUA). Além de organista, é professora e regente coral em São Paulo. Sócia fundadora e várias vezes dirigente da Associação Brasileira de Organistas (ABO) e da Associação Paulista de Organistas (APO). Foi professora (1990-1994) na Universidade de Campinas (UNICAMP); atualmente, leciona na Universidade do Estado de São Paulo (UNESP). É regente dos coros da Catedral Evangélica de São Paulo. Em 2000, produziu um CD, considerado "a gravação do século" (ver: OJB, 12 mar 2001, p.7). Foi organista do Teatro Municipal de São Paulo e a primeira organista brasileira a tocar (1996, 1997 e 1999) no Vaticano. Tem realizado recitais no Brasil e no exterior (EUA, Alemanha e Itália).(ver: "Nassau", p.102).

Elza Lakschevitz (batista) – atualmente, é regente do Coro Infantil do Rio de Janeiro e do conjunto vocal "Canto em Canto". Tem atuado como regente, professora, palestrante e jurada em cursos, congressos e concursos no Brasil e no exterior (ver: "Nassau", p.105).

Emílio de César (presbiteriano independente) – estudou regência, composição e canto (1975-1978) na Universidade de Brasília e aperfeiçoou-se (1979-1981) no "Robert Schumann Institut", em Dusseldorf (Alemanha), com Hans Kast. Foi regente titular da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional de Brasília (1982-1985), Orquestra Sinfônica de Minas Gerais (1989-1990) e da Orquestra Filarmônica de Goiás (1992-1994), além da Orquestra Sinfônica de Brasília. Tem regido várias orquestras no Brasil (São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Rio Grande do Sul, Paraná) e no exterior (Dusseldorf, Alemanha; Córdoba, Argentina; Assunção, Paraguai; San José, Costa Rica; Sheboygan, Wisconsin, EUA; Viana do Castelo, Portugal; Ilha da Madeira). Foi regente titular do Madrigal de Brasília e do Coro da Igreja Presbiteriana Independente Central de Brasília, dos coros do CEUB e da UnB; regente convidado do Coral "Brasília", dos coros de Annapolis e Wyoming (EUA). Atualmente, é regente titular da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais e do Coral Evangélico de Brasília, e presidente da Associação Brasileira de Regentes de Coros. (ver: "Nassau", pp. 47 e 48).

(continua)

PS – No concerto coral-orquestral de encerramento do ano letivo do STBSB, foi dito que o rei George II, em 1741, em Dublin, teria ficado de pé, comovido com a execução do "Aleluia". Corrigimos a informação: a estréia do "Messias" não aconteceu em 1741; George II não assistiu a estréia, em 1742; o rei não esteve presente à execução em Londres, em 1743; no concerto de 1750, provavelmente esteve presente; talvez nessa ocasião, o rei teria ficado de pé, prontamente imitado pelos áulicos; o alemão que reinava sobre a Inglaterra estava apenas homenageando seu conterrâneo Haendel, ou entendeu que "King of Kings" era uma referência ao seu reinado ... (ver: OJB, 22 abr 84, 31 mar 85 e 28 abr 85).

(Publicado em "O Jornal Batista", 06 abr 2003, p. 4).

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Música – Nº. 667

Evangélicos no proscênio (II)

Rolando de Nassáu

Fábio Soren Presgrave (batista) – estudou violoncelo na UNI-RIO (classes de Fernando Bru e Alceu Reis), com H. Shapiro, E. Becker, T. Appel e J. Krosnick, e na "Juilliard School of Music" (classe de A. Alton), em New York, NY (EUA). Conquistou primeiros prêmios no Concurso Nacional de Música, em Juiz de Fora (MG), o "Eleanor Slatkin Award" e a "Stonek Scholarship". Já se apresentou com as orquestras sinfônicas Brasileira e a do Estado de São Paulo; nos EUA, com a "Harrisburg Symphony", a "Manhattan Virtuose", a "Juilliard Orchestra" e o "Ensemble America", em importantes salas-de-concerto ("Carnegie Hall", "Merkin Hall" e "Alice Tully Hall"). Participou das turnês internacionais do "Rio Cello Ensemble" e dos festivais de Lake Placid (EUA) e Campos (RJ).

Atualmente, leciona em New York, NY (EUA) e trabalha como assistente de Ardyth Alton na "Juilliard School" (ver: "Nassau", p.143).

Inês Rufino (presbiteriana) – estudou piano (classe de Esther Naiberger) na Escola de Música da UFRJ. Conquistou vários prêmios em concursos nacionais de piano. Atuou como solista das orquestras sinfônicas da UFRJ e da UFF, Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, Orquestra de Câmara da Rádio "MEC" e Orquestra da "Pró-Música", de Juiz de Fora (MG). Foi pianista-ensaiadora do Teatro Municipal do Rio de Janeiro (1988-1998) e professora-assistente de piano na Escola de Música da UFRJ. É acompanhista do Coro da Sociedade de Cultura Musical e da Igreja Presbiteriana de Botafogo (Rio de Janeiro, RJ).

Israel Menezes (Igreja Evangélica Brasileira, no Rio de Janeiro, RJ) – graduou-se em composição e regência na Escola de Música da UFRJ (1974-1980), onde obteve o mestrado (1989), tendo como professores Carlos Eduardo Prates, Cleofe Pérson de Mattos, Lutero Rodrigues e Roberto Duarte. Aperfeiçoou-se na Inglaterra com N. Long e A. Charity. Lecionou em diversos conservatórios. É professor de musicalização, práticas instrumentais, linguagem musical e acompanhamento na E. M. da UFRJ, e de regência no Curso do STBSB. Em 1986, fundou a "Orquestra Rio Camerata"; em 1998, a Academia de Música Antiga. Tem regido orquestras no Brasil e no exterior (Cairo, Egito; Munique, Alemanha; Surrey, Inglaterra; Yerevan, Armênia; Paris, França). É membro titular da Academia Nacional de Música.

Júlio Amstalden (metodista) – estudou órgão (classe de Elisa Freixo) na Escola de Música "Ernst Mahle", em Piracicaba (SP) e fez mestrado (classe de Dorotéa Kerr) na UNESP, tendo aulas de interpretação com G. Bovet, L. Tagliavini, R. Anderson, E. Lebrun e A. Isoir. Atualmente, é organista e regente coral da UNIMEP e professor da Faculdade "Alcântara Machado".

Naomi Munakata – filha do Rev.Motoi Munakata, pastor da Igreja Cristã Unida do Japão, durante muitos anos participou da Orquestra Jovem Municipal, sob a regência de Samuel Kerr. Formou-se em composição e regência noInstituto Musical de São Paulo (classe de Roberto Schnorrenberg). Em 1986, recebeu do governo japonês bolsa-de-estudos na universidade de Tóquio. Estudou regência no Brasil com Eleazar de Carvalho, Hugh Ross, John Neschling e Hans Koellreuter, e no exterior, com J. Poole, C. Rottvell e E. Ericson. Foi regente-assistente do Coral Paulistano e lecionou na Faculdade "Santa Marcelina". Atualmente, leciona na Faculdade "Alcântara Machado" e na Escola Municipal de Música, além de reger o Coro da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo.

Nélson Silva (presbiteriano independente) – bacharel em órgão (classes de Elisa Freixo e Dorotéa Kerr) pela Faculdade "Santa Marcelina". Desde 1989, é organista da Catedral Evangélica de São Paulo. Em 1998, mestre em órgão (classe de E. Roan) no "Westminster Choir College", em Princeton, New Jersey (EUA). Foi organista de uma igreja presbiteriana na Pensilvânia (EUA) e da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo.

Priscila Bomfim (batista) – graduou-se em piano pela E.M.da UFRJ. Solista e camerista. Atualmente, é pianista do Teatro Municipal do Rio de Janeiro.

Regina Lacerda (batista) – bacharel e mestre em órgão pela E.M. da UFRJ, tendo curso de alta interpretação barroca com Gertrud Mersiovsky. Tem atuado em festivais e trabalhado nas escolas de música da UFRJ e da UNI-RIO. É organista da Associação Religiosa Israelita e da PIB-RJ (ver: "Nassau", p.105).

