NASSAU'S OPTICS ON TOPICS


Recitais e concertos


Música – Nº. 628

O Culto Batista Sopesado em Niterói

Rolando de Nassáu

Não se aperfeiçoa o estilo musical profano que pretende expressar um texto religioso. Um estilo ruim só pode expressar imperfeitamente, mesmo que o texto seja bom.

Sugerido em Berlim (Alemanha) pela Aliança Batista Mundial (World Baptist Alliance) e realizado em Niterói (RJ) pela União Batista Latino-Americana (UBLA), de 15 a 18 de março de 2000, o Primeiro Congresso Latino-Americano Batista de Adoração, teve como conferencistas Thomas Mackey (Argentina), Jorge Aguirre e Samuel Escobar (Peru), Roberto Alves e Fausto Vasconcelos (Brasil), que falaram para batistas procedentes de 18 países. Para falar sobre teologia da adoração, também poderiam ter sido convidados os pastores João Falcão Sobrinho e José Almeida Guimarães.

As palestras, em sua maioria, foram proferidas na língua espanhola (castelhana); parece que não era importante o que os participantes entendiam (racionalmente), mas o que sentiam (emocionalmente).

Os debates previstos no programa, limitados a meia hora, praticamente não aconteceram.

Para cantar, aos congressistas foram oferecidos oito hinos, sendo um do século 18, quatro do século 19 e três do século 20, dos quais somente um escrito e composto por músico brasileiro; além desses hinos, 18 cânticos.

Ainda bem que uma "dança litúrgica" foi preparada por um grupo coreográfico representando igrejas da Convenção Batista Nacional (renovada). O mal perpetrado foi trazer a coreografia para dentro da Convenção Batista Brasileira (tradicional).

À noite de 15 de março, foi exibido o video-tape "Batistas em adoração", com aspectos da conferência de Berlim. Os congressistas não tomaram conhecimento dos ensaios escritos por M.J.Quicke e Milburn Price para a Comissão de Culto da ABM reunida em Hong Kong.

Reparem que, depois do Congresso de Niterói, aumentou a pressão favorável à introdução da coreografia no culto batista brasileiro.

Foram exibidas amostras de culto e apresentados estilos que poderão modelar o culto das igrejas batistas na América Latina; numa técnica de "merchandising", os estilos contemporâneo e renovado levavam vantagem sobre o culto tradicional. Como está muito diluída a identidade denominacional, não será surpreendente encontrar igrejas "tradicionais" praticando o modelo renovado e executando música pentecostalizante, mesmo fora do movimento pentecostal.

Estavam previstas 25 oficinas, mas várias foram canceladas porque os palestrantes não compareceram.

Assistindo à apresentação dos estilos modeladores de culto, é provável que tenha mudado a opinião de muita gente a respeito das formas, ritmos e instrumentos musicais apropriados ao culto divino. Se isto aconteceu, o Congresso teve êxito; ele pode ter tido exatamente a função de facilitar a mudança de atitude no culto.

Mas a nossa opinião não mudou: embora sejamos feitos de barro, devemos servir a música de louvor a Deus em salvas de prata! (Salmo 12:6). Se a forma, o ritmo e o instrumento não forem purificados, expurgados de conotações profanas, a música não é digna de Deus. Infelizmente, muitos dirigentes de culto não entendem nem percebem a diferença entre os estilos sacro e profano (vejam Ezequiel 42:14-20).

Para as tardes de 16 e 17 de março, foi imaginada uma "musikfest"; não entendemos porque usar uma palavra alemã para designar um festival de música dentro de um congresso latino-americano ...

Refletindo sobre o que viram e ouviram, os congressistas de Niterói, em sua declaração final, reconheceram a existência da atual diversidade nas formas de expressão da fé e da adoração nas igrejas batistas da América Latina e manifestaram sua preocupação com a transformação, com muita freqüência, do culto em "show"; a clericalizacão do culto; a informalidade excessiva; a improvisação, a desarmonia e a desarticulação entre as partes do culto; a hipertrofia dos "períodos de louvor" nos cultos, em detrimento da ministração da Palavra de Deus; e a focalização do culto na pessoa humana, no seu prazer e divertimento.

Lamentavelmente, após o Congresso não houve repercussão neste semanário denominacional de suas teses e conclusões; ninguém (nenhum ministro de música) se deu ao trabalho de comentar o Congresso de Niterói.

No seio das igrejas a influência foi prejudicial, pois o que temos observado, desde março de 2000, é a proliferação dos grupos coreográficos e a difusão da música de índole profana (até mesmo em igrejas consideradas conservadoras em matéria de reverência), em virtude da irresponsabilidade ou do despreparo de seus ministros de música.

Quem sabe se um outro congresso de adoração, limitado às igrejas filiadas à Convenção Batista Brasileira, e com maior participação de ministros, diretores e professores de música (tendo em vista sua excepcional oportunidade na orientação dessas igrejas), teria a vantagem de debater, com seriedade e em profundidade, o culto batista?!

(Publicado em "O Jornal Batista", 17 set 2001, p. 9).

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Música – Nº. 629

Crônica Carioca

Rolando de Nassáu

" ... Ridentem dicere verum / Quid vetat?" (Quintus Horatius Flaccus)

Ao entardecer, num dia de outubro, quando repousávamos no Rio de Janeiro, saindo do metrô em Copacabana e tomando um ônibus em direção ao Leblon, tivemos, alguns minutos depois, uma experiência inusitada: dois jovens, fantasiados e mascarados, propuseram-se a oferecer um "show" dentro do ônibus. Para os cariocas já é comum ouvir as mensagens publicitárias decoradas por vendedores de doces, salgadinhos, canetas, brinquedos, agulhas, etc. e os pedidos de idosos, surdos, cegos e deficientes físicos. Mas os jovens nada pediam, mas ofereciam poesia, música e coreografia.

Um deles, vestindo uma roupa azul com estrelas prateadas, tendo na cabeça uma cartola verde e amarela, declamava versos alusivos às regiões do Brasil, cada qual com o sotaque regional, mostrando as maravilhas e as mazelas de cada uma delas, enquanto dançava nos ritmos característicos do Norte e do Nordeste, do Sudeste, do Sul e do Centro-Oeste.

O "show" poético-coreográfico por vezes assumia o caráter de espetáculo circense: o rapaz pendurava-se nos corrimões ou dava cambalhotas nos corredores do ônibus.

O outro, mais comportado, além de declamador de poetas clássicos e modernos, no entreato tocava numa flauta transversa o "Cântico da Vitória" (Villa-Lobos ?) e "Jesus, alegria dos homens" (Bach); seu enfoque discursivo estava, não nos problemas brasileiros, mas sobre a situação internacional: terrorismo, violência urbana, globalização, etc.

Os jovens tinham o senso do tempo e da paciência dos passageiros: não os incomodaram por mais de 20 minutos (em nossas igrejas, os espetáculos duram quase uma hora) e saíram, sem aplausos, agradecendo a atenção dos que gostam de programas de auditório, pedindo desculpas aos que não estavam interessados na exibição de seus talentos artísticos e rogando as bênçãos divinas sobre os que prosseguiriam na viagem ... Então, vieram da parte traseira do ônibus recolhendo as generosas ofertas dos involuntários expectadores ... Quando por nós passaram, pudemos ver a cartola recheada de cédulas de um, cinco e dez reais ... Em tão pouco tempo, ofereceram entretenimento e prometeram paz entre os homens ...

Foi uma experiência menos traumatizante do que aquela passada numa viagem de Brasília a Curitiba, quando na madrugada um assaltante ordenou a uma passageira que viesse da parte traseira do ônibus recolhendo as ofertas dos outros viajantes, em troca de um susto ...

Saindo da letargia provocada pelo indesejado espetáculo, surgiu-nos uma sugestão à Junta de Missões Nacionais: colocar duplas nos ônibus urbanos, que, usando também poesia, música e coreografia, falem da maior necessidade de que se ressentem as regiões do Brasil: o Evangelho. Como diria Horácio, quem pode impedir que, falando a verdade, alguém faça rir?

Certamente, a Junta dispõe de jovens talentosos e desinibidos para entrar nos ônibus e pregar o Evangelho. Pois, nas igrejas, bastam os testemunhos dos missionários durante os cultos para reacender o ardor dos crentes, que, no decorrer do ano, vai se apagando, como pode ser constatado pelas minguadas contribuições mensais para o Plano Cooperativo destinadas à Junta de Missões Nacionais.

Há mais uma oportunidade de servir: nos ônibus!

(Publicado em "O Jornal Batista", 19 nov 2001, p. 4).

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Música - Nº. 630

Ralph Manuel na Memorial

Rolando de Nassáu

"A arte alcança sempre a finalidade que não tem" (Otto Maria Carpeaux)

Precedendo o culto dominical noturno de 02 de setembro, na Igreja Memorial Batista, o compositor, arranjador, professor e pianista Ralph Manuel ofereceu um recital tocando 14 de seus arranjos para hinos e cânticos evangélicos.

Em 1990, Ralph Manuel (ver: "Dicionário de Música Evangélica", p.114) contribuiu para o "Hinário para o Culto Cristão" com 14 harmonizações, 13 músicas e 8 arranjos, e para o "Novo Cântico" (hinário presbiteriano) com 13 peças musicais.

Até mesmo os católicos da Renovação Carismática adotaram um arranjo de Ralph Manuel (ver: "Louvemos o Senhor", nº.631).

Temos restrições ao uso de arranjos e preferimos as composições originais.

Composição significa música, criada para um solista ou conjunto, e registrada, da primeira à última nota, na partitura. A música de concerto, até a invenção da música aleatória, na década 50 do século passado, esteve submetida à rigidez do texto composicional.

O prazer do arranjador é improvisar, e escapar da partitura ... O arranjo, em parte, é uma limitação da liberdade de improvisação. Por outro lado, o arranjo incentiva o instrumentista a improvisar na execução musical. Para o leigo, não é fácil saber se o executante está improvisando ou obedecendo ao arranjo.

Fazer arranjos de hinos, para piano solo, é tomar a liberdade de improvisar sobre esses hinos, é modificar melodias e ritmos dos hinos, é alterar a estrutura harmônica dos hinos. O arranjo não tem a finalidade de servir ao culto, mas a de servir-se dele. Tocar hinos é atividade apropriada ao culto (música litúrgica); tocar arranjos é exibição virtuosística adequada a um recital (música artística). Um CD com arranjos de hinos é para ser ouvido, como música de entretenimento, na residência, no trabalho, no automóvel, nunca no templo. Infelizmente, algumas pianistas tocam arranjos de hinos durante os cultos nas igrejas.

Como arranjador, Ralph Manuel é mais convincente do que Roger House e John Boud, e muito mais circunspecto e conspícuo do que Mark Hayes.

Como pianista, neste recital demonstrou ser incomparável entre os poucos virtuoses norte-americanos que tocaram no "Essenfelder" da Memorial (Suzanne Agan, Max Lyall, Mark Hayes); não é necessário pormenorizar as suas perfeições de técnica pianística; suas execuções, baseadas na limpidez do fraseado e naturalidade da expressão, se revestem duma sinceridade muito evidente.

