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ARTIGOS INÉDITOS

[ Atualizado em setembro de 2008 ]


Artigos de Rolando de Nassáu e Roberto Torres Hollanda


 

Gravações

Para ler um artigo, clique no título:

- A gratidão traída - Escrito em Brasília (DF), em 06 de agosto de 1967

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Publicações

Para ler um artigo, clique no título:

- "Em busca de uma teologia da estética!", de Luiz Sayão (1)
- "Em busca de uma teologia da estética!", de Luiz Sayão (2)
Escritos em Brasília (DF), em 07 de fevereiro de 2008.
- "Louvor com sobriedade", de Luiz Sayão - Escrito em Brasília (DF), em 25 de fevereiro de 2008.

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Recitais e concertos

Para ler um artigo, clique no título:

- "Atividades musicais em Belém do Pará" - Escrito em Belém (PA), em 23 de abril de 1967.

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Inédito

A gratidão traída

Rolando de Nassáu

A editora "Boas Novas", de São Bernardo do Campo (SP), lançou seu 12º. elepê, intitulado "Gratidão". É o sétimo de Luiz de Carvalho, numa coleção da qual participam o organista Harry Bollback, o tenor Edgar Martins e o pregador Rubens Lopes. Desta vez, Luiz de Carvalho canta com a colaboracão de Marta de Carvalho, Débora Vasconcelos, David e Beatriz, o conjunto vocal "Inspiração", um trio e o conjunto instrumental "Boas Novas".

O repertório é constituído de hinos do "Cantor Cristão", de "Coros Sacros", de Débora Vasconcelos, e David e Beatriz, arranjados por Luiz de Carvalho. O propósito de Luiz de Carvalho é agradecer a Deus, através da música. Um propósito simpático e louvável.

Na 1ª. faixa, ouvimos "Santo, Santo, Santo", hino de J. G. Rocha e J. B. Dykes, cantado por Luiz de Carvalho, com um acompanhamento instrumental inadequado à solenidade do tema.

Já na 2ª. faixa, os instrumentos e as vozes não ofendem tanto a letra do hino "Meu canto celestial", de R. Pitrowsky e S. W. Beazley, em solo de Luiz de Carvalho, aliás, o melhor desta parte do disco.

A famosa melodia "Finlândia", de J. Sibelius, que muita gente pensa tratar-se de peça da música sacra, é cantada por Luiz de Carvalho (cuja voz lembra a de Vicente Celestino), com uma letra de A. Lakschevitz, "Espera em Deus", que é recitada por Marta de Carvalho.

Em seguida, ouvimos, na voz quente de Débora Vasconcelos, sua letra "Viver por Cristo", com música de A. C. Adam, que na capa do disco é apresentada como sendo de Luiz de Carvalho! Trata-se do famoso "Meia-noite, cristãos!". Segundo a professora Henriqueta Rosa Fernandes Braga ("Cânticos do Natal", pág. 71), Adam deixou produções sacras em que prevalece o cunho profano, peculiar ao autor.

Na 5ª. faixa, David e Beatriz (?) cantam "Entregando nossas vidas", com acompanhamento de violão, uma modinha evidentemente inspirada na musica popularesca.

Concluindo o 1º. lado do disco, Luiz de Carvalho e conjunto vocal, introduzidos por um piano tocado em estilo "café-concerto", e acompanhados por um acordeão valsante, cantam "Confiança no Senhor". Nesta face "A" do disco "Gratidão", é apenas aceitável o solo de Luiz de Carvalho em "Meu canto celestial"; as demais faixas pecam pelo mau gosto dos acompanhamentos instrumentais ou pela impostura das letras.