Suray Soren Doyle (batista) – estudou violino na E.M. da UFRJ e com Paulo Bosísio. Foi pioneira no Rio de Janeiro do "método Suzuki". Em 1985, representou o Brasil na Orquestra Mundial, regida por Carlo Maria Giulini. É violinista do Teatro Municipal do Rio de Janeiro (ver: "Nassau", p.163).

Que possam, com sua arte e seu testemunho de fé cristã, transmitir a melodia suave, "doçura para a alma e saúde para o corpo" ! (Provérbios 16:24).

(Publicado em "O Jornal Batista", 04 mai 2003, p. 4).

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Tributo a Marcílio de Oliveira Filho

Rolando de Nassáu

No século 20, cinco obreiros marcaram a música executada nas igrejas batistas no Brasil: Salomão Luiz Ginsburg, Ricardo Pitrowsky, Arthur Lakschevitz, Bill Ichter e Marcílio de Oliveira Filho.

Ginsburg compilou a primeira coletânea de letras de hinos para congregação; Pitrowsky editou a primeira edição musicada do "Cantor Cristão"; Lakschevitz elaborou a primeira grande coletânea de músicas para coro; Ichter editou obras corais, livros hinológicos e didáticos; Marcílio prestigiou e congregou os músicos batistas do Brasil.

Marcílio de Oliveira Filho (junho de 1947-setembro de 2005) fez os cursos de teologia (1966-1969) e de música (1970-1973) no Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil, no Rio de Janeiro (RJ); enquanto seminarista, trabalhou na PIB da Piedade e na PIB de Moça Bonita. Estudou canto com René Talba (1972-1973) e na Faculdade "Santa Marcelina", em São Paulo (SP). Cooperou com a PIB de Santos, SP (1974-1976). Lecionou música na Faculdade Teológica Batista de São Paulo (1977-1988). Foi pastor interino, no primeiro semestre de 1988, e ministro de música da Igreja Batista do Ipiranga, em São Paulo, SP (1988-1989); a partir de julho de 1988, foi diretor do curso de música da FTBSP; de janeiro de 1990 a setembro de 2005, ministro de música da PIB de Curitiba (PR). Fundou, em 15 de outubro de 1982, a Associação dos Músicos Batistas do Brasil., da qual foi presidente (1982-1988).

Marcílio é verbete em nosso "Nassau – Dicionário de Música Evangélica" (p.131) e em nosso site http://www.abordo.com.br/nassau/galeria.htm; a respeito dele escrevemos o artigo no. 466, "Um obreiro polivalente" (ver: "O Jornal Batista", 29 jul 90, p.2).

O articulista – era a faceta do talento de Marcílio que mais admirávamos; em muitas questões, comungávamos ideais e propósitos; dos artigos de Marcílio para OJB possuímos 119, recortados e arquivados, sendo: cinco, escritos como colaborador avulso em 1978, quando era professor na FTBSP, sobre hinodia contemporânea, tema que versou em alguns dos 27 anos de sua atuação jornalística; 68, assinados, entre 1983 e 1988, como presidente da AMBB; e 46, entre dezembro de 1989 e agosto de 2005, publicados em sua coluna "Notas fora da pauta".

Dono de um estilo singelo, fluente e fagueiro, deu títulos esquisitos a alguns de seus escritos: "Filho de peixe", "Capote - um prato bem brasileiro", "Mulher rendeira", "Vitórias na terra da moqueca", "OXO", "Um pedacinho do Céu", "Quíntuplos", "Inverno quente", "Quem diria?", "Esqueceram a receita do cuscuz" ...

Marcílio prestigiou também cantores e músicos evangélicos, mas não teve tempo para congregá-los; começamos a relacioná-los, mas desistimos porque a lista seria muito extensa.

Um dos temas recorrentes nos artigos "ideológicos" de Marcílio era a programação musical das assembléias convencionais; ele pregava que a assembléia deveria ser "um lugar de comunhão" ("Será que não é tempo de diminuir os debates no plenário?"); "um lugar de adoração" ("Esta precisa ser a tônica de nossas festas convencionais"); "um lugar para testemunho" ("As últimas assembléias convencionais estão se caracterizando como plataformas políticas. Governadores, prefeitos e senadores estão invadindo nossos plenários ... (...) Esses políticos usam de nosso tempo, abusam de nossa hospitalidade".

Depois de visitar os seminários do Rio de Janeiro e de Recife, Marcílio notou que "os cursos de Música Sacra continuam produzindo uma geração de músicos "elitistas". (...) Os compositores brasileiros não estão sendo prestigiados nos repertórios corais e de solos". Ao assumir a presidência da AMBB, declarou: "Precisamos sentir o problema do músico que serve a Deus, ... mas que não perde, por ser crente, sua característica de músico".

Escapando de sua natural tendência à benevolência, Marcílio poucas vezes exerceu a crítica musical ou comportamental; raras vezes participou de polêmicas. Alguns leitores ficarão surpresos com a admoestação feita em 1983: "É importante que nossos jovens estudem mais o instrumento (o violão), para sairmos da pobreza que a maioria demonstra". No artigo "Não deixe a música falir", lembrou que em 1986 à CBB tinha sido sugerida a criação de uma Superintendência de Música na estrutura da JUERP, e, melancólico, chegou à conclusão: "mas se persistir o quadro atual, há o perigo de a música falir no programa de Educação Religiosa".

Um dos mais cativantes foi o artigo "O Canto da Amazônia", no qual relatou a visita a Valdemar Henrique (1905-1995), confessando: "o maior momento que Zelda e eu tivemos em Belém foi conhecer Valdemar Henrique".

Comentando, em 1988, a situação do mercado fonográfico no Brasil, observou: "Os Batistas não temos atendido convenientemente esta área, e precisamos nos alertar para isto. Estamos perdendo terreno para muitos outros neste campo. (...) nem toda música gravada é apropriada para os cultos. (...) Corre-se o risco de querer incorporar às nossas práticas eclesiásticas o que ouvimos pelos veículos de comunicação".

Em 1991, num desabafo, Marcílio escreveu: "Igrejas estão tirando "xérox" de nossas músicas, muitas vezes publicadas com esforço e renúncia, pois cedemos direitos autorais ou recebemos pouco, para ajudar na divulgação da musica batista do Brasil. Gravadoras "evangélicas", coros de igrejas e cantores estão gravando nossas músicas, vendendo milhares de discos, e nem mesmo nos estão pedindo autorização".

Um concerto na catedral metropolitana de Curitiba despertou Marcílio para incentivar em 1991 a música de órgão em nossas igrejas, e indagar: "qual o papel dos seminários na formação de organistas?, quem, no Ano da Música Batista, possamos ver e ouvir ao órgão?".

Observando o "show" do conjunto paulistano "Katsbarnéa", realizado em 1992, em Curitiba, Marcílio manifestou-se assim: "As músicas do "Katsbarnéa" e de todos os outros grupos evangélicos são iguais às do "rock" secular.

O estilo, o ritmo, a forma instrumental, tudo é igual. (...) Não é um repertório para nossos cultos dominicais, e isto precisa ser sempre enfatizado entre nossos jovens, como também entre os convertidos, ..., pois poderão se sentir traídos. Chegarão nas igrejas buscando essa música e não deverão encontrá-la (pelo menos espero que não ...)".

Marcílio fez percucientes observações sobre a música na assembléia convencional de 1993, em São Paulo (SP); eis algumas: lamentável – que o povo ainda não aprendeu a ficar em silêncio, ouvindo as músicas que são executadas; lamentável que tivemos apenas duas músicas brasileiras; lamentável que a bandeira brasileira tenha entrado no auditório ao som da marcha americana "Battle Hymn"; lamentável que todas as músicas dos hinos congregacionais fossem estrangeiras".

No programa da posse de Salovi Bernardo na secretaria executiva do CPC da CBB, em 1993, Marcílio assinalou: "desta vez escolheram dois hinos do "Cantor Cristão" ... a liderança batista do Brasil ainda rejeita o "Hinário para o Culto Cristão".