Além disso, Ralph Manuel possui uma qualidade especial: a inteligência na organização do programa de seu recital, que resulta na seriação lógica das peças dentro das temáticas escolhidas; e o intenso labor didático como professor de Composição no Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil não compromete a livre manifestação artística do recitalista.

Apresentado à Memorial por Jílton Moraes, seu parceiro em muitos hinos, Ralph Manuel tocou as seguintes peças: l)"Adoração", melodia atribuída a Louis Bourgeois, constante de "Psaumes octante trois de David" (Saltério de Genebra, 1551), CC-8; 2) "Santo, santo, santo", melodia "Nicaea", de John Bacchus Dykes, ("Hymns Ancient and Modern", 1861), CC-9; 3) "Ao Deus de Abraão", melodia hebraica, transcrita por Meyer Lyon, CC-14; 4) "O poder do sangue", melodia "Power in the blood", de Lewis Edgar Jones ("The World Evangel", 1913), CC-89; 5) "Louvai", melodia "Joyful song", de Chester G.Allen ("The World Evangel", 1913, nΊ.65, e "The Popular Hymnal", 1918, no.258), CC-126; 6) "Voz de ternura", melodia "Great physician", de John Hart Stockton (1869), CC-225; 7) "Castelo forte", melodia "Ein feste Burg", de Martin Luther ("Geistliche Lieder", 1529, Joseph Klug), CC-323; Lutero, quando escreveu e compôs este hino, num ambiente crítico, estava deprimido e doente; tímida, angustiada e sombria, esta parece ser a interpretação fiel do hino, e não intrépida, irrestrita e reluzente, como ocorre na grande maioria das execuções congregacionais e corais; esta tem sido nossa opinião desde 1962; a versão rítmica original está consignada no "Handbook to The Baptist Hymnal", 1992, p.81; 8) "Fonte és Tu de toda bênção", melodia folclórica introduzida no "Repository of Sacred Music" (1813), de John Wyeth, HCC-17; 9) "Guia, ó Deus, a minha vida", melodia galesa aproveitada em 1907 por John Hughes, HCC-42; 10) "Vós, criaturas de Deus Pai", melodia "Lasst uns erfreuen", extraída do hinário católico de Ausserlesene (1623), HCC-224); 11) "Adorem o Rei", melodia "Lyons", atribuída a Johann Michael Haydn, HCC-233; 12) "Santo és Tu, Senhor", melodia "Heilig", de Franz Schubert (1827), HCC-239; 13) "Ele é exaltado", cântico de Twila Paris; 14) cântico não identificado.

Por nós, Ralph Manuel é mais apreciado pelo "Aleluia" (comparável ao de Randall Thompson) e pelos hinos "Oh, quanto, quanto nos amou!" (HCC-125), "Ó Senhor, vem me dirigir!" (HCC-212) e "Aceita, agora, Senhor, meu Deus" (HCC-241). Mas nada impede considerá-lo como o mais hábil arranjador batista da atualidade.

(Publicado em "O Jornal Batista", 10 dez 2001, p. 4).

04 set 2001

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Música – Nº. 676

Recitais e gravações

Rolando de Nassáu

Freqüentadores assíduos da agenda de nosso site (http://www.abordo.com.br/nassau/agenda.htm">, a pianista Mirian Esteves e o violoncelista Fábio Soren Presgrave apresentaram-se em recitais no Rio de Janeiro.

Mirian Esteves fez o curso de música do STBSB e foi ministra de música da Igreja Batista do Calvário (São Cristóvão, Rio de Janeiro, RJ) e da Igreja do Aeroporto (Macaé, RJ). Leciona em cidades do interior fluminense e participa dos projetos "Arte sem Barreiras" e "Very Special Arts", patrocinados pela Fundação Nacional de Artes (FUNART). Sofre de deficiência motora (não tem antebraço e mão esquerda), mas participou eficientemente de congressos de músicos batistas. No fim de 2003, foi lançado um CD promocional, com outros artistas deficientes, visando à sua inclusão no mercado de trabalho, a nível internacional.

No recital de 30 de outubro, no salão térreo da sede da "Petrobrás" (centro do Rio de Janeiro), Mirian tocou música popular brasileira. Estavam presentes o pastor Marcelo Ramos Tenório Cavalvanti e Gilca Veloso. "Odeon", de Ernesto Nazareth (19l0), um tango bem brasileiro, disfarce do maxixe, serviu para exibir a brejeirice do seu toque peculiar; no choro "Tico-tico no fubá", de Zequinha de Abreu (1917), ela demonstrou seu senso rítmico, e na canção "Eu sei que vou te amar", de Tom Jobim (1959), deslizou romanticamente pelo teclado; terminou vibrantemente com "My Tribute", de Andrae Crouch, música do no.422 do HCC. O público ficou encantado e admirado com sua arte, que não encontra resistência até entre os mais céticos quanto à potencialidade humana.

No recital do violoncelista Fábio Presgrave, realizado em 07 de novembro, no auditório da Praça da República (centro carioca) e transmitido pela Rádio MEC, foram apresentadas peças de música erudita.

Fábio estudou na UNI-RIO e na "Juilliard School of Music", New York, USA (ver: OJB, 04 mai 03, p.4). Desde o princípio de 2003, é o 1º. violoncelista da Orquestra Sinfônica Brasileira.

Juntamente com o violinista David Guedes, "spalla" da OSB, executou, de Villa-Lobos, "Choros Bis" (1928), e, de Haendel, a "passacaglia" do nº.7 das "Suítes de Pièces pour le Clavecin" (1720), adaptada por John Halvorsen para duo (violino e violoncelo); no "Choro Bis", eles aumentaram a sonoridade; na "passacaglia", tocaram afinadamente dentro do ritmo handeliano.

Produzido por Daniel Moraes, foi lançado no início de 2003 pela Igreja Batista Imperial (Recife, PE), o CD "Expressando o melhor louvor", no qual sobressaíram as composições musicais de Sueudo Fernandes, Libna Vilarinho e Demas Júnior, um arranjo de Mônica Freitas, o canto da soprano Dhijana Almeida, do tenor Emerson Bandeira e do baixo Daniel Moraes.

Das 14 faixas do CD, destacamos as seguintes: 1) "O Senhor é a minha Rocha", de Sueudo Fernandes, por coro acompanhado pelo pianista Ralph Manuel e pelo tecladista Daniel Moraes; 2) "O bem a todos", de Jilton Moraes-Ralph Manuel, com coro infanto-juvenil dirigido por Anaíde Alves; 3) "Chuvas de bênçãos", arranjo do hino em estilo nordestino (em 1890, Salomão Ginsburg teria substituído a música de James Mc Granahan ?); 4) "Pai Nosso", de Libna Vilarinho; 5) "Meu Salvador", de Demas Júnior, solo vocal de Emerson Bandeira; 6) "Uma canção de amor", de Ralph Manuel, solos vocais de Dhijana Almeida e Daniel Moraes.

Essas peças do CD certamente aprimorarão o repertório musical da Igreja Batista Imperial e de qualquer outra igreja cristã no Brasil.

Gravado, ainda em 2003, em Porto Alegre (RS), o CD "A Bíblia cantada" contém composições de Denise Corrêa de Souza Frederico, elaboradas para que "o povo cristão brasileiro cante mais versos bíblicos nos seus cultos". Denise Frederico usa ritmos populares para que ele se expresse "com maior brasilidade".

Das 15 faixas, recomendamos as seguintes: 1) "Fé, esperança e amor"; 2) "Recebereis poder"; 3) "O Senhor é o meu pastor" (melodia cativantemente brasileira); 4) "Tu és eternamente Deus"; 5) "Invoca-me, e te responderei"; 6) "Pai Nosso"; essas têm condições de execução num culto; as demais são música para entretenimento.

Não fosse a boa qualidade das melodias de Denise Frederico, os arranjos de Alexandre Paz e o acompanhamento instrumental na maioria das faixas teriam posto a perder toda a produção do CD. Mais uma vez, manifestamos nossa opinião: o arranjo deforma a obra original (ver: OJB, 05 out 03, p.4).

(Publicado em "O Jornal Batista", 01 fev 2004, p. 4).

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Música – Nº. 679

A música da "Paixão"

Rolando de Nassáu

O "Libertador Evangélico", então publicação oficial (1962-1964) da Convenção Batista do Distrito Federal, foi o primeiro periódico batista a ter uma seção de cinema; teve sete edições; exercíamos a função de diretor; o golpe de 64 interrompeu nossa carreira de crítico de cinema, agora retomada ...

Realizamos o primeiro recenseamento dos Batistas do DF entre novembro e dezembro de 61; pelos 200 questionários devolvidos, ficamos sabendo que cinco homens e sete mulheres declararam freqüentar os três cinemas existentes no Plano Piloto de Brasília; não sabemos se foram excluídos de suas igrejas ...

Publicamos críticas aos filmes "Para todo o sempre" (biografia de um pastor), "Rei dos reis" (biografia de Jesus), "O pagador de promessas" (um personagem era protestante), "Assalto ao trem pagador" (Eliézer Gomes, protagonista, era membro da I.B.de Madureira), "Martinho Lutero" (proibido pela Igreja Católica no Brasil), "A Bíblia" (um filme seriado), "Pôncio Pilatos", "Um Rei em Nova Iorque" e "O profeta de Tecoa" (um filme batista premiado com o "Oscar" por ter sido o melhor filme baseado em história bíblica).

Mudou muito o ambiente cultural e social dos Batistas no Brasil, pois em março boletins, pastores e igrejas incentivaram a ida aos cinemas e na quinzena seis pastores publicaram em OJB artigos sobre o filme "A Paixão de Cristo".

É um relato das últimas 12 horas da vida de Jesus; não é um filme religioso, mas seu conteúdo é religioso. Mel Gibson, o diretor, já realizou filmes históricos de guerra, nos quais foi exposta com realismo a violência humana, que na "Paixão de Cristo" é exacerbada. O pastor Edvar Gimenes de Oliveira viu no filme "um festival de barbáries contra Jesus, desproporcional à acusação e incom- patível com o bom senso". Infelizmente, em nossos dias e em nosso meio, há pessoas sofrendo este tipo de flagelo moral.

O filme apela para o aspecto chocante (talvez para despertar o homem contemporâneo de sua característica insensibilidade) e coloca um dilema terrível (aceito ou rejeito o sacrifício de Jesus?), que pode ser intelectual ou espiritual; no caso de Pôncio Pilatos, político.

Mel Gibson é experiente na arte cênica e habilidoso na técnica cinematográfica, ajudado por um esmerado "imprint" fotográfico; seu minucioso "screenplay" aproxima-se do relato bíblico. Ele centrou no sofrimento de Jesus; as cenas de grande impacto emocional estão situadas no julgamento, flagelação e crucificação; poucas cenas foram reservadas para a ressurreição, que constituiriam a explicação "teológica" da história. No início, ele usa uma linguagem artística medieval; no resto da película, falam mais alto a brutalidade e a crueldade contemporâneas, fáceis de ouvir em New York, Los Angeles, Rio de Janeiro e São Paulo; o resultado limita-se ao aspecto visual e ao propósito espetacular. Do pontode-vista dramático, são decepcionantes as atuações de Pedro, João e Maria.