Na face "B", ouvimos: 1) o hino "Deixa ali", de A. Muirhead, num solo de Luiz de Carvalho, seguido de vozes femininas, com acompanhamento instrumental em estilo havaiano; 2) "Talvez uns cantem", mais um solo de Luiz de Carvalho, por sinal bom; 3) "Seguindo a Cristo", dueto de Luiz e Marta de Carvalho, acompanhados por um piano irreverente, tocado no estilo (ultrapassado) de Muraro; 4) "Qual é teu refúgio?", de S. L. Ginsburg e S. S. Vail, com Luiz de Carvalho e vozes femininas, que parecem estar cantando a "História da baratinha" ...; 5) "Amparo", de M. A. de Souza e S. W. Beazley, quando Luiz de Carvalho canta e recita acompanhado pelo órgão, é a melhor faixa do disco; 6) "Meu barquinho", solo de Luiz de Carvalho prejudicado pelo acordeão e piano.

Em resumo: gostamos de quase todas as faixas de que Luiz de Carvalho participa, mas censuramos o ambiente de profanidade criado pelos instrumentos, que usam os mais banais estilos da música popularesca, tirando das letras a sua seriedade. Por isso é que damos "bola preta" para o conjunto instrumental "Boas Novas" ...

A editora e o cantor devem ter mais cuidado na escolha dos acompanhistas, a fim de que letras inspiradas em temas sacros e sérios não sejam cantadas com melodias profanas e levianas.

Como vimos, a "Gratidão" de Luiz de Carvalho foi traída pelos foles e pelas cordas ...

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(Escrito em Brasília (DF), em 06 de agosto de 1967)

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Inédito

"Em busca de uma teologia da estética!", de Luiz Sayão (1)

Roberto Torres Hollanda

Ainda por intermédio da internet, tomamos conhecimento de um outro texto do teólogo Luiz Sayão, "Em busca de uma teologia da estética!", veiculado em agosto de 2007 por uma fonte desconhecida.

O articulista, em seqüência, escreveu sobre a relação entre fé e arte na igreja cristã primitiva, a proibição divina da confecção de esculturas e imagens, o Canto Gregoriano e a música instrumental (na Igreja Católica e nas igrejas reformadas), a construção de templos evangélicos no Brasil, as artes na Bíblia e na sociedade contemporânea, os ritmos populares nas igrejas e as artes no Apocalipse.

Surpreendentemente, as suas idéias são parcas – apenas 81 linhas – e superficiais.

Na teologia do culto, cabe o estudo das condições e dos efeitos da criação artística, sob o ponto de vista teológico; essa teologia subordina a Arte ao Culto (ver: Roberto Torres Hollanda, Culto – Celebração e Devoção. Rio de Janeiro: JUERP: 2007).

Luiz Sayão, às cegas na busca de uma teologia da estética, acaba por subordinar o Culto à Arte.

As dificuldades do cristão no fazer e apreciar as artes não são apenas éticas ou estéticas, mas também teológicas.

Em atenção aos nossos leitores, comentaremos a evolução das manifestações artísticas na Igreja Católica, antes da Reforma Protestante.

Na literatura e nos cânticos, contidos nos livros do Antigo Testamento, os novos cristãos encontraram as primeiras manifestações para seu deleite.

O imperador César Augusto Otaviano (63 a.C.-14 d.C) cresceu sob a influência grega; no tempo de Jesus, Roma tinha-se tornado uma cidade de cultura helenística.

Dos séculos I a IV, houve improvisação na realização dos cultos. No culto do século I, o elemento artístico estava subordinado ao espiritual. No século II, alguns líderes achavam que os instrumentos musicais distraíam a congregação.

A partir do século III, somente a voz humana, sem acompanhamento instrumental, era considerada apropriada. Os instrumentos foram afastados do culto devido à clandestinidade das congregações ou à idolatria das comunidades (ver: Hollanda, op. cit., pp. 118-119).

No século IV, as igrejas passaram a cantar em latim; a salmodia implicou a necessidade de um coro de elite ("Schola Cantorum"), criado por Silvestre I (bispo de Roma, 314-335), com a incumbência de compor e executar o canto litúrgico.