Em 1994, opinando sobre o uso de "corinhos" no culto, Marcílio destacou o fato: "os "corinhos" são de forma bastante popular, com muitas repetições, aplicando aqui as técnicas modernas de comunicação e "marketing". (...) os "corinhos" não são o melhor modelo de música".

Preocupado com a atuação de cantores e músicos brasileiros (que não toleram a crítica musical), em 1995 Marcílio tocou num ponto nevrálgico: "não se preparam suficientemente para a participação no culto; correm o risco de não inspirar as pessoas e não levá-las à adoração".

Sobre os festivais de música, Marcílio, em 1996, recordou os da década de 60: "A influência desse movimento ("Bossa Nova") logo chegou às igrejas e a juventude evangélica da época começou também a realizar festivais, com as mesmas características dos "shows" populares, com o advento de guitarras, violões, baterias e outros instrumentos de uso na música popular".

A partir de 1997, envolvido com a organização dos festivais denominados "Louvação", Marcílio foi diminuindo sua atuação em OJB. Em 2005, atendendo ao pedido da Direção, Marcílio voltou a escrever suas "notas fora de pauta", logo notando que "os líderes da música nas igrejas batistas brasileiras estão se adaptando aos novos dias", mas ainda com a queixa antiga: "É sempre decepcionante a programação musical das convenções. (...) Confesso que tenho dúvidas sobre os novos dias".

Neste 23Ί. aniversário da AMBB, uma das melhores formas de prestarmos homenagem à memória de Marcílio de Oliveira Filho é a preservação de seu ideário.

(Publicado em "O Jornal Batista", 08 jan 2006, p. 14).

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Tributo a Macílio de Oliveira Filho (II)

Rolando de Nassáu

O arregimentador – Trabalhávamos, em 1988, na Assembléia Nacional Constituinte, quando deparamos com emenda apresentada pelo deputado federal Matheus Iensen, membro da Igreja Evangélica Assembléia de Deus em Curitiba (PR), que restringia o direito de autores de obras de expressão artística. Tinha sido aprovado, em 1987, um dispositivo que assegurava aos autores o direito exclusivo de utilização, publicação ou reprodução de suas obras, transmissível aos herdeiros pelo tempo que a lei fixasse.

Em setembro daquele ano, Matheus Iensen propôs acrescentar as expressões "salvo sobre músicas sacras inspiradas ou baseadas em textos bíblicos, cujos direitos serão de imediato domínio público". Isto significava a abolição do direito autoral de poetas e compositores religiosos.

Imediatamente, pressentindo a gravidade da ameaça, em 8 de maio escrevemos cartas, de igual teor, para Marcílio, um músico batista do Recife e um músico presbiteriano do Rio de Janeiro. Em 24 de maio, Marcílio, então pastor interino da Igreja Batista do Ipiranga e presidente da AMBB, foi o único a responder e aceitar o desafio de combater a infeliz iniciativa do parlamentar evangélico: "Sua carta muito me alegrou. (...) despertei-me para este momento importante para nós. (...) devemos mostrar que o compositor sacro, quando se utiliza de textos bíblicos, está criando uma obra própria. (...) Os grandes oratórios contiveram textos bíblicos, muitos até literalmente. (...) Minha preocupação é saber se ainda há tempo hábil para se tentar discutir. (...) Outra inquietação é como chegar aos Constituintes". Em 31 de maio, Marcílio participou de uma reunião com diversos músicos profissionais evangélicos, em que foi avaliada a situação dos direitos.

O grupo parlamentar "Centrão" aproveitou, em 1Ί. de junho, a proposição de Matheus Iensen, num artigo a ser inserido no Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, que dizia: "o direito autoral não se aplica a música sacra baseada em textos bíblicos, quando utilizados em programas de caráter religioso". É oportuno observar que Matheus Iensen, na época, era proprietário de emissora de rádio e pouco se importava com os direitos autorais de letristas e compositores religiosos.

Surpreendeu-nos a capacidade de Marcílio para mobilizar líderes denominacionais e convencer autoridades da ANC. Em 15 de junho, uma caravana esteve na ANC em contato pessoal com 23 dos 33 Constituintes evangélicos (dos quais oito eram batistas), visando a supressão da emenda de Matheus Iensen, mas este não desistiu de seu intento. Os Constituintes evangélicos disseram desconhecer o texto em discussão na ANC. Marcílio saiu de Brasília com esta impressão: "Nunca em toda a história, os músicos foram tão prestigiados e receberam tamanho apoio".

Tendo apenas duas semanas, Marcílio iniciou "uma campanha gigantesca": providenciou a remessa de 11 mil volantes para pastores, igrejas e músicos; o diretor de OJB publicou editorial sobre a questão; o pr. Genésio Pereira escreveu carta-circular, em nome da JUERP, aos pastores e regentes corais.

Na sessão noturna de 29 de junho, Matheus Iensen, em discurso na ANC, declarou que, em virtude de incompreensão da imprensa secular e evangélica, e dos evangélicos em geral, retirava sua emenda. Aprovado o item XXVII do Artigo 5Ί. da Constituição de 1988, desde então nenhuma entidade, denominacional ou secular, pode publicar ou gravar músicas dos compositores religiosos sem a expressa autorização.

Em 3 de agosto, os líderes voltaram a Brasília para agradecer aos Constituintes evangélicos o apoio dado à campanha em favor dos direitos autorais dos músicos religiosos.

Marcílio escreveu quatro artigos (jun, jul, ago e out 1988) com dois recados: "Os músicos devem se interessar mais por estes temas, pois deles dependem". (...) os (parlamentares) evangélicos devem estar sempre atentos quando do trato de questões específicas, que podem comprometer a estabilidade das instituições evangélicas".

Em toda esta matéria, Marcílio foi o grande arregimentador de líderes, dentro e fora da Denominação Batista, e o acionador de diversos órgãos da burocracia denominacional. Não sabemos se, em tão pouco tempo de árdua campanha (menos de três meses), os músicos batistas perceberam e compreenderam o denodado esforço de Marcílio para defender os seus legítimos interesses.

O pesquisador – Em 1984, um GT da AMBB começou a formular uma filosofia para a música dos batistas no Brasil. Marcílio, que tinha experiência na realização de caravanas musicais, com finalidade evangelística, visitando cidades em diferentes Estados, no princípio de 1986 sonhou o projeto "Cantem, batistas brasileiros!", com dois objetivos principais: 1º.) incentivar compositores e poetas a produzirem hinos e cânticos; 2º.) pesquisar o que o povo batista brasileiro vinha cantando em suas igrejas. Durante o segundo semestre de 1986 e o primeiro de 1987, Marcílio e sua esposa, Zelda, com o apoio financeiro da Missão Batista do Sul do Brasil, percorreram o País, colhendo informes e partituras, gravando peças musicais inéditas, avaliando o documento "Fundamentos da Música Sacra das Igrejas Batistas do Brasil" com lideranças locais e preparando congressos regionais. Com muito entusiasmo, o casal passou, entre outras cidades, por Rio Branco (AC), Porto Velho (RO), Manaus (AM), Santarém (PA), Belém (PA), Macapá (AP), São Luís (MA), Teresina (PI) e Fortaleza (CE). Graças à iniciativa de Marcílio, o projeto revelou o jovem compositor Hiram Simões Rollo Júnior.

Apesar de constantes, extensas e cansativas viagens de Marcílio e Zelda por muitas partes do Brasil, o propósito de pesquisar a hinodia usada em várias regiões parece que não alcançou plenamente o desiderato do projeto. Não ficamos sabendo quando, onde e por quem foram cantados "os hinos da época", e não foram preservados alguns dos "favoritos". Marcílio não teve tempo para interpretar os resultados; ele atribuiu à CBB a tarefa de avaliar os dados.

Quanto ao estilo, antes da edição do HCC, sugerimos a hipótese de que a maioria dos 50 hinos mais cantados na época da pesquisa pertencia ao período em que foram produzidos os hinos evangelísticos ("gospel hymns").