A revista "ÉPOCA" observou que "filósofos e teólogos, pintores e escultores, escritores e cineastas fizeram do relato da vida de Jesus uma espécie de espelho", mas esqueceu-se dos compositores ...

John Debney compôs a trilha sonora, onde predominam os instrumentos; intencionalmente, não quis compor uma partitura alusiva à época de Cristo. Em sua juventude, estudou guitarra e tocou em bandas de "rock".

Preferimos a arte dos sons à das imagens, mas não a de Debney; alguns "espectadores" disseram que prestaram mais atenção à música; talvez para esquecer as cenas de horror ou procurar a fugidia linha melódica do filme ...

As mais importantes faixas de Debney são: l) "Pedro nega Jesus"- há um vozerio indiscriminado; a música deveria ter frases contrastantes; na "Paixão" de Bach, acompanhando a ária para contralto, que comenta a negação, o violino, numa das mais belas melodias, expressa o remorso de Pedro; 2) "Levando a cruz" – música processional que vai marcando os tombos de Jesus; deveria expressar a idéia de que a cruz é fonte de graça e felicidade, e não de murmuração; Bach usou uma ária, "Komm, susses Kreuz", em que o baixo-solista parece estar olhando para a pintura de El Greco, "Jesus abraçado à cruz"; 3) "Levantando a cruz" - Debney captou a gritaria dos espectadores da crucificação e o som dos tambores dos soldados; Bach preferiu um recitativo, no qual o contralto manifesta a sua indignação ante a visão do Gólgota; 4) "A descida da cruz" - Debney enfatiza a perplexidade da multidão face ao terremoto; num coral, Bach põe na boca do crente uma súplica ao Salvador: que seja sustentado por Jesus quando chegar o dia de sua própria morte !

Convictos de que "a fé vem pelo ouvir" (e não pelo ver), pretendemos, na próxima "Semana Santa", ouvir a música da "Paixão" de Bach, que torna a de Debney um ruído da "New Age" ...

(Publicado em "O Jornal Batista", 02 mai 2004, p. 4).

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Doc.JB-682

2º. Encontro de Quartetos Masculinos

Rolando de Nassáu

Em meados do século 20, depois de mais de um século de silêncio, voltaram aos palcos de concertos os quartetos vocais, mistos ou masculinos.

Nos EUA, depois da Segunda Guerra Mundial, nas igrejas evangélicas, começando nas pentecostais e infiltrando-se nas batistas, surgiram quartetos que rivalizavam entre si, na complexidade de suas linhas vocais e na extravagância de suas interpretações. Inicialmente, o canto era sem acompanhamento instrumental; depois, alguns quartetos usaram instrumentos para criar uma base rítmica; as canções tenderam a tornar-se similares e repetitivas.

No Brasil, especialmente no Rio de Janeiro, na década de 50, destacaram-se dois quartetos vocais femininos: o "Fanny Crosby" (composto em 1948 por Lovie e Eudora Pitrowsky, Diglée de Freitas Barbosa e Dylce de Oliveira; em 1956, as duas últimas foram substituídas por Susie e Wilsênia Salles) cantava Bach e Haendel; e o "Primavera" (organizado em 1953, compunha-se de Ausma Augstroze, Elza Lakschevitz, Maria Ignez Rossi e Miridan Paranaguá Zander) cantava canções folclóricas e "negro spirituals".

Em Brasília, o Congresso Batista das Uniões de Treinamento (CONBAT) realizou, em 08 de dezembro de 1962, o 1º. Desfile de Conjuntos Vocais (coros, pequenos conjuntos e quartetos) das Igrejas Batistas do Distrito Federal.

Depois de 40 anos de silêncio, neste início do século 21 há um crescente movimento de organização de quartetos vocais nas igrejas evangélicas no Brasil.

Num sábado à noite, em 29 de maio, realizou-se, em Brasília, o 2º. Encontro de Quartetos Masculinos, que contou com a participação de quatro quartetos, procedentes de Serra (ES), Rio Verde (GO), Brasília (DF) e Uberaba (MG), e do conjunto vocal hospedeiro.

Para um auditório repleto, cantaram peças da hinodia; para nosso desagrado, ouvimos duas peças de música profana.

O Quarteto "Manancial" (Serra, ES) cantou, a cappella, "Segurança" (HCC-417, CC-375), um "gospel hymn" (1873); com play-back, "Meu Deus e Eu", "Eu tenho paz" e "Água viva", canções do estilo "country gospel".

O "Gileade" (Rio Verde, GO), sempre com pb, as canções, também no estilo "country", "Sou feliz", "Jonas", "Jesus estendeu a Sua mão" e "Lar além do rio", dando relêvo ao aspecto performático de suas apresentações.

O "Agnus" (Brasília, DF) cantou, com pb e piano, "Um vencedor" (Jáder Santos); com pb, "Preciosa graça" (Bill Gaither); com piano, "Sozinho alí caminhou" (Samuel Santos); a cappella, "Sê feliz" (Michael Blanchard); foi o quarteto mais eficiente.

O "Adoração" (Uberaba, MG), sempre com pb: "Grandioso és Tu" (Carl Boberg), "Prostrado aos Seus pés" e "He touched me" (Bill Gaither). Lamentavelmente, colocou letra religiosa na música profana de Ernest Gold, que serviu de tema ao filme "Exodus", dirigido em 1960 por Leon Uris.

O hospedeiro, Conjunto "Shalom", foi do "negro spiritual", passando pela ópera, até a hinodia contemporânea, para demonstrar seu repertório eclético. O melhor número foi "Were You There?", cantado, com acompanhamento de piano, "with deep emotion"; seguido, quanto à sobriedade na execução, dos hinos "Rude cruz" (George Bennard) e "Olhai além" (Jimmy Owens). Mais lamentável foi dar o título "Feliz serei" a uma letra profana da ópera "Tannhauser", de Richard Wagner, escrita para coro, não para quarteto, que descreve uma cena idolátrica: a personagem ajoelha-se e reza diante da imagem da Virgem Maria ... Feita uma adaptação, o "Shalom" poderia ter aproveitado um quarteto vocal da cantata "Dem Gerechten muss das Licht" (BWV-195), de J.S.Bach.

Neste Encontro ficaram bem evidentes quatro defeitos: 1) o alto volume de som produzido pelo sistema de amplificação sonora do auditório; alguns números do concerto ficaram prejudicados quanto ao entendimento das letras que estavam sendo cantadas; 2) a utilização de instrumentos musicais; basicamente, o canto de um quarteto, para ser devidamente apreciado, vale como ele canta; 3) o uso de pb por alguns dos quartetos; 4) o propósito performático de alguns dos cantores; o que se espera é que tenham individualmente afinação e potência vocal; coletivamente, coordenação, apesar da complexidade das vozes.

Neste registro, louvamos a iniciativa, renovada em 2004, tomada pelo "Shalom", de estimular o canto dos quartetos evangélicos.

(Publicado em "O Jornal Batista", 01 ago 2004, p. 4).

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Doc.JB-685

Coral "Eclésia" em Taguatinga

Rolando de Nassáu

Especialmente convidado para as comemorações do 42o. aniversário da Igreja Batista Central de Taguatinga, situada numa cidade-satélite distante 20 quilometros de Brasília, o Coral "Eclésia", da Primeira Igreja Batista do Rio de Janeiro, apresentou-se nos dias 09 e 10 de outubro, com um excelente programa sacro.

A igreja, fundada por João Francisco Santiago e Edístio Carlos Fernandes, elegeu em junho de 1963 seu pastor titular efetivo Jessé Moreira, que tinha sido membro da PIB-RJ e pastor da Igreja Batista da Gambôa, também no Rio de Janeiro.

Depois de 18 horas de penosa viagem de ônibus, o coro chegou a Brasília, pouco antes da hora marcada para a primeira apresentação, em condições desfavoráveis para uma performance comparável à dos "Centurymen", que cantaram na Memorial em 1977 e 1998, e à dos "Singing Men of Texas", em 1982, mas o seu programa exibiu nítida superioridade estilística.

De Alessandro Stradella (1644-1682), Daniel Presgrave cantou, em italiano, "Pietá, Signore", uma página do repertório de Enrico Caruso e Luciano Pavarotti, o que dá idéia da exigência que ela faz à voz do tenor; mas o que importou na sua execução foi não constar a letra no folheto do programa, não permitindo que o auditório acompanhasse e entendesse o que estava sendo cantado; um concerto de música sacra, realizado num ambiente de igreja, deve ter o propósito primordial e principal de transmitir a mensagem contida na letra cantada; isto vale se ele canta no vernáculo ou em idioma estrangeiro, acompanhado ou não por uma orquestra; numa salade-concerto, talvez baste ter o de exibir os dotes vocais do solista. Stradella, compositor profano, não merecia figurar entre compositores de música religiosa.

De Johann Sebastian Bach (1685-1750), o Coral "Eclésia" interpretou "Tudo que vive, exalte ao Senhor!", parte final do moteto "Cantai ao Senhor um novo cântico" ("Singet dem Herrn ein neues Lied" – BWV-225); o trechou começa com recurso antifonal e termina, com fuga a quatro vozes, na palavra "Aleluia".

De Georg Friedrich Haendel (1685-1759), ouvimos o trecho nΊ.37, "A Deus cantai louvores!" ("Sing unto God"), do oratório "Judas Macabeus" (HWV-63); introduzido pelos contraltos e pelos tenores, o coro desenvolve alegres vocalises. Ainda de Haendel, um dos hinos, compostos em 1727, para a coroação do rei George II.

De Joseph Haydn (1732-1809), três trechos do oratório "A Criação" ("Die Schopfung"): "Soai as cordas!" (nº.11 – "Stimmt an die saiten!"); "Terra e Céu, dai-Lhe glória" (nº.28 – "Dich beten Erd und Himmel an") e "Cantemos todos ao Senhor!" (nº.31 – "Singt dem Herren alle stimmen!"); o nº.11 é adaptação do estilo de Haendel: introdução em uníssono, que se transforma numa fuga, a partir de "pois revestiu o céu e a terra" ("denn er hat Himmel und Erde bekleidet").

Rivalizando com Renay Peters, solista eventual dos "Centurymen", de maneira bela e apropriada no uso da dicção e da expressividade a soprano Layd Mendonça executou o "Aleluia" do moteto "Exsultate, jubilate" (KV-165), de Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791); foram três minutos de alegre virtuosidade.

De Felix Mendelssohn Bartholdy (1809-1847), o coro interpretou "Oh, não temas!" ("Furchte dich nicht!"), nº. 22 do oratório "Elias" (opus 70); precedido por bela ária para soprano (Lídia Santana), o trecho reflete sobre a capacidade divina para transmitir fortaleza à alma humana.

De Johannes Brahms (1833-1897), o trecho "Quão lindos são Teus átrios, Senhor!" ("Wie lieblich sind Deine wohnugen!"), do "Requiem Alemão" ("Eindeutsche Requiem"); o assunto vigoroso teve um acompanhamento alegre pela competente pianista Regina Lacerda, que vale por toda uma orquestra.