A atitude típica dos primeiros cristãos foi a rejeição da cultura mundana, com base na primeira epístola de João (2: 15). Essa atitude foi endossada pelo teólogo Tertuliano (155-222), que apresentava o Cristianismo como uma maneira de viver completamente separada da cultura, pois é especialmente na cultura que o pecado reside; Tertuliano via a mancha da corrupção atingir as artes (ver: Richard Niebuhr, Cristo e Cultura. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1967).

As artes plásticas foram inicialmente apreciadas na igreja cristã primitiva entre os séculos III e VII.

Antes do Edito de Milão (313 A.D.), as artes plásticas restringiam-se à decoração dos lugares de culto. A maioria dos artistas trabalhava usando modelos derivados da arte romana. A iconografia destinava-se a visualizar conceitos cristãos. Supomos que os primeiros cristãos não viam essa arte como maneira de expressar a beleza (estética), mas de transmitir sua fé (teologia). Possivelmente escolheram rejeitar os ideais da perfeição técnica; procuraram apresentar imagens que poderiam atrair os espectadores pelo significado espiritual de suas obras.

A partir do Edito de Milão, o culto cristão poderia ser realizado em edifícios abertos ao público. Sob o patrocínio do Império Romano, floresceu a arquitetura da igreja. Os edifícios eram de dois tipos: basílicas e catedrais (ver: Hollanda, op. cit., pp. 178-183). O culto tornou-se mais formal e solene. O exterior dos edifícios era simples, mas o interior era ricamente decorado com piso de mármore, mosaicos, reposteiros e as guarnições do altar eram de ouro e prata. Eram raras as esculturas verticais, mas havia muitos baixos-relevos em mármore e pórfiro.

Os manuscritos usados no culto recebiam iluminuras.

As formas artísticas penetraram na Igreja durante o período de criação dos formulários litúrgicos (meados do século IV até fins do século VII); as igrejas de Roma, Antioquia e Alexandria estavam criando suas liturgias próprias.

Antes do início da Idade Média, cerca do ano 476 A.D., o elemento artístico no culto triunfou sobre o espiritual.

O desenvolvimento tecnológico da gravura propiciou, no rito bizantino, o surgimento do culto das imagens. Entretanto, no século VIII, lideres da igreja oriental, inspirados pelas proibições judaicas e islâmicas, fizeram objeções ao uso de imagens religiosas; foram consideradas formas de idolatria. Essas idéias foram adotadas como doutrina pelo imperador bizantino Leão III (680-741). Isto levou à destruição de obras de arte, ataque a templos, massacre de monges. O bispo Gregório III (731-741) excomungou os que se opunham às imagens (ver: Hollanda, op. cit., pp. 48-49). A imaginária transportou-se de Bizâncio para Roma. A igreja católica ocidental acabou por aceitar as imagens; a exclusão sistemática seria contrária à Tradição ...

A missa tornou-se "o supremo triunfo da Arte sobre o Culto" ... A missa é um drama religioso (teatro) em sua forma artística mais altamente desenvolvida" (ver: Andrew Blackwood, The Fine Art of Public Worship. New YorkNashville: Abingdon Press, 1939-1950).

Na Idade Média (séculos V-XIII) a Igreja Católica fortaleceu o sacerdotalismo e prestigiou o sacramentalismo, além de começar a prática do canto litúrgico; Gregório I (540-604) organizou os textos e as melodias litúrgicas. O coro eclesiástico apresentava cânticos cada vez mais artísticos (ver: Hollanda, op. cit., pp. 110-112). Enquanto as práticas litúrgicas eram gradualmente codificadas, a liturgia romana necessitou de livros (ricamente decorados) para as orações, o canto e as leituras bíblicas selecionadas, de vasos para a hóstia e o vinho (pátena e cálice), de cruzes para o altar e as procissões, de incensários e veladores, e de muitos outros objetos litúrgicos (ver: Hollanda, op. cit., pp. 60-67).