Do CC foram aproveitados 166 hinos no HCC. Ainda que estivessem entre os 50 mais cantados, pelo menos 10 não foram reproduzidos no HCC.

Persiste a queixa dos apreciadores do CC – que hinos favoritos do povo batista não foram incluídos no HCC.

O compositor – Marcílio ouviu a música de Villa-Lobos – Mirando as obras de Villa-Lobos, que buscou no folclore inspiração para realizar a almejada música sacra erudita brasileira, em 1976 oferecemos ao exame dos músicos batistas 12 diretrizes; dentre elas as seguintes: 1) admitir as melodias folclóricas e populares, escoimando-as de sentido profano; 2) incorporar novos hinos e peças corais no repertório das igrejas, sempre tendo em vista a atual realidade brasileira. Sugerimos também que os compositores batistas observassem as constâncias melódicas, rítmicas e harmônicas da música brasileira.

Os Batistas ouviram do Ipiranga às margens plácidas o brado retumbante de Marcílio - Incentivado por Artur Alberto de Mota Gonçalves (1934-2005), pastor da Igreja Batista do Ipiranga, em São Paulo (SP), da qual era membro, enquanto lecionava música na FTBSP, a partir de 1976 Marcílio compôs músicas para hinos congregacionais observando as constâncias acima referidas. Entre 1976 e 1987, Marcílio compôs para os atuais hinos nºs. 355, 321, 531, 533, 555, 473, 532 e 595 do HCC. "Aflito? Por que aflito?" (1976), é marcharancho, de tom alegre e ritmo ondulante, por vezes vivo ou dolente. "Mas nós somos luz" (1980) é "chorinho"; o texto é escatológico; a música, de caráter plangente e sentido nostálgico; na década anterior tinha ocorrido o renascimentodeste gênero. "Que feliz é o lar" (1987) é toada; é breve canção sentimental, commelodia simples, a respeito do amor familiar. Na opinião de Oswaldo Lacerda, "as terças caipiras se prestam excelentemente a serem empregadas na música sacra nacional". Em nossa opinião, Marcílio tinha um fascinante jeito caipira de relacionar-se com a música de escol. Os outros cinco hinos foram elaborados em 1980, 1982, 1983 e 1984. O exemplo de Marcílio como compositor foi seguido mais de perto por Hiram Simões Rollo Júnior. Outros admiradores de Marcílio também contribuíram para a nova hinodia batista brasileira.

Articulista, arregimentador, pesquisador e compositor, Marcílio foi um obreiro polivalente (ver: "O Jornal Batista", 29 jul 1990, p.2).

(Publicado em "O Jornal Batista", 15 jan 2006, p. 4).

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Tributo a Marcílio de Oliveira Filho (III)

Rolando de Nassáu

O ideólogo – Em 1974, discorrendo longamente sobre a música sacra no Brasil, afirmamos que, "em sua obra, Villa-Lobos foi guiado por seu instinto, seu conhecimento do folclore brasileiro e sua admiração por Johann Sebastian Bach"; em 1976, comentamos a influência estrangeira sobre a música religiosa executada no Brasil; justamente a partir de 1976, alegrou-nos o "fascinante jeito caipira" de Marcílio no aproveitamento de temas folclóricos e eruditos. Enquanto lecionava (1976-1987), Marcílio, à luz da experiência e observação, acolitadas por informações alheias, foi formando sua própria ideologia, manifestada, pela primeira vez, em 1978, numa aula magna na FTBSP; naquela ocasião, Marcílio declarou: "na área musical, vivemos uma situação diferente"; "os Batistas não evoluíram no campo musical, mais especificamente no canto congregacional"; "os hinos cantados são os mesmos (desde 1950)"; "os ligeiros acréscimos (do "Cantor Cristão") não representam o pensamento musical nativista"; "os hinos devem ser de línguagem clara, simples e popular"; "podemos falar sobre sofrimento, fome, mas usando textos bíblicos e com base teológica, para não se tornarem os hinos simples instrumentos de subversão"; "as letras sejam fiéis à Palavra de Deus; que, apesar de modernas, não se descuidem da firmeza cristã"; "precisamos dialogar com expressões e tratamentos do domínio do homem de hoje"; "não podemos, a pretexto de modernizar os hinos, vulgarizar o tratamento para com Deus"; "uma geração inteligente, estudiosa e fiel aos princípios cristãos muito poderá dizer, com textos para os hinos brasileiros"; "infelizmente, uma prevenção muito acentuada, contra a música brasileira, pelos brasileiros"; "nossas juntas missionárias ensinam a língua, costumes e tradições dos povos, mas não mostram nada sobre a identidade musical dos povos a serem evangelizados"; "povos que recebem missionários batistas brasileiros estão novamente importando o que os brasileiros importaram"; "se cantamos hinos do "Cantor Cristão" que são folclore nos países de origem, por que não podemos também inserir em nossos cultos o elemento brasileiro?"; "serão bem aceitos hinos com os ritmos próprios da gente brasileira, como xaxado, samba-canção, marcha-rancho, baião e tantos outros sons"; "o povo que entra em nossos cultos é obrigado a familiarizar-se com expressões, ritualismo e músicas que não lhe são comuns"; "é necessário educar nossos gostos e aceitarmos muitas músicas que poderão ferir nosso gosto de burgueses de classe média"; "os músicos brasileiros sentem a indiferença das entidades convencionais"; "haverá lugar para estes hinos quando os músicos batistas brasileiros se unirem e conseguirem da CBB um reconhecimento como um órgão"; "ao completarmos 100 anos de vida batista no Brasil tenhamos, além do "Cantor Cristão", um hinário rico em conteúdo doutrinário, poético, teológico e musical".

O organizador – Cumprindo sua profecia de 15 de fevereiro de 1978, Marcílio e mais 34 pessoas fundaram, em Salvador (BA), em 15 de outubro de 1982, a Associação dos Músicos Batistas do Brasil (AMBB), com os objetivos de identificar e integrar os músicos (principalmente ministros e diretores de música das igrejas), ajudá-los em suas necessidades básicas e despertar os seus talentos criativos. Além de bacharel em Teologia e Música Sacra, Marcílio era graduado em Administração de Empresas; valendo-se desta capacitação profissional, durante seis anos foi presidente da AMBB, deixando-a consolidada e prestigiada. Marcílio sonhou e realizou o Primeiro Congresso da AMBB (Porto Alegre, janeiro de 1984), sempre dando notícias pormenorizadas em "O Jornal Batista", a respeito deste e dos congressos subseqüentes, realizados em Maceió, Campo Grande, Vitória, Brasília e Fortaleza. Em Vitória, em 1987, foi organizada uma Comissão Executiva Nacional; Marcílio estava preparando a nova liderança da AMBB; graças à garra de Marcílio, a AMBB foi oficialmente reconhecida pela CBB. Nessa ocasião, a AMBB recebeu, por intermédio de um GT, a importantíssima tarefa de auxiliar a JUERP na elaboração do HCC. Marcílio, dentro do projeto "Cantem, batistas brasileiros!", organizou sete congressos regionais de músicos.

O pastor e a ovelha – Poucos ministros de música usufruem o privilégio que Marcílio teve: consagração aos ministérios pastoral e musical. Ele reconheceu que foi consagrado "pela bondade de um concílio examinador"; "logo eu, que não pensava nisso e nem admitia a hipótese de me dedicar integralmente ao ministério!". Ele confessou em 1987 que estudos teológicos nunca foram "as maiores paixões" de sua vida. Conversamos em Salvador, Caldas Novas, Brasília e Curitiba, tendo sempre como assuntos principais a nacionalização da música-de-igreja e a valorização dos músicos-de-igreja. Não tive oportunidade de ouvir Marcílio pregando; imagino que sua voz era melíflua, seus gestos, afáveis.