A experimentada regente Anna Campello Egger foi buscar na "negro spiritual song" uma famosa peça coral, inicialmente arranjada por J.Rosamund Johnson, agora em arranjo de Robert De Cormier, "Hallelujah", com os versos "Lord! I been down into the sea", para demonstrar que o "Eclésia" também é capaz de interpretar, com "swing" e "deep emotion", o sentimento folclórico.

De Júlio de Oliveira (1908-1967), um dos seus salmos para solo vocal, o "Salmo 23", foi eficientemente executado pelo tenor solista Jefferson Dias, que teve uma postura sóbria, uma dicção límpida e uma interpretação adequada.

Certamente, graças a Anna Campello Egger e Regina Lacerda, aos solistas e coristas do "Eclésia", a Igreja Batista Central de Taguatinga, bem orientada pelo seu ministro de música, José Orlando Teixeira Pinto, ouviu "algo" da melhor música sacra de todos os tempos !.

(Publicado em "O Jornal Batista", 07 nov 2004, p. 4).

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Doc.JB-694

3º. Encontro de Quartetos Masculinos

Rolando de Nassáu

Num sábado à noite, em 28 de maio, realizou-se, em Brasília, o 3º. Encontro de Quartetos Masculinos, promovido pelo Conjunto Vocal "Shalom" e organizado por Davi de Souza Lima. O 2º. Encontro aconteceu em 29 de maio de 2004 (ver: OJB, 01 ago 2004, p.4). O Primeiro (27 de setembro de 2003) trouxe os quartetos "Louvor e Adoração", "Gênesis", "Luzes do Alvorecer", "Mensageiros da Paz" e "Palavras de Vida". Em 2005 vieram a Brasília os quartetos "Atalaias do Rei" (Rio de Janeiro, RJ), "Mensageiros da Paz" (Goiânia, GO), "Ellus" (Anápolis, GO) e "Gileade" (Rio Verde, GO); os goianos exibiram um sotaque estilístico, mesmo cantando em consonância com a fala característica de Goiás: é o estilo ou a síndrome da "west frontier".

Iniciando e concluindo o concerto, um grande coro masculino, formado por 120 coristas, pertencentes a sete igrejas evangélicas de Brasília, Taguatinga e Sobradinho (DF), cantou "Divino preceptor" (Strattner) e "Comunhão divina" (Monk), sob a regência de Albano Sílvio de Freitas. O primeiro número, solene, é uma das 66 composições musicais elaboradas por Strattner para os poemas de Neander, publicadas em 1691. O segundo, composto 200 anos mais tarde, também caracteriza-se pela solenidade de sua letra e de sua melodia, reconhecida pela comissão do hinário "Hymns Ancient and Modern". Ambos, são hinos de cunho enérgico, próprio para vozes masculinas, das quais é exigida a afinação vocal e a segurança ritmica, independentemente da "high energy" do conjunto. Após o interlúdio, o grande coro interpretou "Oração a Jesus", de Clancy, de estilo diferente dos hinos de Strattner e Monk.

O carioca "Atalaias do Rei", acompanhado pelo piano, executou "Graça de Deus"(HCC-291), "Jesus, Senhor" e "Paz"; a cappella, "Estou preparado". Irregularmente afinado, o quarteto saiu-se melhor, cantando num "spiritual style", na peça "Estou preparado". Mas precisa ter um preparador vocal ...

O goianiense "Mensageiros da Paz", sempre usando "play-back", cantou: "Na presença do Senhor", "Testemunha de amor", "Brilhe em mim" e "Cristo é o Salvador". O acompanhamento instrumental, pré-gravado, alterou o estilo musical do hino (HCC-165) e do cântico "Testemunha de amor", tornando-os muito vulgares; foi o canto saltitante de música quase galopante, apropriada a um "saloon".

O anapolino "Ellus", a cappella, cantou "Guerreiros", "Happy Day" (em versão bilíngue), "Amor do Pai" e "A graça eterna". Sucesso de Edwin Hawkins na década de 70, "Oh, happy day!", agora infelizmente restaurado nos "shows" de Rick Muchow realizados na "comunidade" de Rick Warren, contrastou com "A graça eterna", célebre hino de John Newton, que é comovida confissão.

O "Gileade", que tinha participado do Encontro de 2004, veio de Rio Verde (GO) para repetir "Sou feliz" e "Jonas"; ainda com "play-back", apresentou "O Salvador" e "Vencendo vem Jesus". Conta com boas vozes, mas canta como se fosse para exibir solistas, o que desqualifica um quarteto; dá relêvo ao aspecto performático do conjunto e à voz incomum do seu líder.

O hospedeiro, "Shalom" (10 coristas), executou, a cappella, "Mestre, o mar se revolta", de Palmer (HCC-408), e "Feridas", de Jáder Santos, o melhor número do concerto; acompanhado pelo versátil piano de Cláudia Noemi Salgado de Moraes, cantou "Pai nosso", de Malotte.

Fazendo um retrospecto, verificamos que os Encontros têm experimentado um lento progresso. Se o organizador do evento não estabelecer normas para a participação, os quartetos continuarão nos próximos encontros a revelar desvios técnicos e artísticos nos seus repertórios e desempenhos.

Quanto ao repertório escolhido, as peças pertenciam à hinodia, à "spiritual song" e à "gospel song" e ao gênero profano; este, nunca deveria ser executado; "Jonas", peça predileta do "Gileade", pode ser eficiente para agradar ao público menos exigente e estimulá-lo à compra do CD do quarteto, mas não atende ao requisito da música de qualidade.

Quanto à execução, deveria ser sempre a cappella, abolindo o "play-back" (a menos que seja usado um "feedback exterminator") e evitando o acompanhamento instrumental. Para serem autênticos, deveriam executar peças para quatro vozes masculinas (dois tenores, barítono e baixo), extraídas do repertório religioso; exemplos: "Lugar de paz" (Carmichael) e "Calma, mansa, serena" (Jáder Santos).

Cantando a cappella, esses quartetos poderiam explorar, com moderação, a percussão vocal, sem os excessos do "West A Cappella Summit".

A formação do regente coral, que deveria ser praticada no curso de música em qualquer seminário ou faculdade teológica, teria como objetivo incrementar a criação de coros e conjuntos vocais em nossas igrejas. Mas, parece, estão preocupados na proliferação das "equipes de louvor".

Os Encontros em Brasília têm servido para pesquisar e divulgar a música destinada aos quartetos masculinos das igrejas evangélicas, por isso fazemos votos para que continuem e se aperfeiçoem.

(Publicado em "O Jornal Batista", 07 ago 2005, p. 4).

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Doc.JB-695

Barroco na Memorial

Rolando de Nassáu

Pouco antes do início do culto dominical noturno, em 12 de junho, aconteceu, no templo da Igreja Memorial Batista, em Brasília (DF), o concerto de música sacra barroca realizado pelo grupo vocal "perSonare", criado em 2004 por professores da Escola de Música de Brasília.

Alguém poderá estranhar a denominação adotada pelo grupo. A partir de 1535 (século XVI), na Itália, sonata e da sonare começaram a designar uma composição e uma execução instrumental, distintas de cantata e da cantare, que referiam-se ao emprego da voz humana; toccata era música para instrumentos de teclado e cantata, música para vozes; sonata e cantata eram palavras italianas, derivadas de sonare (soar) e de cantare (cantar), respectivamente. Foi Kaspar Kittel quem empregou, em 1638, na Alemanha, pela primeira vez, a palavra kantate; eram usadas as palavras geistliche konzerte e symphonia sacra.

Na Memorial, apresentaram-se as sopranos Lívia Lavorente e Tristana Rossi, as meio-sopranos Malú Mestrinho e Mônica Simões, os tenores André Vidal e Eldom Soares, os baixos Alberto Almeida Júnior e Josué Terceiro, acompanhados por Ana Cecília Tavares (cravo) e Cecília Aprigliano (viola da gamba). O grupo não canta exclusivamente obras do período barroco (1600-1750); no próximo concerto, pretende apresentar obra de Valdemar Henrique (1905-1995). Os comentários de André Vidal elucidaram os ouvintes a respeito das peças do bem elaborado programa.

De Heinrich Schutz (1585-1672), o maior compositor alemão do século XVII, ouvimos o solo "O Jesu, nomen dulce", executado pelo tenor André Vidal; trata-se de uma das peças latinas da segunda coletânea "Kleiner geistlichen concerten", SWV-308, completada em 2 de junho de 1639; é uma oração baseada no hino "Jesus, dulcis memoria", de Bernard de Clairvaux (HCC-316). A outra peça foi "Was betrübst du dich,meine seele?", SWV-353, de 1644, baseada no Salmo 42:5, e pertencente à coletânea "Symphoniae Sacrae" – II; executada, com acompanhamento, por Lívia, Tristana, Malú, Eldom e Alberto. Na escritura vocal de Schutz, as peças deveriam ser executadas no estilo do bel canto.

A terceira "Leçon de Ténèbres" (Lição de Trevas), baseada nas Lamntações de Jeremias (1:10-14), composta em 1717 por François Couperin (1668-1733), utiliza cinco versetos num acróstico (cada verseto é iniciado por uma letra do alfabeto hebraico) para descrever Jerusalém destruída. No dueto (Lívia e Tristana) as seqüencias: 1) "Yod" ou "Jod" – diálogo em emocionante contraponto para afirmar: "Manum suam misit hostis" (Estendeu o Adversário a sua mão); 2) "Kaf" ou "Caph" – há uma intensa expressão para dizer: "Omnis populus ejus" (Todo o seu povo); 3) "Lamed" – que é reforçada na frase "O vos omnes" (A todos vós); 4) "Mem" – no trecho "De excelso misit" (Do alto enviou) é ressaltada a palavra "desolatam" referindo-se à situação de Jerusalém; 5) "Nun" – em "Vigilavit jugum" (O jugo está atado), Jerusalém reconhece não poder resistir aos seus inimigos; na coda, a lição desafia: "Jerusalem convertere" (Converte-te, Jerusalém).

Malú e André executaram o no. 50 do oratório "Messias", de Georg-Friedrich Haendel (1685-1759), "O death, where is thy sting?" (Ó Morte, onde está o teu aguilhão?), HWV-56, com acompanhamento, num dueto que parece um duelo entre o pecador e a morte.

No trecho "Suscepit Israel" (Amparou a Israel) do "Magnificat", BWV-243, de Johann Sebastian Bach (1685-1750), com acompanhamento, Lívia, Tristana e Mônica representaram os filhos de Israel, entrelaçando suas melodias; é uma composição ao mesmo tempo vigorosa e suave. "Freut euch und jubiliert" (Alegrai-vos e festejai) é uma canção natalina que constou da primeira versão (1723) do "Magnificat" (BWV-243-a); foi cantada por Livia, Tristana, Malú e André.

O conjunto vocal cantou, a cappella, o "Kyrie eleison" (Senhor, tende Piedade) da "Missa em si menor", BWV-232, 1749, de Bach.