Justiniano I (482-565), imperador bizantino que promoveu grande desenvolvimento artístico (templos de Ravena e Constantinopla), escreveu que na "Hagia Sophia" havia centenas de vasos e guarnições, feitos de ouro puro, com pérolas e pedras preciosas incrustadas.

Contrariando a posição teológica de Tertuliano, o filósofo francês Pedro Abelardo (1079-1142), com sua doutrina do conceptualismo (o conceito tem uma realidade diferente da palavra que o expressa), facilitou o emprego cada vez maior dos vários gêneros artísticos no templo e no culto.

Durante a Idade Média, a dança era praticada nas igrejas de língua grega e de língua latina.

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(Escrito em Brasília (DF), em 07 de fevereiro de 2008).

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Inédito

"Em busca de uma teologia da estética!", de Luiz Sayão (2)

Roberto Torres Hollanda

Francisco de Assis (1182-1226) pregou a pobreza, num tempo em que a hierarquia eclesiástica (papa Inocêncio III, 1160-1216) vivia na riqueza material e no esplendor artístico, e a simplicidade, quando a liturgia asfixiava o sentimento religioso do povo.

Tomás de Aquino (1225-1274) fez a síntese teológica entre os pensamentos humanista (razão) e cristão (fé), entre o Humanismo e o Cristianismo. Não por acaso, Tomás foi grande defensor do papado (ver: Hans Küng, A Igreja Católica. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002). Em sua época, cresceram as universidades e foram construídas catedrais no estilo gótico; a Igreja tinha interesse na usura.

O período gótico tardio (séculos XIV- XV) ocorreu entre o fim da Idade Média e a Renascença (séculos XV-XVI).

No século XIV estabeleceu-se uma corrente de pensadores destinada a lutar contra o que consideravam "o arcaísmo da Igreja"; eram os "modernii".

As Cruzadas levaram para a Europa ocidental a arte bizantina; a xilogravura cristã recebeu a influência bizantina, que aparece no emocionalismo dos crucifixos de madeira.

A tapeçaria dos artistas de Paris entrou nos templos; são raríssimos os exemplares dessa obra artística (ver: Andrew Martindale, Gothic Art. London: Thames and Hudson, 1988).

Vitralistas e outros artesãos do período produziram grandes obras para serem colocadas nas naves e nas paredes das catedrais góticas.

A Renascença foi uma era de realização cultural, como resultado de renovado interesse nas artes clássicas da Grécia e de Roma. O Humanismo cria que, por meio do estudo dos tesouros artísticos da Antiguidade greco-romana, a humanidade alcançaria grandeza artística e espiritual; era uma concepção antropocêntrica, que divergia da concepção teocêntrica dos séculos anteriores. Entretanto, artistas da Renascença, mesmo os que não eram religiosos, ainda aceitavam a beleza pura, a música absoluta, a arte que possuía um significado espiritual. Pouco tempo depois, a criatura humana novamente passou a acreditar na sua superioridade; aparecia retratada ao lado de figuras do reino celeste; há um pretensioso sentimento de igualdade entre Deus e os homens! A redescoberta do mundo clássico alterou a arte da pintura, mudou o seu conteúdo ideológico. A arte religiosa, de patrocínio ou de orientação eclesiástica, tornou-se humanizada, quase humanista. Entretanto, Savonalora pregava a simplicidade nos costumes eclesiásticos (ver: Tim Parks, Banco Médici. Rio de Janeiro: Record, 2008). Entre 1420 e 1550, escultores e arquitetos italianos, pintores flamengos e alemães, produziram arte pictórica para a Igreja. No século XVI, a Igreja estimulou a pintura afresco.

Nos pontificados de Júlio II (1503-1513) e Leão X (1513-1521), com o dinheiro arrecadado com a venda de indulgências, foi acelerada a construção da basílica de São Pedro, em Roma.