Marcílio foi pastor auxiliar de Eliseu Ximenes (Schimenes) na PIB de Santos, SP (1974/1976), de Artur Alberto de Mota Gonçalves, na IB do Ipiranga, em São Paulo, SP (1977/1989) e de Paschoal Piragine Júnior, na PIB de Curitiba, PR (1990-2005). Na presidência da AMBB, Marcílio tinha a condição excepcional de pastor e ministro de música. Por isso, tinha uma visão peculiar: "Nós, como músicos, estamos a serviço de Deus e dos pastores" (...) Não somos rivais nem queremos viver distantes dos pastores". Sua primeira preocupação foi convidar os pastores para os congressos de músicos: "não temos os músicos entre os pastores; queremos ter os pastores entre os músicos". Para o Congresso de Porto Alegre, convidou Werner Kaschel e David Hodges; para Maceió, Gamaliel Perruci e Artur Gonçalves. A AMBB, no final do mandato de Marcílio, criou um curso de orientação para pastores, especificamente sobre culto, música e adoração, a ser realizado no Congresso de Fortaleza.

Marcílio foi uma ovelha mansa; deverá ser exemplo para os ministros de música da atualidade. Antes de 1974, recebeu educação cristã dos pastores T.C.Bagby (que sugeriu ao menino de sete anos de idade que regesse a congregação) e Gorgônio Barbosa Alves (que incentivou o menino a fazer solos vocais no programa radiofônico da PIB de São Vicente, SP), Almir dos Santos Gonçalves (PIB da Piedade) e Aderbal Barreto da Silva (PIB de Moça Bonita, RJ). Depois de 1974, trabalhou sob a orientação de Eliseu Ximenes (Schimenes), Artur Alberto de Mota Gonçalves e Paschoal Piragine Júnior, nas áreas pastoral, de composição e magistério, e de ministério de música, respectivamente.

A propósito do "Dia do Pastor", Marcílio escreveu três carinhosos artigos, em homenagem a esses e outros pastores que conheceu; num dos artigos destacou Artur Gonçalves como pastor amigo e incentivador. Um dos últimos desejos de Marcílio: "cada ministro auxiliar encontre no seu pastor titular essas (amizade e simpatia) e várias outras virtudes".

Entre Marcílio e Artur houve uma ligação profunda, que os aproximou até na hora da saída para o lar celestial: Marcílio faleceu no dia 6, Artur no dia 9 de setembro de 2005.

Cremos que Marcílio de Oliveira Filho teve por lema de sua vida o que disse o Salmista: "Cantarei ao Senhor enquanto eu viver; cantarei louvores ao meu Deus enquanto eu existir" (Salmo 104:33). Certamente, mesmo depois de morto, a obra de Marcílio ainda fala. Ministros de música: imitai-lhe a fé!

(Publicado em "O Jornal Batista", 22 jan 2006, p. 14).

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Doc.JB-703

Hermes Coelho Interpreta Stravinsky

Rolando de Nassáu

(Dedicado ao leitor Wilson Salles, do Rio de Janeiro, RJ)

Em 1982 escrevemos sobre a "Sinfonia dos Salmos", de Igor Stravinsky (1882-1971), que seria executada, em 10 de julho, no Teatro Municipal (Rio de Janeiro), pela Orquestra Sinfônica Brasileira e a Associação de Canto Coral, sob a regência de Victor Tevah ("O Jornal Batista", 22 ago 82, p.2).

Símbolo da modernidade, Stravinsky fez a arte sacra retomar o seu lugar no panorama da música moderna. Afastado da terra natal, seu espírito se voltou cada vez mais para os assuntos religiosos e para os interesses eternos. Essencialmente religioso, compôs balés e óperas ("O pássaro de fogo", 1910, "Petruchka", 1911, "A sagração da Primavera", 1913, "O rouxinol", 1914, "A história do soldado", 1918, "Pulcinella", 1920, "A raposa", 1922, "As núpcias", 1923, "Rei Édipo", 1927, "Apollon musagète" , 1928) antes de abordar um tema litúrgico: "Sinfonia dos Salmos", 1930. Mestre da música para encenação, Stravinsky depois de 1930 procurou a música para meditação religiosa ("Missa", 1948, "Cântico sacro", 1955, "Lamentações", 1958, "Um sermão, uma narrativa e uma prece", 1961, "A pomba descendo", 1962, "Réquiem", 1966).

Uma de suas mais belas criações, a "Sinfonia dos Salmos" foi a primeira obra importante em que Stravinsky deu eloqüente expressão aos seus profundos sentimentos religiosos. Essa obra foi composta com o propósito de promover "uma comunhão com o nosso próximo e o Supremo Ser". Esta "sinfonia" é menos uma sinfonia do que uma cantata. Ao escolher na "Vulgata" três dos salmos, referia-se à relação do homem com Deus: "Exaudi orationem meam, Domine" (Ouve a minha oração, Senhor), "Expectans expectavi Dominum" (Com paciência esperei no Senhor) e "Laudate Dominum" (Louvai ao Senhor).

Na primeira parte (Salmo 39:12), apesar da simplicidade, há uma expressão de ebulição religiosa. Na segunda (Salmo 40:1), tem-se simbolismo musical do mais alto nível. Na terceira (Salmo 150:1), a sublimação das emoções do compositor.

O tom da salmodia é por vezes influenciado pelo cantochão. O estilo da "sinfonia" tende para sonoridades solenes, mas, estruturalmente, a obra está longe da forma sinfônica.

Em 23 de fevereiro, com alegria e certo "orgulho denominacional", lemos, no portal da UNICAMP na Internet, a notícia da apresentação da dissertação acadêmica de Hermes Coelho, um dos tecnicamente mais bem dotados músicos batistas no Brasil, sobre a "Sinfonia dos Salmos".

O compositor Edmundo Villani Côrtes (UNESP), membro da comissão julgadora, ficou impressionado com as sugestões de Hermes Coelho para execução da obra de Stravinsky, que ajudam a corrigir certas falhas cometidas na partitura original. Na opinião de Villani Côrtes, Hermes Coelho desenvolveu "uma das pesquisas mais abrangentes sobre a obra de Stravinsky".

Em sua dissertação, Hermes Coelho reflete sobre textos bíblicos e analisa a partitura (forma, orquestração, instrumentação, escrita vocal, harmonia e contraponto).

O maestro Hermes Coelho é compositor e clarinetista. Também toca outros instrumentos (piano, violoncelo, saxofones, flautas). Tem mestrado em música (especialização em regência pela Universidade de Campinas, SP). Participou de oficinas para regentes de coros, ministradas por Erik Westberg (1995, 1996 e 1997), na Suécia; de cursos de regência coral, com Paul Oakley e Alberto Grau (1998), Eph Ely, Dennis Jewett e Joseph Prats (1999), Bob Chilcott e Janet Galván (2001), Gunta Malevic e Rodney Eichenberg (2002); de seminário, com Hans Peter Schurz (2002); e de encontros de regentes de orquestra, com Jamil Maluf (2002) e Osvaldo Ferreira (2004). Idealizou e organizou os festivais de Música Sacra e de Música Popular Brasileira, em Campinas (SP). Foi professor no curso de música da Faculdade Teológica Batista de São Paulo, na Faculdade de Artes "Alcântara Machado" e no Seminário "Música e Adoração" da Sociedade Evangélica de Música Sacra (SOEMUS). Foi palestrante na FTBSP sobre o tema "A Música Sacra no século XX" (1999) e na Primeira Semana de Música Sacra da Igreja Metodista Central de Taubaté (SP). Participou do 16Ί. Congresso dos Músicos Batistas Fluminenses (Macaé, RJ, 2000). Ministrou cursos básicos de regência na Igreja Batista "El Shaddai" (2001) e na Escola de Música de Sorocaba (2003).

Atualmente, é regente titular da Orquestra "Ars Musicalis", da Orquestra de Câmara "Metrocamp", dos coros do Clube "Alto dos Pinheiros" e da empresa "Lucent Technologies", e do "Coral Exsultate".