De Francesco Antonio Scarlatti (1666-1741), irmão de Alessandro Scarlatti, o conjunto cantou, também a cappella, "Exultate Deo".

Ainda a cappella, de Antonio Lotti (1667-1740), executou "Crucifixus", que apresenta uma textura dissonante e estranhas modulações, exigindo reajustes na afinação coral; na frase "sub Pontio Pilato" é ressaltada a palavra "passus" (sofreu).

Finalmente, a cappella, dividido em dois grupos, executou o moteto "Jauchzet dem Herrn" (Celebrai ao Senhor), de Johann Pachelbel (1653-1706), composto com textura homofônica; Pachelbel foi o mestre da música vocal alemã na segunda metade do século XVII.

Os cantores e os instrumentistas executaram suas partes com proficiência invulgar. Além de possuírem belas vozes e firme técnica de execução, sabem escolher o seu repertório, que é de alto nível espiritual e artístico.

Quando teremos em nossas igrejas cantores e músicos com essa competência? Quando os nossos seminários estarão preocupados em formá-los? E quando as nossas igrejas estarão interessadas em ouví-los?

O concerto barroco entrou para a história da Memorial !

(Publicado em "O Jornal Batista", 02 out 2005, p. 4).

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Música – Nº. 704

Expectativas em torno de um quarteto vocal

Rolando de Nassáu

(Dedicado ao leitor Rolands Sture, de São Paulo, SP)

A emissão da voz, para o canto, pode variar não apenas no aspecto timbrico, mas também do ponto de vista fisiológico; na "voz de peito", a emissão é dirigida para baixo, a partir da laringe, como meio de dar substância e sonoridade às notas mais graves; é o que ensina o "Grove", a partir da classificação elaborada no século XIII.

O ensino tradicional de canto é essencialmente um processo qualitativo que usa uma técnica que tem sido passada entre as gerações de cantores. O sucesso deste processo para avaliação da qualidade da voz apóia-se primariamente nos ouvidos e nas habilidades perceptivas do professor, que deve guiar o cantor estudante a uma postura que o torne capaz de produzir o som apropriado. O processo é amparado pelo conhecimento e pela experiência pessoal do professor, demonstrados durante as lições.

A realidade física do processo de produção da voz raramente é descrita, mas pode ser revelada pela tecnologia. O conhecimento da produção da voz humana fez avanços durante o final do século XX, graças à disponibilidade do computador pessoal; as facilidades da mensuração eram encontradas somente nos laboratórios científicos. O processamento de áudio é agora possível em computadores pessoais de multimídia. A utilidade desses recursos para treinamento da voz depende de serem especificados e formatados. A pesquisa quantitativa estabelecerá quais parâmetros mudam durante o desenvolvimento da voz; essa pesquisa revelará as diferenças entre os cantores quando participam de um quarteto vocal.

Um significativo aumento das diferenças pode ser achado apurando-se o número de anos de treinamento e de experiência no canto de cantores masculinos adultos. As diferenças são notadas quando eles cantam e quando eles falam, sendo testados por um laringógrafo. A primeira providência seria submeter os integrantes de um quarteto vocal masculino a uma laringografia, antes de cantarem, por exemplo, "Pequena vila de Belém" (Philip Brooks – Salomão Ferraz) ou "O primeiro Natal" (Ruth See) ...

Cantar num quarteto vocal masculino exige a habilidade de cada integrante ouvir a sua emissão vocal e a dos outros membros do grupo. Uma das naturais conseqüências deste processo de verificação instantânea é o canto afinado, mas o aspecto mais importante do som de um quarteto vocal é a perfeita "mistura" das vozes.

A "mistura coral" é uma função da produção vocal e o efeito da acústica local. Os cantores devem tomar muito cuidado com a amplificação sonora (microfones, alto-falantes, "play-backs", etc.). É necessário que cada cantor adapte sua sonoridade, altura de som e timbre à média do grupo. A adaptação da sonoridade requer a habilidade para controlar o nível acústico; a da altura do som exige uma produção de som afinado; a do timbre é baseada na uniformidade das vogais.

A "mistura coral" depende do treinamento no canto e da experiência na participação num quarteto vocal masculino.

Além do indispensável treinamento e da desejável experiência, o quarteto vocal deve demonstrar capacidade para escolher e executar seu repertório.

Primordialmente, deve selecionar peças de música genuinamente sacra que sejam apropriadas ao conjunto vocal. Temos ouvido quartetos que usam música ostensivamente profana ou falsamente sacra. Isto demonstra o despreparo do dirigente e a cumplicidade dos integrantes do grupo. As peças devem ter sido compostas para quarteto, não para outra formação vocal.

Preferimos que cante a cappella, mas admitimos um acompanhamento discreto pelo piano. Alguns bem conceituados quartetos masculinos ("Cantabile" e "Songfellows", por exemplo) contam com pianistas permanentes (Phyllis Silver e Robert Rogers, respectivamente), o que contribui para a pretendida "mistura coral". O uso de "play-back" prejudica essa "mistura" e desvaloriza o desempenho do quarteto, sob o ponto de vista ético.

O quarteto deve preocupar-se com a amplificação sonora, pois este recurso tecnológico pode tornar-se um pesadelo para os cantores e uma tortura para os ouvintes. Às vezes, o quarteto culpa o sonoplasta pelo insucesso da apresentação.

É muito importante o comportamento do quarteto no palco: deve ser sóbrio, não espalhafatoso ou performático, pois o que vale é a produção sonora.

É revelador da verdadeira intenção do quarteto a sua atitude fora do palco, depois da apresentação: realizada para "louvar a Deus", foi tão mal preparada que na verdade a preocupação maior era a venda dos discos. É justo que, num dia que não seja o Dia do Senhor, e numa ocasião que não seja o culto a Deus, o quarteto veja a premiação de seu esforço. Alguns quartetos (e outros "artistas" evangélicos) percorrem as igrejas para promoção de suas gravações durante os cultos; essa prática confronta e desafia a reação de Jesus no templo de Jerusalém (Mateus 21: 12 e 13; Marcos 11: 15-17; Lucas 19: 45 e 46; João 2: 14-17). O louvor a Deus não se realiza se a apresentação é maculada pelo mercantilismo.

Essas são as nossas expectativas em torno de um quarteto vocal, muito modestas e pouco exigentes; não acha o leitor?

PS – Em 1993, o prezado leitor Rolands Sture, então membro da Igreja Batista Leta de São Paulo (SP), tinha recortados e arquivados 510 dos 540 artigos publicados até aquela data; desde 1954 ele colecionava os nossos artigos; é um dos mais fiéis leitores.

(Publicado em "O Jornal Batista", 02 jul 2006, p. 4).

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Música - Nº. 706

4º Encontro de Quartetos Masculinos

Rolando de Nassáu

(Dedicado ao leitor Jonas Oliveira Santana, do Rio de Janeiro, RJ)

Realizou-se em Brasília, num sábado à noite, em 20 de maio, a quarta edição do Encontro de Quartetos Masculinos, promovido pelo conjunto "Shalom".

Nenhum dos quartetos que se apresentaram em 2005 (JB, 07 ago 05) veio a Brasília para este evento, do qual participaram "Charisma" (Brasília, DF), "Edrei" (Itumbiara, GO), "Sonância" e "Vida Nova" (São Paulo, SP) e "Templo" (Londrina, PR). Uma pequena orquestra, integrada por 15 instrumentistas, coadvou o órgão e o piano no acompanhamento de algumas partituras corais. Um coro, formado por 90 coristas, pertencentes a cinco igrejas evangélicas, cantou algumas peças pouco conhecidas. O programa informava que o coro executaria um "prelúdio cantado" e um "poslúdio cantado"; evidente equívoco, pois "prelúdio" é forma de música instrumental e "poslúdio" é peça musical para órgão.

Em todas as edições do Encontro, os quartetos têm usado música ornamentada; os arranjos ornamentados preterem as obras originais, não somente devido à sua forma de utilização, mas também por causa de cacoetes de execução; o canto se torna um objeto cultural; às vezes é expressão de uma cultura específica, quando os quartetos se revelam meros imitadores de intérpretes de fama internacional ("A Cappella", "The Oak Ridge Boys", "Bill Gaither Trio", "Cathedral", Roger Bennett, "Arautos do Rei"). Nessa música, dirigida não ao culto mas ao entretenimento, é forçoso admitir o "play-back" e a bateria. Mas não podemos deixar de manifestar nosso desapreço, porque o "play-back" não respeita as três condições do canto e da música no culto (integridade, proporção e claridade) e a bateria não contribui para a dignidade do louvor, mas facilita a divulgação do "rock".

O coro cantou o majestoso hino "Louvor ao eterno Deus"; parcialmente satisfatório o desempenho, pois o entendimento do canto dependia de um letreiro eletrônico. "Vontade soberana", título dado à imponente música do organista Alfred Legge para a letra de Adelaide Addison Pollard, singela, cadenciada e solene (HCC-472), teria melhor acompanhamento ao órgão. "Grande amor, sublime, eterno" teve uma execução suficiente.

O conjunto vocal (12 integrantes) "Shalom" executou, a cappella, "Quanto mais O Sirvo", com melhor dicção. Na canção católica "Más allá del sol", atribuída a Emiliano Ponce, cantada no original espanhol, com piano e bateria, temos uma letra alienante e uma melodia vulgar. Na canção "Em nome de Jesus", de Sandi Patti, inspirada no hino "In the name of the Lord", TBH-174, o "Shalom" teve sua melhor execução.

O quarteto "Charisma" cantou, a cappella, "Eu sou feliz", numa execução com entrosamento das vozes, tendo menor rendimento na canção "Deu-lhe água"; ouviu-se um grito na canção "Tu tens de estar pronto"; este episódio de mau gosto ofendeu os tímpanos dos ouvintes mais sensíveis.

O "Edrei" cantou "Graças dou por minha vida" (HCC-419), arranjado pelos "Oak Ridge Boys", tentando imitar esse conjunto de "gospel-rock", que não se classifica entre os quartetos "gospel" e os de MCC. Na canção "Existe um rio" surgiu inopinadamente um falsete; na canção "Cristo salva", divulgada pelo "Cathedral", percebemos a má dicção de alguns solistas.

O "Sonância" escolheu "Tocou-me", divulgada pela "Gaither Vocal Band", usando uma gesticulação exagerada e dando uma interpretação inusitada; no início da década de 80, Gaither era um conjunto "gospel", mas depois aderiu à Música Cristã Contemporânea. "Swing low, sweet chariot", famosa "negro spiritual song" sofreu inúmeros arranjos, inclusive de Elvis Presley; o quarteto paulistano usou o de Hooper; mas os arranjos não contêm o fervor espiritual característico da melodia original. "Achei Jesus", adaptação do hino "Satisfied" (TBH-539), de Clara Williams, recebeu interpretação aceitável.