De 1500 a 1525, as artes na Itália atingiram seu clímax. A pintura "religiosa" de Da Vinci, Michelangelo, Rafael, Ticiano e Tintoretto deixou obrasprimas ("A sibila", "O dilúvio", "A santa família", "Maria Madalena", "Adão e Eva") de competência técnica e imaginação estética, de harmonia e equilíbrio, que ocultavam os ideais humanistas de seus criadores.

O papa Leão X (1475-1521) acima de tudo gostava da arte renascentista; talvez por isso não deu a devida importância ao movimento reformista que se esboçava na Igreja. Mas, depois de longo período sem contestação, as artes na Igreja voltaram a receber críticas, obviamente por parte de teólogos protestantes.

No século XVI, a Igreja Católica Romana estava plenamente aberta às diversas manifestações artísticas. Pelo relato que fizemos a respeito de sua evolução, é possível perceber que, ao longo de 1500 anos, na Igreja Católica ocorreu uma mudança: da liberdade no ambiente de culto, usufruída nos tempos apostólicos, para a fixidez da liturgia; da simplicidade, para a ostentação dos lugares de culto, sob o bafejo do Império Romano.

Para a hierarquia católica, o culto era mais uma arte; esquecia que deveria ser uma arte genuinamente religiosa. A Igreja queria a Arte, buscava a Estética. Para tanto, muito contribuíram o sacerdotalismo, o sacramentalismo e o mercantilismo; este, impulsionado pela família Médici.

O interesse pelas manifestações artísticas significou uma volta aos ritos do Antigo Testamento. O que Arão e os levitas tinham sido no culto judaico, foi o clero na Igreja Romana.

A Igreja, colocando-se, na pessoa do papa, como autoridade acima da Bíblia, dos concílios e das paróquias, e justificando as obras humanas para a salvação, por meio da missa, dos sacramentos, da penitência e do purgatório, assumia uma atitude humanista. Os intelectuais católicos entendiam as Artes como oferenda da Igreja a Cristo. Por isso instauraram o culto da Arte, inclusive subordinando a Liturgia à Arte. O conteúdo ideológico da pintura de Rafael equiparava Roma a Atenas, a Religião à Arte; o de Miguel Ângelo colocava os profetas e as sibilas lado a lado. Os humanistas deram o primeiro passo para a secularização.

O Protestantismo tomou posição contra o Humanismo, quando procurou a simplicidade nos atos de culto, para restaurar o equilíbrio entre Religião e Arte (ver: Francis Schaeffer, "A fé dos humanistas").

Luiz Sayão busca a Estética, colocando-se, de certo modo, entre os "modernii" do pensamento gótico. Imitando a linguagem deles, considera que a herança dos evangélicos no Brasil é arcaísmo; que os evangélicos têm "dificuldades de dialogar com a estética e com a cultura nacional contemporânea". É oportuno lembrar que a "estética" contemporânea frequentemente não possui significado moral. Ele busca uma nova Teologia da Estética, evidentemente não a que vigorou na Renascença, um estilo em nível muito mais elevado do que o contemporâneo; basta dizer que ele se compraz com "ritmos como valsa, rock e samba", na opinião dele (sic) "usados por Deus para o benefício do reino". Com uma "estética" desse nível chegaremos perto da "teologia" proposta.

Afirma que Francis Schaeffer (1912-1984) criticou a atitude do evangelicalismo americano "de afastar-se da arte". O que, com efeito, Schaeffer censurou foi "a entrada do conceito humanista na igreja protestante". Em sua época já eram fortes os pensamentos humanistas na Igreja Católica e nas igrejas protestantes, que, convergindo, atenderiam ao propósito principal do papa João XXIII: o ecumenismo, sob a égide da Igreja Romana.