Hermes Coelho compôs "Tu és a Luz" (1998) e "Oração de Natal" (1999). Foi premiado com a Medalha "Carlos Gomes" (2000 e 2003) da Cidade de Campinas (SP). Em seu repertório figuram obras de grandes compositores. Regeu em 20 de dezembro de 2005, no mosteiro de São Bento, em São Paulo (SP), a Orquestra Sinfônica de Americana (SP) e o "Canto Coral Exsultate", na execução do "Oratório de Natal", de J.S. Bach (http://www.abordo.com.br/nassau/agenda.htm).

Os músicos e a Denominação estão de parabéns com esse testemunho artístico de um compositor batista no meio acadêmico brasileiro!

(Publicado em "O Jornal Batista", 07 mai 2006, p. 4).

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Música - Nº. 716

Tributo a Marília Soren

Rolando de Nassáu

(Dedicado à leitora Leda Gurgel Mainhard, do Rio de Janeiro, RJ)

Privilegiados, ao surgir a primeira (1950-1975), ao desenvolver-se a segunda (1976-2000) e ao despontar a terceira (2001-2007) gerações, pudemos escrever a respeito dos músicos evangélicos no Brasil.

Marília Soren (1936-2007) foi uma das musicistas que se destacaram na música evangélica nos últimos 50 anos; poucas tiveram tão extensa e duradoura folha-de-serviços, nas igrejas e no meio artístico, como intérprete ou executante de páginas da literatura operística e de peças da música instrumental, bem como na regência de obras da música coral (http://www.abordo.com.br/nassau/galeria.htm.

Nesta coluna, nossas primeiras referências à sua atuação foram motivadas pelos trechos do oratório "Messias", de Haendel, que cantou na chamada "Semana Santa" de 1954 (ver: OJB, 13 jan 55) e no concerto regido por Natanael Mesquita (ver: OJB, 24 nov 55), quando também executou ao órgão uma "Toccata e Fuga", de Bach; na época, o Coro da PIB-RJ (109 coristas) foi considerado o maior e melhor coro de igreja evangélica do Brasil, e Marília Soren estudava piano no Conservatório Brasileiro de Música, onde diplomou-se "com distinção", e órgão na Escola de Música (atual UFRJ) com Antônio Silva e Gertrud Mersiovsky, revelando-se uma das melhores alunas.

Marília estudou canto no Conservatório Nacional de Canto Orfeônico (fundado em 1942 por Heitor Villa-Lobos), conquistando o primeiro lugar no concurso para aperfeiçoamento, e na Escola de Arte Lírica do Teatro Municipal do Rio de Janeiro; dedicou sua arte lírica à música sacra: foi meio-soprano da PIB, do Coral Excelsior e da Associação Coral Evangélica do Rio de Janeiro.

Em 23 de novembro de 1957, em dueto com a soprano Gláucia Simas (outra grande cantora), num concerto da ACE, Marília interpretou o "Recordare", de Verdi; em nosso artigo de crítica, escrevemos: "após o soturno refrão que sublinha o texto litúrgico, Marília iniciou, com uma voz homogênea, no melhor diapasão, e num timbre claro e puro, obtendo surpreendente perfeição, a frase "Recordare, Jesu pie, quod sum causa tuae viae", demonstrando possuir qualidades eminentemente aptas à interpretação desta página religiosa" (ver: OJB, 30 jan 58). Em 1959, depois de brilhantes apresentações no Teatro Experimental de Ópera, venceu o concurso para solistas da Orquestra Sinfônica Brasileira, sob a regência de Eleazar de Carvalho.

Marília foi assídua ocupante do "console" do órgão eletromagnético "Hammond" da PIB-RJ e reinaugurou os órgãos-de-tubos das igrejas luteranas de Juiz de Fora (MG) e de Petrópolis (RJ) (ver: Rolando de Nassau, Dicionário de Música Evangélica, p. 163). Em 29 de maio de 1959, Marília participou do Quarto Festival de Música Sacra oferecendo um recital de órgão; no "Andantino", de Franck, Marília transmitiu as emoções religiosas do compositor; na "Prece", de Nepomuceno, captou o sentimentalismo bem brasileiro da obra; na "Toccata", de Gigout, exibiu um extraordinário virtuosismo; no "Concerto", de Vivaldi, aproveitou, em belas sonoridades, a riqueza desta obra; no "Prelúdio e Fuga", em ré menor (BWV-539), de Bach, conseguiu soberba interpretação (ver: OJB, 23 jul 59 e 11 fev 60).

Em 26 de setembro de 1959, Marília foi uma das solistas do "Requiem", de Mozart, executado pelo Pequeno Coro da ACE do Rio de Janeiro na Escola Nacional de Música (ver: OJB, 05 nov 59). Marília foi altamente considerada por sua brilhante atuação no "Réquiem", "tendo exata noção do colorido próprio de cada trecho e aproximando-se do verdadeiro estilo da obra" (ver: OJB, 11 fev 60). Seu prestígio continuou em 1960: foi distinguida como "a melhor amiga da Música Sacra", não somente pela cuidadosa escolha e execução de seu repertório dominical na PIB-RJ, mas também pelo concerto inaugural do órgão do STBSB" (ver: OJB, 09 mai 61).

De 1960 a 1966, Marília regeu o Coro da PIB-RJ. Com a nossa mudança para Brasília, em 1961, não pudemos acompanhar de perto a brilhante trajetória artística de Marília. Mas tivemos a grata satisfação de assistir ao concerto de canções natalinas do Coro da PIB-RJ (então com 78 coristas), em 26 de dezembro de 1965, regido por Marília Soren (ver: OJB, 06 fev 66).

João Filson Soren, pastor (1935-1985) da PIB-RJ, foi o mentor das atividades artísticas de sua filha Marília; musicista (ver: OJB, 06 jan 85), aconselhava como deveria cantar, tocar e reger; ele não tinha ministro auxiliar para a música e o louvor (cantado ou falado), nem dispunha de um boletim para orientar a congregação em suas reuniões dominicais, mas, como poucos em sua geração, conhecia muito bem a arte do culto público.

Depois de 12 anos (1954-1966) de ininterrupta liderança na atividade lírica, pianística, organística e coral, Marília não deixou de exercer sua benéfica influência na área musical da PIB-RJ, bafejada pelo apoio do pr. Soren.

Em 1975, contribuiu para a formação do "Aulos", conjunto de flautas-doces, integrado por jovens e adolescentes flautistas (entre os quais Suray Soren e Domitila Ballesteros) e dirigido por Amaru Soren. Desde 1988, vinha regendo o Coro "João Soren", que tinha sido criado para comemorar, em 1984, o centenário da PIB-RJ. Marília honrou o seu pai, a sua Igreja e a sua Denominação!

(Publicado em "O Jornal Batista", 03 jun 2007, p. 4).

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Doc.JB-732

Nossa homenagem a Elza Lakschevitz

Rolando de Nassáu

(Dedicado ao leitor Edson Lannes, do Rio de Janeiro, RJ)

Conhecemos Elza Lakschevitz desde agosto de 1951, quando pertencíamos à União de Mocidade da Igreja Batista "Itacuruçá" (Tijuca, Rio de Janeiro, RJ), onde ela iniciou suas atividades musicais como pianista e organista.

Elza em 1952 organizou o hinário "Vamos cantar!", para ser usado no primeiro intercâmbio "ITAPRI" com a mocidade da PIB de São Paulo; para o segundo encontro, em 1953, Elza elaborou a música de um hino; assim começou sua carreira de compositora. A respeito dessa época, ela declarou: "Foram bons tempos aqueles, certamente os melhores da mocidade de Itacuruçá! Meu melhor tempo". Na década de 50, Elza promovia concursos de música em Itacuruçá.

Fez seus estudos de graduação e pós-graduação na Universidade Federal do Rio de Janeiro (piano, órgão, regência e composição).

Em meados da década de 50, tivemos oportunidade de conversar com seu pai, Arthur Lakschevitz (1901-1981), na residência do Rio Comprido, e ficamos impressionados com as dificuldades do seu trabalho de compilação e organização de antemas para a coletânea "Coros Sacros" (ver: "O Jornal Batista", 16 nov 80). Seu pai regeu o Coro de Itacuruçá (1952/1962); Elza, nos impedimentos do missionário-músico John Boyd Sutton (1967/1977); ambos eram regentes muito dedicados ao seu ministério musical.