"Vida Nova" foi o quarteto das surpresas: antes de cantar "Tenho sede", de Bev Lowry, foi surpreendido por uma falha técnica do "play-back"; depois, surpreendeu o auditório com uma galopante "Temos vitória", canção no estilo "country gospel" do pianista Roger Bennett; finalmente, cantou arranjo do hino "Chuvas de graça" ("Harpa Cristã", no. 53) sem poupar o público de um susto de mau gosto. Apesar das surpresas desagradáveis, uma apresentação em geral descolorida; surpreendentemente, recebeu aplausos.

"Templo" foi o mais equilibrado quarteto do 4Ί. Encontro. A cappella, cantou "Há na glória um bom país" e "Jamais se diz adeus"; com "play-back", "Deus nos tem chamado", num arranjo do "Arautos do Rei", que é uma boa imitação das qualidades vocais do "King’s Herald", conjunto adventista que se apresentou num congresso da Aliança Batista Mundial.

Os quartetos participantes possuem boas vozes; em alguns, ficou evidente a falta de "mistura" das vozes, prejudicada pela amplificação sonora; em outros, uma pesquisa quantitativa revelaria as diferenças vocais entre os seus membros.

Houve algum progresso na organização do Encontro e foi saudável a renovação do quadro de participantes; estes precisam ser autênticos.

É inegável a importância dessa iniciativa do "Shalom", ímpar no cenário musical batista brasileiro.

(Publicado em "O Jornal Batista", 06 ago 2006, p. 4).

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Música – Nº. 712

O Concerto de Carolina Frederico

Roberto Torres Hollanda

(Dedicado ao leitor Nilson Dimárzio, de Volta Redonda, RJ)

À noite de uma terça-feira, 29 de agosto de 2006, na Sala "Villa-Lobos" do Teatro Nacional de Brasília, realizou-se a apresentação de Carolina Frederico com a orquestra sinfônica, regida por Sílvio Barbato, para execução do Concerto nº. 2, Opus 64, de Felix Mendelssohn (1809-1847).

Carolina Frederico é filha da pianista Denise Frederico (professora aposentada de Teoria e Percepção Musical da UFRGS) e neta do saudoso casal Loecy Cordeiro de Souza e Jeiel Ferreira de Souza. No Rio Grande do Sul estudou violino com Fredi Gerling e Marcello Gerchfeld. Em 1994, participou do 25º. Festival em Campos do Jordão (SP); em 1995, ingressou na Eastman School of Music (Rochester, NY); em 1999, no curso de mestrado da University of Alberta (Canadá); em 2004, na Canadian Chamber Orchestra; em 2005, na Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional "Cláudio Santoro" (Brasília), como um dos primeiros violinos.

A orquestra é formada por 88 instrumentistas, dos quais três são evangélicos: a violinista Carolina Frederico, o violista Billy Geier (filho do compositor Verner Geier) e a harpista Cristina Carvalho (filha do maestro Emílio de César).

Sílvio Barbato diplomou-se no Conservatório "Giuseppe Verdi" (Milão), na Academia "Chigiana" (Siena, Itália) e na universidade de Chicago (EUA). Desde 1999, é regente titular da orquestra do Theatro Municipal do Rio de Janeiro; atualmente é regente no Teatro Nacional de Brasília. Em 2005 lançou o livro "O Guaraní, canto de guerra, canto de vitória", editado pela Biblioteca Nacional.

Um dos quatro mais importantes concertos para violino e orquestra compostos no século 19, o segundo de Mendelssohn (1844), graças à acessibilidade de seus temas, à feliz mistura de melodia fácil e execução virtuosística, e à simplicidade e refinamento de sua estrutura, goza de enorme simpatia entre executantes e ouvintes que preferem obras de lirismo romântico.

Os jovens violinistas da Alemanha na época não esperavam uma obra tão poética, entretanto Mendelssohn nela atingiu o ápice de sua obra concertística, apesar do seu despojamento. A estréia ocorreu em 13 de março de 1845 na "Gewandhaus" (sala de concertos em Leipzig), tendo como solista o violinista Ferdinand David (1810-1873), a quem o concerto é dedicado; em 3 de outubro de 1847, Mendelssohn pôde ouvi-lo, tocado por Josef Joachim (1831-1907). Mendelssohn, David e Joachim foram meninos-prodígios. Apesar da dificuldade de execução, a obra de Mendelssohn tem sido usada para introduzir jovens na arena da música de concerto. Certas passagens desafiam o solista a exibir sua técnica e revelar seu talento interpretativo. Desde então, o concerto deve sua popularidade ao brilho da parte solista, baseado em sua melodia encantadora; em certos casos, deve o seu sucesso à habilidade expressiva do violinista.

A força da orquestra é suavizada pela ternura do violino. Mendelssohn permite ao solista abrir o concerto, tarefa tradicionalmente atribuída à orquestra.

No primeiro movimento, percebe-se que o violinista transita com seu mágico instrumento entre os ambientes "apaixonado" e "tranqüilo"; sua substância melódica impõe-se logo no impulso inicial dado pelo violino; no segundo, surge espontâneamente uma canção; no terceiro, vislumbra-se o caráter pictórico.

Mendelssohn simplificou a obra reduzindo, em certos trechos, a instrumentação, sem perder a carga emotiva de uma linha melódica bem significativa.

Na primeira metade do primeiro movimento, a obra inicialmente exige do solista apaixonante energia; depois, o toque vai "amaciando"; para muitos ouvintes da música de concerto, é mais fácil fazer confidências com um violino; no ambiente "tranqüilo", Carolina Frederico aos poucos vai conseguindo sutilezas no toque; na segunda metade, depois de entrar com vigor, a orquestra logo cede gentilmente a voz e a vez ao violino, para Carolina Frederico demonstrar sua serena virtuosidade; pareceu-nos aqui ter faltado maior dose de sentimento.

No segundo movimento, há oportunidade para uma melodia cantabile, várias vezes comentada pela orquestra; o violino de Carolina parece ir baixando o tom do seu assobio.

No terceiro movimento, há um diálogo amistoso entre orquestra e violino, crescentemente alegre; para os floreios de arco, há vibrações na orquestra; finalmente, o violinista deve demonstrar todos os seus dotes na técnica violinística.

Carolina possui o "physique pour jouer le rôle". À parte alguns escorregões nos movimentos do arco, Carolina exibiu um estilo de execução tecnicamente conforme com o aprendizado, enfrentando bem uma obra muito conhecida.

Tocar com a orquestra sinfônica, no Teatro Nacional de Brasília, deve ter sido para Carolina Frederico uma excitante e enriquecedora experiência em sua promissora carreira musical.

Aos que não puderam estar presentes ao concerto de Carolina, resta a possibilidade de apreciar a maravilhosa obra de Mendelssohn numa gravação relativamente fácil de encontrar nas lojas de discos de áudio e vídeo.

Para nós, foi motivo de sadio orgulho denominacional e ocasião de raro enlevo artístico em Brasília.

(Publicado em "O Jornal Batista", 04 fev 2007, p. 4).

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Música – Nº. 717

Videoclipe, o novo modismo

Rolando de Nassáu

(Dedicado ao leitor Antônio Henrique de Souza, do Rio de Janeiro, RJ)

Em 1º. de abril, no início da Semana Santa de 2007, nos cultos dominicais de duas igrejas batistas, uma em São Paulo e a outra em Brasília, aconteceu, simultaneamente, a execução de obras corais e a projeção de cenas extraídas de discos DVD, originadas em filmes cinematográficos a respeito de Jesus. Nas duas igrejas, foi diminuída a importância dos coristas e dos músicos.

Em São Paulo, foi executada uma cantata; em Brasília, foram entoados hinos de diversas procedências. Por uma questão de educação estética, não vimos as cenas; preferimos ouvir o canto coral, porque música coral é para ser ouvida, não é para ser vista. Preferimos a arte dos sons à das imagens, convictos de que "a fé vem pelo ouvir" (Romanos 10:17).

O que aconteceu em São Paulo e em Brasília foi a tentativa de simular um efeito audiovisual semelhante ao de um videoclipe; foi a mera imitação precaria e artesanal da tecnologia televisiva; houve a intenção, mas faltou o formato de um videoclipe: uma produção de natureza cinematográfica para apresentação de música; alguém procurou sincronizar as imagens projetadas pelo DVD com o canto coral, embora as imagens não sejam ligadas aos sons; em geral, as pessoas que montam os videoclipes são incapazes de estabelecer um nexo artístico entre som e imagem. Temos o exemplo de John Debney, que compôs a trilha sonora do filme "A Paixão de Cristo", dirigido por Mel Gibson; ele estudou guitarra e tocou em bandas de "rock"; sua música é um ruído da "New Age" (ver: OJB, 02 mai 04).

Imediatamente, preocupou-nos a questão legal. Nos DVDs, sempre vem a advertência dos seus produtores: a cópia da obra audiovisual, a que resulta da fixação de imagens, incluindo sua trilha sonora, destina-se exclusivamente a exibição doméstica privada ("home entertainment"), proibida toda e qualquer outra forma de exibição ao público (em teatros, cinemas, boates, clubes, hotéis, hospitais, igrejas e associações de qualquer natureza); aplicam-se aos infratores, por violação do direito do autor de obra artística, o disposto no art. 68, par. 3º., da Lei nº. 9.610 (1998) e no art. 184 do Código Penal (1940).

Lembramos que em 2005 um fiscal do ECAD estava visitando templos evangélicos na capital paulistana para calcular a cobrança pela execução de cânticos, com base na lei acima referida. Defendemos as igrejas, com o argumento de que não eram "associações de qualquer natureza" (Lei nº. 9.610), mas "organizações religiosas" (Lei nº. 10.825) (ver: OJB, 05 fev 2006).

Superada a questão legal pelos argutos e bisonhos "vídeo-clippers", permanece o problema cultural. Se um coro, para executar uma cantata, precisa do suporte visual de um DVD, é um coro deficiente e inseguro. Será que os habitantes de Leipzig, em 11 de abril de 1727, quando ouviram pela primeira vez a "Paixão de Cristo, segundo São Mateus", conduzida por Johann Sebastian Bach, sem precisar de ver no telão do templo cenas daqueles filmes passionais, eram mais inteligentes do que os de São Paulo e Brasília? Projetar imagens para explicar melodias é desmerecer a inteligência dos ouvintes.

Vemos a ameaça mercantilista, pois o videoclipe explora, ao extremo, o interesse econômico e ideológico do ambiente musical. A "Music Television", na década de 80, começou a desenvolver valores da pós-modernidade e da ideologia capitalista, a serem disseminados para fácil e rápida assimilação pelas massas urbanas; o povo ficou ainda mais massificado em relação ao seu estilo de vida. Por isso, os sons e as imagens são montados para transmissão fragmentada e acelerada, dando aos ouvintes e espectadores pouco tempo para reflexão.

No Brasil, na década de 90, a MTV procurou influenciar as atitudes e o comportamento do público jovem. Esse canal de televisão por assinatura paga (visto por jovens da classe média) tem o propósito de preparar a juventude para a idade adulta, quando estará submisso aos valores da cultura pós-moderna.

O perigo da adoção ou aceitação do videoclipe é ser usado, durante os cultos das igrejas batistas, para promoção comercial das "estrelas" da música evangélica.