A igreja primitiva e as igrejas da Reforma Protestante não adotaram princípios humanistas, nem o relativismo teológico e moral. Às igrejas pouco falta para adotarem as artes marcadas pelo desespero. Luiz Sayão afirma que "foi mortal para a Igreja", quando os cristãos conservadores entregaram (?) as artes do espetáculo aos artistas mundanos.

Devemos com esmero prestar culto a Deus; isto não significa que o nosso culto prestigie a Arte e os artistas, sejam quais forem.

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(Escrito em Brasília (DF), em 07 de fevereiro de 2008).

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Inédito

"Louvor com sobriedade", de Luiz Sayão

Roberto Torres Hollanda

Por intermédio da internet, lemos o artigo "Louvor com sobriedade" do teólogo Luiz Sayão, colunista da revista "Eclésia".

Concordamos em sua observação a respeito do louvor nas igrejas contemporâneas: certos grupos (existentes também em igrejas tradicionais) usam cânticos com "forte ênfase no Antigo Testamento", muitas vezes "sem qualquer transposição cristã", mas com "apropriação de temas e elementos típicamente judaicos". Igualmente concordamos que, desde a década de 60, nessas igrejas carismáticas (onde, equivocadamente, o articulista vê um cenário "litúrgico") tem acontecido "a introdução de heresias". Isto porque os cânticos foram escritos por pessoas sem formação teológica. Luiz Sayão dá como exemplo de "tolice" o cântico "Em espírito e em verdade", cantado também em igrejas batistas tradicionais, apenas "porque gostam da melodia".

Concordamos com Luiz Sayão, quando escreve que "há cânticos que não chegam a dizer nenhuma heresia – simplesmente porque não têm nada a dizer!" e quando repete um lugar-comum: "possuem bastante ritmo e algumas poucas frases, que são repetidas continuamente".

Os grupos judaizantes e os que apóiam o uso de instrumentos da música popular no culto cristão, não obstante, receberam o respaldo da Nova Versão Internacional (NVI) da Bíblia, quando o verso 4 do Salmo 150 foi traduzido assim: "louvem-no com tamborins e danças" ...

A respeito da manipulação emocional dos auditórios, em ambientes religiosos e mundanos, nós e Luiz Sayão pensamos e opinamos em termos muito próximos; ambos queremos que no louvor haja sensibilidade.

Fazemos reparos às quatro razões apontadas pelo articulista para o abandono e desuso da hinodia tradicional e a conseqüente preferência pelo cancioneiro contemporâneo.

A primeira seria a origem alienígena dos hinos tradicionais. Ora, há um grande número de cânticos ("corinhos") que foram escritos por autores estrangeiros, tais como Zschech, Hayford, Fettke, Moen, Himitian, Kendrick, Weigle, Huston, De Shazo, Mc Hugh, Paris, Adkins, Jordan, La Porta, Red, Carpenter, Danner, King, Carmichael, Hughes, e tantos outros; e são os mais cantados em nossas igrejas, talvez por serem os mais populares nos países de língua inglesa.

A segunda seria a estranheza com que os "novos evangélicos" no Brasil, a partir da década de 60, recebiam os hinos, mais antigos do que eles, porque seus ouvidos estavam "acostumados a estilos musicais mais populares", isto é, acostumados às músicas mundanas. Aconteceu que eles se converteram, mas não ficaram imunes aos sons profanos. O erro não estava na hinodia, mas no gosto musical dessas novas gerações de crentes.

A terceira seria o fato de certos hinos serem "maciçamente executados, gerando certo cansaço". Então, podemos prever que os cânticos terão vida curta ... Há ministros de música que, por preguiça mental, incluem nas ordens-de-culto cânticos que não têm qualquer relação com o tema do sermão pastoral, com a agravante de serem cantados repetidamente, domingo após domingo; é o canto irracional, que despreza o ensino do apóstolo Paulo (1ª. Coríntios 14: 15). Para agradar aos jovens, esses ministros incluem vários cânticos na ordem-de-culto.

Nós estamos, há muito tempo, cansados da "corinhologia" ...