Em 1959, Elza, então com 26 anos de idade, acompanhou, ao órgão, o Coro da Associação Coral Evangélica do Rio de Janeiro, que executou, na antiga Escola Nacional de Música (hoje, UFRJ), o "Réquiem", de Mozart, sob a regência de Heitor Argolo. Sobre este concerto, escrevemos: "A organista Elza Lakschevitz recebeu, quase à última hora, por motivo de enfermidade do professor Antônio Silva, a grave responsabilidade de acompanhar o coro e os solistas; sua execução foi tecnicamente escorreita e discreta, como convém à música sacra, e a interpretação artísticamente sóbria e solene" (ver: OJB, 05 nov 59). Por causa de seu desempenho, concedemos a Elza o título de "melhor acompanhista" no ano de 1959 (ver: OJB, 11 fev 60).

Entre 1960 e 1969, por termos mudado nossa residência para Brasília, não tivemos oportunidades de ouvir Elza. A partir de 1970, Elza dedicou-se à regência coral. Foi responsável, durante 15 anos, como coordenadora de coros do Instituto Nacional de Música – Fundação Nacional de Arte – FUNARTE), pelo programa de apoio e estímulo à atividade coral no país.

Em 1971, regeu, no STBSB, a cantata "As sete últimas palavras de Cristo", de Dubois. Os evangélicos em geral e os batistas em particular desenvolveram o canto coral em suas igrejas.

Em 1979, foi criado o Projeto "Villa-Lobos", para melhorar o nível técnico dos regentes; Elza foi nomeada coordenadora (ver: OJB, 05 set 82).

O gosto musical dos batistas foi melhorando. Em 1982, Elza regeu os coros juvenil e jovem de Itacuruçá; no repertório constava uma cantata do compositor barroco Buxtehude!

Elza regeu o Coro Infantil do Teatro Municipal do Rio de Janeiro na gravação do disco elepê "Villa-Lobos para crianças – Seleção do Guia Prático", realizada na Sala "Cecília Meireles", em março e abril de 1987, a respeito do qual escrevemos: "Ouvimos com encantamento o coro de Elza Lakschevitz. Essas vozes transparentes evocam melodias de nossa infância ... este elepê se constitui desde já em valioso documento fonográfico do folclore brasileiro, dando provas de competência técnica e de bom gosto artístico ... uma maestrina batista brasileira deu uma notável contribuição à nossa memória musical" (ver: OJB, 09 out 88). Como regente desse coro, Elza apresentou, algumas em primeira audição, obras de Ronaldo Miranda, Ernani Aguiar, Edino Krieger e Henrique de Curitiba.

Assistimos, em 21 de janeiro de 1988, no Centro de Convenções de Brasília, a entrega a Elza do Prêmio "Arthur Lakschevitz" (ver: OJB, 03 abr 88); na época, era regente dos grupos vocais "Curumins" e "Canto em Canto", e do coro do STBSB, tendo atuação bastante destacada na Associação de Canto Coral do Rio de Janeiro e na FUNARTE. O "Novo Canto", um dos coros de Itacuruçá, em 04 de junho de 1989 executou "As sete últimas palavras de Cristo", de Dubois, sob a regência de Elza; foi o primeiro coro de igreja batista a executá-lo (ver: OJB, 20 ago 89).

Na década de 90, foi regente muito ativa do Coro Infantil do Rio de Janeiro e do "Canto em Canto".

Em 1994, dedicamos verbetes a Arthur e Elza em nosso "Dicionário de Música Evangélica" (p. 105).

Regendo o Coro da Associação de Canto Coral (1978), o Coro Infantil do Teatro Municipal (1988), o Coro "Canto em Canto" (1996) e o Coro Infantil (1997), todos no Rio de Janeiro, Elza gravou seis CDs de música coral.

Em 1997, incluímos Arthur e Elza na galeria de personalidades evangélicas do nosso site http://www.abordo.com.br/nassau/

Em outubro desse ano, o Coro Infantil conquistou o primeiro prêmio no concurso de canto coral promovido pela FUNARTE. Com esse coro, Elza realizou, em 1998, uma turnê em Portugal e na Espanha.

Elza atuou como palestrante e jurada em festivais na América do Sul, no Caribe e nos Estados Unidos da América. Durante muitos anos, como professora, lecionou no Instituto de Educação, na Escola de Música "Villa-Lobos" e no Instituto Batista de Educação Religiosa, no Rio de Janeiro.

Recentemente, participou do livro de ensaios "Olhares sobre a música coral brasileira", comentando seu trabalho com coros infantis.

Foi anunciado que, no próximo dia 16 de agosto, a antiga Escola Nacional de Música (Largo da Lapa, no Rio de Janeiro) prestará justíssimo preito de reconhecimento a quem prestigiou o canto coral no Brasil.

Sempre acompanhando, mesmo de longe, a sua brilhante carreira artística, aqui manifestamos nossa homenagem a Elza Lakschevitz.

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(Publicado em "O Jornal Batista", 03 ago 08, p. 4)

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Edson Elias (1947-2008)


Nosso colaborador Rolando de Nassáu enviou-nos de Brasília a seguinte nota de falecimento: "Soubemos pela "France Press" que o organista, pianista e professor Edson Lopes Elias (Dicionário de Música Evangélica, p. 70) faleceu, no dia 16 de maio, num hospital de Paris, vítima de um ataque cardíaco.

Era casado com a pianista paraense Maria Helena. Começando na década de 70, Edson Elias foi instrumentista na PIB do Rio de Janeiro. Tivemos oportunidade de ouvi-lo tocar Debussy na Sala "Cecília Meireles".

Desde 1997 figura em nossa página na Internet. Mantínhamos correspondência regular. Estava escrevendo um livro sobre técnicas pianísticas.

No artigo "Batistas no ambiente da Copa" (OJB, 23 mar 08, p. 11) sugerimos que ele fosse convidado pela CBB para realizar recitais por ocasião da Copa Mundial de Futebol em 2014.

A seu pedido, estávamos procurando ajudá-lo numa projetada turnê de recitais de piano em Belém, Vitória e Goiânia, em meados de junho.

Edson Elias honrou a cultura brasileira na Europa. Uma enorme perda para a arte do piano erudito!".

(Publicado em "O Jornal Batista", 01 jun 08, p. 13).

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HEITOR ARGOLO (1923-2008)


Nosso colaborador Rolando de Nassáu enviou-nos de Brasília a seguinte nota de falecimento: "Faleceu em Brasília, na manhã dominical de 20 de julho, o tradutor e regente de obras musicais sacras Heitor Argolo (ver: Dicionário de Música Evangélica, p. 32).

Heitor Teixeira de Argollo nasceu, em 16 de abril de 1923, em Salvador (BA). Jovem, foi trabalhar no Rio de Janeiro. Funcionário da Receita Federal, mediante concurso público, veio para Brasília.

Traduziu e adaptou obras de Bach, Haendel, Mendelssohn, Beethoven, Haydn, Brahms, Saint-Saens e Stainer.

Na década de 50, foi regente do Coro da Igreja Batista em São Francisco Xavier, no Rio de Janeiro (DF). Em 1952, com Levino Ferreira de Alcântara, fundou a Associação Coral Evangélica. Regeu o Coro da ACE carioca (1955-1963).

Em 1956 fez executar, em primeira audição no Brasil, o oratório "A Crucifixão", de Stainer. Apresentou, na íntegra e na língua original, na antiga Escola Nacional de Música, e no Teatro Municipal de Niterói, em 1959, o "Réquiem", de Mozart.

Com este coro, tendo como solista vocal Gláucia Simas Campello e acompanhista Marília Soren, gravou o LP "Seleção de Música Sacra".

À homenagem póstuma compareceram seus amigos Jackson Guedes Ferreira, Aparecida dos Reis Guedes Ferreira, José Júlio dos Reis, Almerindo Gomes, Dercy de Lima Gomes, Déa Lima Gomes, Dilete Pereira de Lima e este cronista.