A tendência tecnológica e mercadológica é produzir e exibir vídeo-clipes na Internet. Isto facilitará a penetração dos videoclipes de artistas evangélicos nos computadores pessoais do povo batista, nos sites das igrejas locais e nos portais dos órgãos da nossa Denominação, o que redundará em maior influência da música de entretenimento ("gospel-rock") sobre o gosto musical dos Batistas brasileiros. Em pouco tempo, aqueles videoclipes poderão ser exibidos durante os cultos de nossas igrejas, o que seria uma lástima.

Além disso, devemos ter cuidado com o aspecto educativo: as congregações batistas, se ficarem dependentes de um suporte visual, deixarão de aperfeiçoar seu gosto musical; ficarão distraídas pelas imagens do DVD; nem perceberão que, no palco, à sua frente, para cantar e tocar, estão os coristas e os músicos de sua igreja. No futuro, será dispensável a presença dos coros, dos instrumentistas e dos regentes: bastará acionar o videoclipe ...

Cremos que os "vídeo-clippers" de São Paulo e de Brasília, apreciadores da genuína arte coral, não atentaram para as implicações do uso do videoclipe na igreja e que não desejam mais esse modismo.

(Publicado em "O Jornal Batista", 01 jul 2007, p. 4).

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Música – Nº. 718

5º. Encontro de Quartetos Masculinos

Rolando de Nassáu

(Dedicado ao leitor Ismael Alves Pires, de Paranaguá, PR)

Realizou-se em Brasília, num sábado à noite, em 26 de maio, mais uma edição do Encontro anualmente promovido pelo conjunto vocal "Shalom".

Comentamos as três edições anteriores (ver: O JORNAL BATISTA, 06 ago 06, 07 ago 05 e 01 ago 04), sempre elogiando a iniciativa, que visa estimular o canto vocal masculino nas igrejas.

Nenhum participante desta edição comprometeu a seriedade deste empreendimento artístico. Houve homogeneidade nas apresentações dos quartetos, quanto à emissão sonora e à postura física dos cantores. Entretanto, alguns ainda se apresentaram recorrendo ao "play-back", e o programa insistiu na informação errônea de que, na abertura, seria executado um "prelúdio cantado", e, na conclusão, um "poslúdio cantado"; já esclarecemos que "prelúdio" é forma de música instrumental e "poslúdio" é peça musical para órgão. Novamente apareceram imitações de "Gaither Band", "The Cathedrals", "Arautos do Rei" e Roger Bennett.

Em todas as cinco edições do Encontro ao programa foi dado indevidamente o título de "Ordem do Culto". Sabemos que o culto a Deus - pertence a uma igreja realizá-lo, enquanto o espetáculo musicado ou o concerto musical – tem por objetivo o entretenimento da platéia e a exibição dos dotes artísticos de cantores e instrumentistas (ver: Roberto Torres Hollanda, Culto – Celebração e Devoção. Rio de Janeiro: JUERP, 2007).

A seguir, comentaremos os 22 itens do concerto.

1) Quarteto "Adoração" (Uberaba, MG) – Com ajuda de vozes femininas em "background" e com letra alterada, cantou "Meu tributo", que no HCC-422 é intitulada "Como agradecer a Jesus?", escrita em 1971 por Andrae Crouch, cujos direitos autorais foram reservados pela "Lexicon Music". Na p. 618 do HCC, publicado pela JUERP em 1990, esta canção não consta como sendo de "domínio público"; de acordo com a lei, uma obra publicada entre 1964 e 1977, com a respectiva nota, entrará em domínio público 95 anos depois da data de sua publicação; em seguida, cantou "Digno é o Cordeiro", de W. Gaither, e "Deus, Tu és santo" ("Lord, You are holy"),uma das melhores letras da ministra pentecostal Karen Wheaton. Regular.

2) Quarteto "Asafe" (São Paulo, SP) – Cantou "Se Ele não for o primeiro", de Jader Santos; apesar da gesticulação repetitiva, teve um bom desempenho vocal; em seguida, "Em nome de Jesus", de Phil Melush, e "Não voltarei", de Steve Rosg Dale. Foi o melhor quarteto participante do 5Ί. Encontro.

3) Quarteto "Luzes do Alvorecer" (Goiânia, GO) – Com letra alterada, "Santo, santo, santo" (HCC-2), de John Dykes; em seguida, "A Redenção perto está", de João José, e "Eu não Te deixarei", de Jader Santos. Apresentação regular.

4) Quarteto "Vox" (Sorocaba, SP) – Com preocupação performática, cantou "Venha descobrir", no estilo de uma "negro spiritual song", e as baladas "Quando fala do Céu" e "Vou prostrar-me", de W. e G. Gaither. Regular.

5) Quarteto "Cânticos Vocal" (Maringá, PR) – O nome do conjunto já apresenta uma disfonia. De Roger Bennett (1959-2007), pianista do "The Cathedrals" e fundador do "Legacy", cantou "Heróis da fé"; de Paula Stefanovick, misturando estilos musicais, faz citação do hino "Jerusalém" (CC-521), de Frederick Weatherly e Michael Maybrick; aliás, este belo hino do "Cantor Cristão" não foi reproduzido no "Hinário para o Culto Cristão"; de William e Gloria Gaither, "Está consumado". Apresentação regular.

6) Conjunto "Shalom" (Brasília, DF) – Executou "O amor do Calvário", de Greg Nelson, um arranjo de "Tempo de ser santo" (CC-176), de William Longstaff e George Stebbins (apesar de vivermos um tempo em que há muita necessidade de santidade, este hino do CC não foi reproduzido pelo HCC), e "Minha mão em Tua mão", de Mosie Lister, editor, letrista e compositor, desde a década de 50, de "gospel songs"; sempre tendo acompanhamento pelo piano, o "Shalom" com isto valorizou o seu desempenho vocal.

7) Grande Coro – Formado em Brasília pelos participantes do Encontro, abriu o concerto cantando "Santo, santo, santo", que lembra uma melodia de Franz Schubert, logo suscitando palmas da platéia, o que a partir desse momento maculou o ambiente espiritual; depois, alternando com os quartetos, executou "Súplicas", de Sarah Kalley, "Em Canaã eu entrarei", de F. Torres (com acompanhamento de órgão e instrumentos de sopro), e "A santa peleja", hino nº. 422 do "Hinário Evangélico", que no HCC-340 é intitulado "Salvador bendito" e no CC-368, "Confiança", de Sabine Baring-Gould e Arthur Sullivan. Apresentação regular, levando-se em conta o pouco tempo disponível para ensaios.

Os assistentes deveriam ser instruídos a só aplaudir no final do concerto; é assim que se comportam nas salas-de-concerto, com muito mais razão num templo; os participantes, a se comportarem com sobriedade.

Melhorou o nível técnico e artístico dos quartetos e a organização do Encontro. Nas edições anteriores, o Encontro foi um "musical show"; nesta, começou a ser tratado como concerto musical. Esperamos comparecer à próxima edição, em maio de 2008, juntamente com você. Parabéns!

(Publicado em "O Jornal Batista", 04 nov 2007, p. 4).

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Doc.JB-731

Barroco na Memorial (2)

Rolando de Nassáu

(Dedicado ao leitor Zaqueu Moreira de Oliveira, do Recife, PE)

"O concerto barroco entrou para a história da Memorial!" (ver: "O Jornal Batista", 02 out 2005, p. 4).

Pela segunda vez, o "perSonare/ Studio Barroco" realizou um concerto no templo da Igreja Memorial Batista. À noite de 30 de março apresentou a cantata "Gottes Zeit ist die allerbest Zeit" (O tempo de Deus é o melhor tempo), BWV-106, também conhecida como "Actus Tragicus", de J. S. Bach (1685-1750).

Esta cantata foi composta em Mühlhausen, em 1707, para soprano, contralto, tenor e baixo solistas, coro misto a quatro vozes, duas flautas doces, duas violas "da gamba" e baixo contínuo; trata-se de uma das primeiras cantatas de Bach; ele tinha apenas 22 anos de idade (ver: Hermann Schmalfuss, J. S. Bachs "Actus Tragicus", 1970; Alfred Dürr, Die Kantaten von J. S. Bach. Kassel: Baren reiter, 1971; Walter Kolneder, Bach Lexikon. Lubbe, 1982).

No dizer de Robert Hill, no "Actus Tragicus" Bach lançou as sementes de sua obra coral, enquanto na "Arte da Fuga" colheu "os frutos de sua colheita" na música instrumental (ver: Robert Stephen Hill, Bach as Teacher. Bachakademia, vol. 107, 1999).

A música se caracteriza pela sonoridade em tom de confidência. O libreto anônimo, talvez escrito por Bach, inclui versículos do Antigo Testamento, do Evangelho segundo São Lucas e de um hino sobre a transformação da morte: da punição da Lei para a esperança da Graça. Sua execução dura 21 minutos.

As cantatas de Bach são consideradas como o acme da perfeição desta forma musical e o ponto culminante da música-de-igreja protestante. Esta opinião não era compartilhada pelos contemporâneos de Bach. No século XVIII, Georg Phillip Telemann (1681-1767) foi chamado de "pai da música-de-igreja"; o mais prolífico compositor da história da música, ele compôs mais de 1.400 cantatas, tendo o apoio do pastor Erdmann Neumeister (1671-1756), que, em alto e bom som, dizia ser a cantata "um fragmento da ópera" ...

O "Actus Tragicus", de Bach, conforma-se com a tradição musical, usando a Bíblia e hinos congregacionais, e revela um conteúdo teológico.

A cantata fúnebre de Telemann, "Du aber Daniel gehe hin" (Mas tu, Daniel, vai-te), composta em Hamburg, segue o padrão operístico, usando um texto bíblico (Daniel 12: 13), mas a interpretação do texto está menos preocupada com a concepção teológica a respeito da morte.

Há analogias entre essas duas cantatas fúnebres, entretanto, na de Bach é mais importante a teologia, orientando para o uso eclesiástico; na de Telemann, o drama despreza, sob a influência da ópera, a separação entre música sa cra e música profana. Preferimos a de Bach, por ser a mais apropriada ao culto.

Na execução dos oito trechos do "Actus Tragicus" atuaram, como solistas, a soprano Lívia Lavorente, a meio-soprano Malú Mestrinho, os tenores André Vidal e Kleyton Oliveira, e o baixo Alberto Almeida; do coro participaram as sopranos Tristana Rossi e Márcia Diniz, as meios-sopranos Mirella Cavalcante e Mônica Simões, e os baixos Mateus Ciucci e Josué Terceiro; no canto usaram o texto original em alemão.

O Estúdio Barroco compareceu com Sueli Helena (flauta doce), Cecilia Aprigliano (viola "da gamba") e Ana Cecília Tavares (cravo), apoiados por Maria Eugênia Pulino (flauta doce), Iara Ungarelli e Tiago Ribeiro (violas da gamba).

A execução começou com a "Sonatina"; as flautas desenvolvem um "molto adagio" de caráter fúnebre e traduzem a serenidade do cristão frente a Morte. Na cantata há várias mudanças de tempo (incluindo o coro homófono e o coro fugado, o lento e o vivaz), no estilo do antigo moteto, que realçam três palavras-chaves: o tempo de Deus, viver e morrer.