A quarta razão: os hinos continham "versos de difícil compreensão para os jovens". A hinodia não tinha culpa da ignorância dos jovens, em matéria de vernáculo, embora, na década de 90, começassem a usar a linguagem do "rock" e do "software". Em nossa adolescência, na década de 50, não tivemos qualquer dificuldade no entendimento das letras dos hinos. Luiz Sayão cita o "incipit" do hino no. 249 do "Cantor Cristão", que diz: "Numa orgia nefanda"; qual é o jovem na atualidade que nunca ouviu falar em orgia?

Mais uma vez, Luiz Sayão labora num equívoco, quando se refere à "revolução litúrgica" das igrejas tradicionais e contemporâneas, que teria mudado o perfil evangélico brasileiro; muitas dessas igrejas nunca praticaram a sério uma liturgia; foi justamente a falta de um ambiente formal de culto que propiciou o surgimento da "onda carismática"; o rompimento da formalidade fez com que fosse abandonada a tradição musical; o desprezo pelo discernimento entre música religiosa e música profana, entre música-de-culto e música-de-entretenimento, abriu as portas das igrejas aos instrumentos antes considerados profanos (guitarra, bateria, saxofone, teclados etc.), à expressão corporal e à dança.

Sayão diz que as igrejas carismáticas aceitaram os ritmos genuinamente nacionais (samba, marchinha), porque eram autenticamente brasileiras; a Igreja Quadrangular ("Foursquare Church") de Jack Hayford, autor do cântico "Majesty, worship His majesty" (Adorai em majestade) era uma igreja brasileira que cantava samba? É verdade que algumas igrejas batistas, consideradas "tradicionais", estão iniciando seus membros no aprendizado do chorinho, frevo, baião, samba, bossa-nova, maracatu e outras vertentes da música popular brasileira.

A música popular, nacional e estrangeira, executada nas igrejas evangélicas teve origem ou inspiração na Igreja Anglicana e na Igreja Romana (ver: "O Jornal Batista", 02 jan 2005, p. 4).

O articulista ressalta um aspecto que ele considera positivo: a alegria comemorativa; os tradicionais procuravam a contrição, mas os carismáticos querem festejar, pular, mover braços e pernas, dançar; a adoração meditativa dos tradicionais cedeu lugar à adoração extática dos carismáticos. Nesse ambiente informal e emocional de culto é possível o louvor com sobriedade? Os propagandistas do uso de bebidas alcoólicas aconselham: "Beba com moderação" ...

Escudando-se no artigo "Louvor com sobriedade", Luiz Sayão tornou-se o arauto de uma corrente modernista que prega o "cristianismo criativo" para abrir os templos e as igrejas às manifestações artísticas.

Timidamente, a argumentação de Luiz Sayão acaba justificando a eclesiologia, o ambiente de culto e a execução musical dos carismáticos.

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(Escrito em Brasília (DF), em 25 de fevereiro de 2008).

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Inédito

Atividades musicais em Belém do Pará

Rolando de Nassáu

A serviço da "The Coca-Cola Export Corporation" estamos trabalhando aqui em Belém, desde 5 de março, e tivemos a rara oportunidade de conhecer as 1ª. e 2ª. igrejas batistas, e a maior igreja pentecostal nesta cidade.

Logo nesse primeiro domingo, fomos convidados pelo missionário Fred Eubern Halbrooks Junior (no Brasil desde 1955 como professor do Instituto Bíblico Batista) e falamos à Primeira Igreja sobre música sacra e as atividades musicais dos evangélicos do Rio de Janeiro e de São Paulo, merecendo a atenção de um grande auditório, que saiu maravilhado com os esforços e os resultados obtidos por nossas instituições musicais mais em evidência: Associação Coral Evangélica do Rio de Janeiro, Coral "Canuto Régis", coros da Primeira Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo e da Igreja Batista de Madureira.