A Heitor Argolo devem as igrejas evangélicas no Brasil a divulgação, por meio de seus coros, das obras-primas da música sacra".

(Publicado em "O Jornal Batista", 03 ago 08, p. 13)

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Tasso Brasileiro do Vale (1924-2008)


Nosso colaborador Rolando de Nassau enviou-nos de Brasília a seguinte nota de falecimento:

"À tarde do sábado, 22 de novembro, faleceu em Brasília o regente Tasso Brasileiro do Vale.

Ele estudou regência coral, percepção musical e técnica vocal no Conservatório de Música da Universidade Federal de Minas Gerais. Regeu coros e, como barítono, cantou ópera na capital mineira. Foi professor de música em escolas públicas de ensino médio, em Belo Horizonte e em Brasília.

Por carta de transferência concedida pela Igreja Batista de Humaitá, de Belo Horizonte (MG), ingressou na Igreja Memorial Batista, em Brasília (DF), em 8 de maio de 1968. Em 12 de janeiro de 1969, pelo pastor Éber Vasconcelos foi convidado para a regência do Coro; na ocasião declarou: "Com a graça de Deus, espero realizar aquele ideal que sempre acalentei: de ter um coral que possa expressar as belezas sublimes do Evangelho, com amor e espiritualidade". Efetivado em 19 de março, criou um coro masculino e permaneceu na regência do Coro da Igreja até 8 de outubro de 1972.

Foi um dos primeiros regentes brasileiros a apresentar a cantata "Maior Amor", composta em 1958 por John W. Peterson; as duas primeiras execuções dessa cantata aconteceram no templo da Igreja Memorial, em novembro de 1970, sob a regência de Tasso (ver: OJB, 8 nov 1981, p. 2). Em 28 de novembro de 1971, dirigiu a cantata "A maior história não contada", de Eugene Clark. Em 3 de setembro de 1972, perante autoridades federais e locais, interpretou antemas de Haendel e de Haydn.

Reestruturado o Coro (que passou a denominar-se "Coral Memorial"), o professor Tasso reassumiu a sua direção em junho de 1979, regendo, em dezembro, a execução da cantata "Noite de Milagres", de Peterson. Em 18 de junho de 1980, Tasso teve a excepcional oportunidade de reger o "Coral Memorial" num culto solene com a presença do presidente João Batista de Oliveira Figueiredo, acompanhado pelos presidentes da Câmara dos Deputados e do Supremo Tribunal Federal (ver: OJB, 06 jul 1980, PP. 1 e 6). Em 30 de agosto de 1981, Tasso regeu, no Templo, e, em 25 de setembro, no Teatro Nacional de Brasília, as 4ͺ. e 5ͺ. apresentações da cantata "Maior Amor", com acompanhamento orquestral.

Depois de pouco mais de dois anos de intensa atividade, Tasso deixou definitivamente o "Coro Memorial" (nova denominação, ainda vigente), em 9 de outubro de 1991, por motivo de enfermidade.

Nas quatro oportunidades que teve, Tasso foi um regente competente na técnica coral, dedicado à sua atividade musical e atencioso em seu relacionamento com os coristas. Deixou marcas profundas no repertório musical da Igreja Memorial. Depois de tanto tempo ausente do pódio, ainda gozava de prestígio por causa de sua sensibilidade artística e espiritual.

Ao culto fúnebre no Auditório "Éber Vasconcelos" e ao sepultamento no Campo da Esperança, compareceu grande número de pastores e membros de igrejas batistas, e de igrejas presbiterianas, às quais pertencem vários familiares de Tasso. A viúva Aseneth e os filhos Leonora, Eduardo, Sérgio e Maurício muito contribuíram para o louvável ministério musical de Tasso Brasileiro do Vale".

(Publicado em "O Jornal Batista", l8 jan 09, p. 13).

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HEITOR ARGOLO (1923-2008)


Nosso colaborador Rolando de Nassáu enviou-nos de Brasília a seguinte nota de falecimento: "Faleceu em Brasília, na manhã dominical de 20 de julho, o tradutor e regente de obras musicais sacras Heitor Argolo (ver: Dicionário de Música Evangélica, p. 32).

Heitor Teixeira de Argollo nasceu, em 16 de abril de 1923, em Salvador (BA). Jovem, foi trabalhar no Rio de Janeiro. Funcionário da Receita Federal, mediante concurso público, veio para Brasília.

Traduziu e adaptou obras de Bach, Haendel, Mendelssohn, Beethoven, Haydn, Brahms, Saint-Saens e Stainer.

Na década de 50, foi regente do Coro da Igreja Batista em São Francisco Xavier, no Rio de Janeiro (DF). Em 1952, com Levino Ferreira de Alcântara, fundou a Associação Coral Evangélica. Regeu o Coro da ACE carioca (1955-1963).

Em 1956 fez executar, em primeira audição no Brasil, o oratório "A Crucifixão", de Stainer. Apresentou, na íntegra e na língua original, na antiga Escola Nacional de Música, e no Teatro Municipal de Niterói, em 1959, o "Réquiem", de Mozart.

Com este coro, tendo como solista vocal Gláucia Simas Campello e acompanhista Marília Soren, gravou o LP "Seleção de Música Sacra".

À homenagem póstuma compareceram seus amigos Jackson Guedes Ferreira, Aparecida dos Reis Guedes Ferreira, José Júlio dos Reis, Almerindo Gomes, Dercy de Lima Gomes, Déa Lima Gomes, Dilete Pereira de Lima e este cronista.

A Heitor Argolo devem as igrejas evangélicas no Brasil a divulgação, por meio de seus coros, das obras-primas da música sacra".

(Publicado em "O Jornal Batista", 03 ago 08, p. 13)

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Laura Costa Granja (1926-2009)


Nosso colaborador Rolando de Nassau enviou-nos de Brasília a seguinte nota de falecimento:

"Em 21 de janeiro de 2009 faleceu em Brasília a organista Laura Costa Granja.

Procedente da PIB de Maceió (AL), foi admitida, em 11 de maio de 1966, na Igreja Memorial Batista. Imediatamente, assumiu a regência do "Coral Missionário" da Sociedade de Senhoras dessa Igreja.

Com a criação do Departamento de Música, em 1969 foi convidada pelo Pastor Éber Vasconcelos para ser organista nos cultos da Igreja. Por 35 anos (1966-2004) tocou com dedicação e competência o velho órgão "Hammond". Para melhor desempenho em sua importante atividade eclesiástica, Laura graduou-se em música na Universidade de Brasília (UnB).

Em novembro de 1970 acompanhou o Coro em duas apresentações da cantata "Maior amor", de John W. Peterson, sob a regência de Tasso Brasileiro do Vale (1924-2008), recebendo do pr. Éber Vasconcelos caloroso elogio em plena sessão da Assembléia da Igreja.

Em 30 de agosto e 25 de setembro de 1981, em celebradas reapresentações (4ͺ. e 5ͺ.) da cantata de Peterson, atuou como organista, ao lado da pianista Gabriela Gueiros, no Templo Memorial e no Teatro Nacional de Brasília; foram as primeiras grandes execuções musicais da Memorial.

Numa das despedidas de Tasso, em 5 de julho de 1982 o "Coro Memorial", que tinha cantado para milhares de pessoas, desta vez cantou para um punhado de apreciadores do canto coral; Laura, ao órgão, prestigiou seu antigo regente.

Para que os músicos batistas no Brasil, por nosso intermédio, tomassem conhecimento das letras e das melodias dos novos hinos incluídos no "Baptist Hymnal" (1975), Laura intercedeu junto ao renomado pianista Joel Bello Soares, que para nós gravou 22 peças da nova hinodia norte-americana.

Registramos a louvável contribuição de Laura Costa Granja à música-de-culto, a fim de que os organistas nas igrejas batistas no Brasil sigam seu exemplo de seriedade e discernimento no uso do "rei dos instrumentos".

(Publicado em "O Jornal Batista", 08 fev 09, p. 13).

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