O coro "Gottes Zeit ist die allerbeste Zeit" no início se expressa com energia e alegria, mas no final declara gravemente: "In ihm sterben wir zu rech ter zeit" (Nele morreremos no tempo certo) – (Atos 17:28). O lento arioso do tenor, "Ach, Herr, lehre uns bedenken" (Ah! Senhor, ensina-nos a compreender) e a ária vivaz do baixo, "Bestelle dein Haus"(Prepara tua casa) confirmam a aceitação da morte (Salmo 90: 12; Isaías 38: 1).

O grupo vocal, com destaque da soprano, proclama a inevitabilidade da morte, "Es ist der alte Bunde" (Esta é a velha lei), mas o tom bachiano é diferente; Bach, homem da igreja, inscreve sua proposta, no tempo limitado pela liturgia luterana, como se fosse um sermão. Atento à pregação de Lutero, Bach não deixa que a dúvida se instale nas mentes da congregação; a soprano canta "Ja, komm, Herr Jesu!" (Sim, vem, Senhor Jesus); com estas palavras, extraídas do Apocalipse (22:20), Bach lembra ao crente que a segunda vinda de Jesus será a vitória sobre a Morte. Assim, estabelece a sã doutrina, ressaltada pelas flautas e violas, ao recordar a melodia do coral "Ich hab mein Sach’s Gott heimgestellt" (Entreguei a Deus as minhas preocupações).

O crente passa a ter uma lógica inteiramente diferente, ao ouvir o contralto e o baixo, acompanhados pelo cravo, cantarem a ária "In deine Hände befehle ich meinen Geist" (Em Tuas mãos entrego meu Espírito); no arioso "Heu te wirst du mit mir" (Hoje estarás comigo) cantam o baixo e os contraltos do coro, identificando a morte do crente com a de Cristo, enquanto os instrumentos de cordas sugerem a melodia do hino "Mit Fried und Freud" (Com paz e alegria).

A meditação de Bach sobre a morte do crente termina com uma doxologia coral-instrumental; não se trata de um louvor convencional; Bach a firma que o poder e a autoridade de Deus nos conferem, em nome de Cristo, um direito à vitória sobre a morte.

Revelamos aqui a nossa expectativa em relação ao segundo concerto barroco na Memorial. Conhecemos esta cantata desde 1976. Qual foi a nossa impressão? No conjunto, cantores e instrumentistas deram à cantata uma execução satisfatória, grangeando-lhes merecidos aplausos.

Na "sonatina" as flautas tiveram bom desempenho. No trecho "Got tes Zeit" os cantores foram bem do tom alegre ao grave.

O tenor ofereceu uma interpretação razoável no arioso "Ach, Herr, lehre uns bedenken", mas faltou ao baixo maior potência vocal para dar mais energia à ária "Bestelle dein Haus".

No trecho "Es ist der alte Bund", o estilo musical barroco sugeria que o coro cantasse como se estivesse em movimento, "andante", efeito a ser pro duzido pela orquestra que não percebemos.

A soprano Lívia Lavorente e a meio-soprano Malú Mestrinho foram convincentes, na frase "Ja, komm, Herr Jesu!" e na ária "In deine Hände", respectivamente. No arioso "Heute" o baixo apresentou-se melhor, cantando com a firmeza adequada ao texto, enquanto os contraltos entoavam suavemente o coral "Mit Fried und Freud", enfatizando mais a tranqüilidade do que a alegria.

No trecho conclusivo, o "perSonare" e o "Estúdio Barroco" nos deixaram com o ardente desejo de que voltem a se apresentar na Memorial.

(Publicado em "O Jornal Batista", 07 set 2008, p. 4)

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Doc.JB-733

6º. Encontro de Quartetos Masculinos

Rolando de Nassáu

(Dedicado à leitora Meremara Belo Lemos, de Teixeira de Freitas, BA)

Aconteceu em Brasília, em 31 de maio, a sexta edição deste empreendimento artístico, anualmente promovido pelo conjunto vocal "Shalom", que visa estimular o canto vocal masculino nas igrejas evangélicas (ver: OJB, 04 nov 07).

De 2003 a 2007, o evento foi realizado no templo da Igreja Memorial Batista; em 2008, no templo da Igreja Batista Central.

Participaram cinco quartetos, um conjunto vocal e um coro; cada participante executou três peças musicais.

O programador insistiu na informação errônea de que, na abertura, seria apresentado um "prelúdio cantado", e, na conclusão, um "poslúdio cantado".

Também nesta edição do Encontro ao programa foi dado indevida mente o título de "Ordem do Culto". Nesta época de banalização da palavra "culto", ao desfile de quartetos, cujo objetivo era a exibição dos dotes artísticos dos participantes, foi dado o tratamento de culto. Uma prova de que o evento não era um culto tem-se pelo fato de a platéia aplaudir cada número executado, e alguns participantes, por bairrismo, formarem torcidas a favor de determinados quartetos. Os assistentes deveriam ser instruídos a só aplaudir no final do concerto; é assim que se comportam nas salas-de-concerto. Esses fatos lamentáveis macularam o ambiente espiritual, que deve caracterizar um concerto de música cristã.

O evento foi gravado em disco DVD.

A seguir, nossos comentários a respeito dos 21 itens da agenda.

1) Coro Masculino - "Rosa de Saron" foi composto por Charles H. Gabriel (1856-1932), que, desde a juventude, contribuiu, durante 60 anos, para odesenvolvimento do "gospel hymn" (hino evangelístico), a ser cantado por coros masculinos. Sua boa execução pelo coro formado em Brasília com os participantes do Encontro, inaugurando o programa, deu oportunidade para o público discordar do organizador, que dissera: "não veremos show, nem competição". Daí por diante, suscitados pelos aplausos, sucederam-se os casos de mera exibição; em alguns, os participantes pareciam estar numa competição. No meio do programa, ouvimos "Eu sou um pobre peregrino", que recebeu execução sóbria, cantado com exemplar reverência. Finalmente, ainda acompanhado por instrumentos de teclado executou "Senhor de minha vida", de Lanny Allen, produtor de programas religiosos na televisão americana; um fraseado bem cuidado e uma sonoridade cativante conferiram a esta peça a marca da melhor interpretação do Grande Coro.

2) Quarteto "Athus" (Belo Horizonte, MG) – Cantou bem "Seu nome exaltai". Tão boas vozes deslustradas, em sua expressão coletiva, pela preocupação da "performance", da ostentação de uma comicidade indevida! Sempre acompanhado pelas palmas ritmadas do público (não se tratava de uma congregação), o "Athus" executou um "galope" de Stuart Hamblen (1908-1989), intitulado "Quero um novo lar", no estilo da "country music". Hamblen foi um "cantor-cow-boy" no rádio norte-americano. O tenor Ângelo Meireles, com pretensões a ser um humorista na música evangélica brasileira, cometeu excessos em sua atuação hilariante. "Chuva", com sua atmosfera oriental lembrando "Sheherazade", suíte de Rimsky-Korsakov, e usando mímica, conta a experiência do profeta Elias. O quarteto não compreendeu o objetivo do Encontro: estimular a criação de quartetos masculinos que executem novas composições apropriadas aos cultos das igrejas evangélicas no Brasil. Imaginou que em Brasília deveria fazer o público rir ...

3) Quarteto "Art Vocal Company" (Campinas, SP) – Sem dispensar os gestos, executou "Quando Cristo aqui reinar", com desempenho regular. Numa postura de quem quer privilegiar a "performance", ao som do ritmo "boogie-woogie", cantou "Ritmo feliz"; evidentemente, esse estilo jazzístico não é apropriado ao culto divino. Saiu-se melhor em "Vou ao Céu", que pareceu-nos ser arranjo do "negro spiritual song" (cântico espiritual negro)"I’m gwine up to heab’n anyhow".

4) Quarteto "Servus" (Recife, PE) – Usando gesticulação exagerada em algumas passagens, deu uma boa interpretação à bela canção "He touched me" (Tocou-me), de W. J. Gaither, por colocar adequadamente a expressão vocal. Mais uma vez foi usado o "boogie-woogie", em "Você vai rir", de Kenneth Morris. Os integrantes do quarteto homenagearam o baixo, como se o solo fosse mais importante que o desempenho coral. Depois, o quarteto apresentou, de Ismael Barbosa, um arranjo de cânticos infantis ("Deus é amor", "Seu nome é Jesus", "Lá no Céu" e "O trem vai partir", este com recurso onomatopéico); apenas originalidade, que despertou sorrisos na platéia, mas falta-lhe lugar no culto divino.

5) Quarteto "Master" (Londrina, PR) – Sob a forte influência da música americana para quartetos composta na década de 20, executou a balada "Yes, I know!" (Sim, eu sei), de Anna W. Waterman. O valor deste quarteto esteve na expressão vocal, sem apelos extra-musicais. Este conceito foi prejudicado pelo acompanhamento do órgão, tocado no estilo jazzístico de Thomas "Fats" Waller, em "Rocha eterna", de L. R. Tolbert. O melhor desempenho aconteceu em "Não é em vão", de D. Liles, quando boas vozes, boa dicção e postura reverente, sob a orientação do pr. Zaqueu, garantiram para o "Master" o primeiro lugar.

6) Quarteto "Comunicação" (Maringá, PR) – Apresentou-se com uma gesticulação muito evidente. Com suas vozes bem cultivadas, cantou "A Cruz responde por mim", de Joel Lindsey, letrista e guitarrista londrino de canções em ritmo de "rock". Como se fosse um recital, destacou o baixo em "Rei da paz", de Jesse Randall Baxter Junior (1887-1960), pioneiro, na década de 30, da "gospel music", um tipo de "gospel" comercializado. Em "Veremos Cristo", surgiu um um quinto cantor.

7) Conjunto "Shalom" (Brasília, DF) – Aderiu ao acompanhamento instrumental mediante "play-back" e realizou um desempenho regular em "Vem logo", "Lhe perdôo" e "Eu creio em Ti". Evidentemente, é mais difícil a coesão vocal num quarteto triplicado em sua composição. A pesquisa quantitativa da coesão revela as diferenças entre os cantores quando participam de um quarteto. Cantar num quarteto exige a habilidade de cada integrante ouvir a sua emissão vocal e a dos outros três membros do grupo, a fim de ser conseguida a perfeita "mistura" das vozes (ver: "O Jornal Batista", 02 jul 06, p. 4).

Fazendo o balanço das seis edições do Encontro, constatamos que foram cometidos os seguintes erros: 1) dar ao programa o título de "Ordem do Culto"; 2) aplausos pelo público depois de cada execução musical; 3) alto volume de som produzido pelo sistema de amplificação; 4) uso de instrumentos musicais; 5) utilização de "play-back"; 6) recurso às peças do "gospel rock" e do "country gospel"; 7) aproveitamento de arranjos; 8) dar destaque a solistas, o que descaracteriza o canto de um quarteto; 9) propósito performático de alguns coristas.

(Publicado em "O Jornal Batista", 02 nov 08, p. 4)

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