Depois, no sábado, 18 de março, realizou-se, no templo da Rua 14 de março, o "jubileu de prata" da Banda de Música da primeira igreja pentecostal no Brasil (Assembléia de Deus fundada em junho de 1911), constituída de crentes humildes e dedicados, que executam, com todo fervor espiritual, hinos e marchas, sob a liderança dos pastores Alcebíades Vasconcelos e José Pinto de Menezes, os quais exaltaram e demonstraram o valor e a necessidade de louvarmos a Deus. Os fundadores desta Banda de Música, organizada em 18 de março de 1936, Irmãos José Maia e José Dias, contam que "apreciavam uma fotografia da banda de música de uma igreja do interior do Estado de São Paulo e tiveram a inspiração de imitarem o bom exemplo". Começou com sete e atualmente conta com 30 músicos. Desde 1953, a Banda de Música precede o desfile evangélico comemorativo do "Dia da Bíblia" em Belém. O seu regente é o Irmão Manoel Lopes de Lima. Também tivemos oportunidade de, em dois cultos dominicais no turnos, ouvir o coro desta Igreja, com 50 cantores, cantar hinos das coleções "Coros Sacros", "Antemas Celestes" e "Melodias da Vitória", com bons resultados técnicos e artísticos.

Na tarde do domingo da Páscoa, 2 de abril, no pátio do Museu "Emilio Goeldi", sob a regência da Srta. Alya Gonçalves Costa, 40 cantores (alunos do IBBE), com suas togas novas, apresentaram hinos comemorativos da morte e ressurreição de Cristo, tendo falado, no intervalo, o pastor Raimundo Frota Nogueira, da Igreja Batista da Pedreira.

Em 6 de abril, a convite do missionário Thomas Erle Halsell (desde 1957 diretor do IBBE), proferimos uma palestra, dedicada aos alunos internos dessa mais nova escola de pastores do Brasil, sobre os seguintes assuntos: diretrizes musicais para as igrejas batistas do Brasil, definição de Música Sacra, finalidades da música no culto divino, elementos técnicos característicos da Música Sacra, erros graves observados nas igrejas evangélicas do Brasil, sugestões para a melhoria da execução musical em nossas igrejas e regras práticas para o seminarista, futuro dirigente de cultos. Durante 90 minutos, tivemos a grata satisfação de observar o sincero interesse desses seminaristas em ampliar seus conhecimentos técnicos e históricos, e elevar sua apreciação da Música Sacra. Após a palestra, seguiu-se um período livre para perguntas sobre os assuntos prelecionados. O IBBE adquiriu, para uso de seus alunos na biblioteca, quatro exemplares de nosso livro "Introdução à Música Sacra". Esperamos que este livro, já espalhado pelo Sul, promova entre os seminaristas de Belém o desejo de melhoria da execução musical nas igrejas batistas do Norte do país.

Queremos destacar o trabalho da Srta. Alya Costa, professora de música no Instituto Bíblico, jovem que saiu do conforto proporcionado pela metrópole paulistana para uma cidade pequena como Belém (que, apesar de ser o maior empório comercial da região amazônica, sofre os efeitos negativos da enormidade territorial e da escassez demográfica do Estado do Pará, que se juntam à hostilidade climática da região), tendo uma nobre e elevada missão, qual seja a de despertar e encorajar vocações artísticas, para maior glória de Deus e melhor instrução dos batistas do Norte do Brasil.

Em 16 de abril, na Primeira Igreja Batista de Belém, ouvimos, em belo dueto da soprano Amy Soares com o tenor Nélson Linhares, eficientemente acompanhados pela organista Maria Burlamaqui de Moraes, o hino no. 61 da coleção "Melodias de Vitória".

Apresentamos a todos esses abnegados Irmãos nossas congratulações e os votos de que se dediquem, cada vez mais, ao cultivo da verdadeira Música Sacra.

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(Escrito em Belém do Pará, em 23 de abril de 1961).

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